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Vanja Santos fala ao Portal CTB sobre os novos desafios das mulheres na conjuntura nacional

“Chego à UBM (União Brasileira de Mulheres) para trazer as mulheres para a rua e assim dar mais visibilidade para as nossas necessidades e anseios”, diz Vanja Andréa Santos ao Portal CTB, via Whatsapp.

“Hoje mais do que nunca, precisamos nos organizar, mostrar às mulheres que todas essas reformas (trabalhista, previdenciária e do ensino médio) representam grande retrocesso para a sociedade, mas atinge a nós principalmente”, reforça.

A nova presidenta da UBM  Vanja Andréa Santos, defendeu, no 10º Congresso da organização do movimento feminista, um maior empoderamento da mulher e a unidade no combate à ideologia patriarcal.

“O movimento feminista tem estado nas ruas com bastante força, mas neste momento”, diz ela, “temos que trabalhar pelo empoderamento da mulher. Para ela entender que é importante resistir à opressão e denunciar as violências”.

Leia a entrevista na íntegra:

Portal CTB: O que fazer para enfrentar os novos desafios propostos na conjuntura de retrocessos e retiradas de direitos pela qual o país está passando?

Vanja Andréa Santos: Hoje mais do que nunca, precisamos nos organizar, mostrar às mulheres que todas essas reformas (trabalhista, previdenciária e do ensino médio) representam grande retrocesso para a sociedade, mas atinge a nós principalmente.

Em todos os projetos que determinam alguma coisa negativa na vida do povo, as mulheres são as mais penalizadas. E o papel da UBM é mostrar isso a todas. Para tanto, temos que nos aproximar mais e trazê-las para participar efetivamente da construção do movimento, principalmente porque a política está desacreditada e os movimentos sociais também.

Chego à presidência da UBM para trazer essas mulheres para a rua e assim dar mais visibilidade para as nossas necessidades e anseios.

Com a deposição da presidenta Dilma, instalou-se um governo machista, que procura penalizar as mulheres e acabar com conquistas importantes que tivemos na última década.

Portal CTB: Essa conjuntura favorece o crescimento da violência às mulheres, mesmo com o movimento feminista tendo maior presença nas ruas e com a existência de leis de combate à violência?

VAS: O movimento feminista está na rua sim. E com bastante força, mas neste momento de descrédito da política, os movimentos sociais estão sendo penalizados. Mesmo assim temos conseguido envolver as mulheres jovens na resistência.

Apesar disso, a violência está crescendo por conta deste momento. Parece que estamos num país sem leis. Vem ficando cada vez mais complicado fazer valer a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e todos os direitos das mulheres. Porque não temos infraestrutura adequada. Faltam equipamentos necessários para o atendimento às vítimas de atos violentos. Não temos delegacias de mulheres suficientes. Tudo concorre para que as leis não sejam cumpridas.

Além disso, é necessário trabalhar o empoderamento das mulheres, envolvendo toda a sociedade nessa discussão. Porque muitas são dependentes economicamente dos companheiros e não se sentem tranquilas para denunciar violências. Muitas pensam que se é ruim com ele, pior sem ele.

É uma educação que vem desde criança e corrobora para criar essa situação se submissão.

Para superar essas mazelas, é essencial que os governos federal, estaduais e municipais efetivem políticas públicas que possibilitem às mulheres uma vida sem medo.

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Portal CTB: É difícil fazer o necessário debate sobre as questões de gênero numa sociedade tão machista, ainda mais num governo retrógrado?

VAS: Esse debate está sendo muito dificultado. Pelo andar da carruagem, daqui a pouco a gente não vai nem poder usar mais a palavra gênero. Uma amiga brinca que dessa maneira teremos que parar de usar até a expressão gênero alimentício.

Temos que centrar força na educação e na nossa juventude. Para formar cidadãos conscientes, autônomos, que acreditem na liberdade e na justiça como parâmetros para os relacionamentos.

Devemos nos empenhar para levar às escolas e às comunidades essa ideia de uma sociedade que respeite as diferenças. Travar esse debate sem tabus com a nossa juventude.

Portal CTB: A contribuição da CTB nesse contexto tem sido importante?

VAS: Nós da UBM, vemos a CTB como uma entidade irmã. A contribuição da central no debate das questões de gênero tem sido fundamental. A Secretaria da Mulher Trabalhadora da CTB tem participado juntamente conosco de diversos eventos sobre a saúde da trabalhadora e sobre a própria questão do assédio.

É muito importante discutir as questões da mulher no ambiente do trabalho para empoderar a nossa luta. Quanto mais nos dermos as mãos, mais resultados positivos poderemos conquistar.

Portal CTB: O que fazer para acabar com o assédio sexual que as mulheres sofrem no trabalho, no transporte, na escola, nas ruas?

VAS: Em primeiro lugar, temos que trabalhar muito a ideia junto às mulheres para mostrar que assédio é crime. E como qualquer crime tem que ser punido.

Acabar com essa ideia de que é tudo culpa da mulher. Muitas não denunciam porque pensam que não irão acreditar nelas ou que aquilo é natural. Então o nosso trabalho é acabar com essa naturalização do assédio.

Porque não é natural aquela cantadinha, aquele fiu-fiu, aquele favorzinho do chefe. Temos que fazer as pessoas entenderem que assediar não é legal e que nada pode ser forçado. As mulheres devem ser respeitadas como todo mundo.

Assista:  

Portal CTB: Qual o papel a mídia nisso tudo?

VAS: O papelão que a mídia desempenha na difusão da ideologia patriarcal é de chorar. Tem uma novela da Rede Globo – essa emissora que aterroriza tanto o país – onde todas as mulheres são ruins. Uma é viciada em jogo, outra trai o marido. Não tem nenhuma mulher que “presta” nessa novela.

Infelizmente o papel da mídia tem sido o de difundir a cultura machista, muitas vezes naturalizando a violência.

Quando a gente vê o Silvio Santos pedir, em seu programa, para uma menina aceitar ser paquerada por um rapaz e, pior ainda, expô-la a constrangimentos, parece ter a intenção de mostrar de que aquilo é tudo muito natural.

O que é isso se não a tentativa de passar a ideia de que a mulher é mero objeto para satisfazer ao homem.

Então, o que fazer para acabar com esse tipo de procedimento? Denunciar ao Ministério Público Federal, fazer muitos debates, mostrar o tempo todo que isso não é correto, não é justo.

Mas a imprensa faz o desserviço ao mostrar as feministas como mulheres que não têm o que fazer, por isso ficam atazanando a vida das pessoas.

A nossa luta é árdua, mas vale a pena lutar. Estamos trilhando o caminho certo. A nossa luta é para conquistar direitos iguais, respeito, vida livre e sem medo.

Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

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