Por que fracassamos no enfrentamento às mudanças climáticas?

Por Liana Melo

Fracasso é a palavra que melhor traduz qualquer balanço que venha a ser feito meio século depois da diplomacia ambiental fazer sua estreia na Conferência de Estocolmo, em 1972. O termo foi escolhido a dedo pelo ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda Rubens Ricupero, personagem chave da Rio-92, a mais bem-sucedida das conferências sobre meio ambiente das Nações Unidas.

Mesmo admitindo que lançar mão da analogia do “copo meio cheio ou meio vazio” seria uma tendência natural ao se analisar qualquer processo histórico evolutivo, Ricupero está convencido de que, no caso das mudanças climáticas, esse critério não se aplica: “Simplesmente porque o tempo não é elástico e, até agora, fracassamos”.

A Floresta Amazônica, por exemplo, está correndo o risco de se aproximar do ponto de “não retorno”, caso o desmatamento siga em ritmo acelerado, como já alertou, inúmeras vezes, Carlos Nobre, uma das maiores autoridades do país nos estudos sobre aquecimento global. O prognóstico sombrio do cientista aponta para um estágio de inflexão ou mesmo desaparecimento da floresta caso o desmatamento exceda 20% a 25%.

“No caso das mudanças climáticas existe um prazo fatal, ainda que não seja possível cravar o momento exato em que o aquecimento global e suas consequências serão irreversíveis”, pontua Ricupero, lembrando que, mesmo com conquistas impressionantes, nada será suficiente se os países não conseguirem o mínimo indispensável para evitar que o planeta tenha um aquecimento superior a 1,5ºC.

“Se nos debruçarmos sobre as quatro ideias chaves das Nações Unidas nessas últimas décadas (desenvolvimento, promoção da igualdade entre homens e mulheres, direitos humanos e o meio ambiente), a única delas que tem uma data inexorável é o meio ambiente”, chama atenção Ricupero, complementando: “O critério para o meio ambiente não deveria ser um critério contábil, de perdas e ganhos. E sim um critério rigoroso. Do contrário, fracassamos”.

De mal a pior

De 1972 até hoje, a situação climática só piorou. As emissões globais de gases de efeito estufa aumentaram mais de 50% em 30 anos, desde a realização da Rio-92. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em abril último, foi taxativo ao afirmar que não será possível limitar o aquecimento global a 1,5°C caso não haja reduções imediatas e profundas de emissões em todos os setores da economia.

Nesses últimos 50 anos, desde a Conferência de Estocolmo, o que mudou mesmo foi a tomada de consciência sobre o problema. As mudanças climáticas saíram do armário, ainda que, nos anos 1970, fosse um tema ainda ignorado e de conhecimento de alguns poucos cientistas. Como nem se falava em mudança climática, a Conferência de Estocolmo versou sobre poluição.

A tomada de consciência sobre as mudanças climáticas ocorreu na década de 1980. De lá para cá, muita coisa mudou. Se, nos anos 1990, ainda se tinha alguma suspeita de que o homem podia afetar o clima; no começo do ano, em um dos últimos relatórios do IPCC, foi confirmada a hipótese de que as mudanças climáticas são reais, causadas pelo homem e estão se intensificando em ritmo acelerado.

Para analisar a Conferência de Estocolmo e a Rio-92, o ex-ministro lança mão do contexto geopolítico e econômico para avaliar os avanços e retrocessos. Há 50 anos, o mundo vivia o auge da guerra fria. Não à toa, a representatividade em Estocolmo foi pequena. Como a então Alemanha Oriental não havia sido autorizada a participar do encontro, todo o bloco comunista decidiu boicotar a conferência. A China havia acabo de ser incorporada as Nações Unidas, mas passou todo o encontro acusando os Estados Unidos. “Foi uma conferência bastante tumultuada e com resultados  limitados”, recorda o ex-ministro.

Já em 1992, a situação geopolítica mundial era extremamente favorável. Três anos antes, havia caído o muro de Berlin e, em 1991, a União Soviética foi dissolvida. “Muitas decisões foram tomadas nessa janela de oportunidade, como a unificação da Alemanha e o fim do apartheid”.

Como o único brasileiro a participar diretamente da organização da Rio-92 – ele foi coordenador da Comissão de Finanças, responsável por redigir o capítulo 33 da Agenda 21 – Ricupero está convencido de que o momento geopolítico favorável foi fundamental para a Rio-92 vir a ser considerada a maior de todas as conferências das Nações Unidas sobre temas ambientais. “Nunca houve, depois dela, nenhum outro esforço que tivesse chegado sequer perto do resultado da Rio-92”.

Este ano, será realizada a COP27, no Egito. “Está na hora de admitir que estamos fracassando e precisamos tomar providências para combater os danos causados pelos desastres ambientais, nas cidades ou no campo”, defende Ricupero, concluindo que falta um sentido de premência para enfrentar as mudanças climáticas.

Fonte: #Colabora*Liana Melo é formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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