Para presidente da Contag, governo precisa enfrentar questões estruturais do campo

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Alberto Broch, entende que o governo federal precisa enfrentar de maneira mais incisiva os problemas estruturais do campo no país.

Em entrevista exclusiva para o Portal CTB, o dirigente sindical citou a reforma agrária como uma necessidade urgente que não tem recebido a devida atenção da presidenta Dilma Rousseff.

 Cerca de uma semana após a realização da 18ª edição do Grito da Terra Brasil, Broch faz uma avaliação positiva do evento, que levou a Brasília quase dez mil trabalhadores e trabalhadoras rurais. No entanto, o presidente da Contag afirmou que haverá uma grande fiscalização, em todo o país, para garantir que as reivindicações apresentadas saiam do papel e beneficiem a população do campo.

Ao longo da entrevista, Alberto Broch também analisou as mudanças e vetos realizados pelo governo federal em relação ao Código Florestal. “Nós vamos fazer um trabalho no Congresso Nacional para que esses pontos sejam mantidos, principalmente a diferenciação para a agricultura familiar”, afirmou.

Confira abaixo a entrevista:

Portal CTB: Qual o balanço que a Contag faz em relação ao Grito da Terra Brasil 2012?
Alberto Broch: Ainda é um balanço não definitivo nas instâncias da Contag. Nós precisamos fazer essa avaliação com a diretoria, em conjunto com as federações. Mas, preliminarmente pela direção da Contag, nós podemos dizer que esse balanço é extremamente positivo. A Contag sem dúvidas nenhuma mexeu com quase 100 mil trabalhadores e trabalhadoras rurais em todo o país nesta grande mobilização, que durou mais de seis meses e com a participação de em torno de 8 mil trabalhadores e trabalhadoras rurais nos dias 29 e 30 de maio, em Brasília. Mobilizou sindicatos, federações, dialogamos com a sociedade, denunciamos as armações e aquilo que não anda no governo. Tivemos duas audiências com a presidenta Dilma, na entrega da pauta e no recebimento das respostas, tivemos reunidos com mais de 12 ministros e ministras de Estado. Foi extremamente importante nesse momento a participação da CTB e da CUT, que tanto na entrega da pauta e no recebimento das respostas estiveram presentes. Portanto, nós conseguimos fazer um diálogo com a sociedade e reafirmamos a importância política da Contag, como a grande catalisadora, como grande instrumento e organização de representação política dos trabalhadores e trabalhadoras rurais no campo brasileiro.

Diante das promessas feitas pelo governo, como será feita a fiscalização para que realmente as promessas sejam cumpridas?
Nós pretendemos fazer balanços trimestrais com o governo, até porque há coisas que andaram, outras coisas estão em encaminhamento e foram tiradas grupos de trabalho, e que o governo vai continuar respondendo mais tarde. E temos questões que realmente não andaram, então nós queremos fazer as reuniões trimestrais, principalmente com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e com a Secretaria Geral da Presidência, que são os dois ministérios encarregados pela presidenta Dilma na articulação com as outras áreas do governo.

Portanto, nós pretendemos nos reunir e cobrar do governo item por item daquilo que foi anunciado e dos encaminhamentos que foram feitos. E também continuaremos insistindo nos pontos centrais estruturantes, especialmente na reforma agrária que continua parada.

Como a Contag analisa a questão da reforma agrária não fazer parte da prioridade do governo federal no momento?
Eu diria que esse é um problema sério e muito antigo. A reforma agrária, a questão agrária, as questões estruturantes agrárias no Brasil, elas estão estagnadas há muito tempo. Nem no governo do ex-presidente Lula andou da forma que nós queríamos e nem no governo da Dilma está andando. Sendo assim, aí está o problema da violência no campo, os conflitos agrários, das vidas que são perdidas infelizmente nesses conflitos.

E o governo não tem tido uma postura de enfrentamento das questões estruturais do campo, especialmente da reforma agrária. E mais uma vez ficou muito nítido na pauta do Grito da Terra Brasil, onde nós tivemos questões que avançaram, com políticas sociais, políticas agrícolas, encaminhamos coisas importantes em relação ao Ministério do Trabalho, mas na questão agrária a quantidade de assentamentos, as melhorias necessárias de fato realmente isso não aconteceu. O que há é muito tímido e não resolve o problema. Portanto, a nossa avaliação é que nós deveremos unificar com todos os demais movimentos do campo brasileiro. E nós contamos também com a CTB para que possamos fazer grandes enfrentamentos de propostas novas e inovadoras e ao mesmo tempo poder pautar no conjunto da sociedade, no Congresso Nacional e no governo a necessidade de fazer esse enfrentamento no campo brasileiro.

Com relação ao Código Florestal Brasileiro, o que significam essas mudanças para os trabalhadores rurais?
A Contag vinha defendendo, no último debate na Câmara dos Deputados, o texto aprovado no Senado, pois lá foi feito um grande acordo entre o governo e parlamentares – embora nós sempre tivéssemos uma postura critica, já que o texto do Senado não era a melhor proposta, mas era o que mais se aproximava, principalmente porque criava um capitulo específico da agricultura familiar. A Contag teve uma postura para que a presidenta Dilma não vetasse todo o conteúdo do Código Florestal, mas apenas de parte dele – e isso veio a ocorrer. Oferecemos nossas propostas para a medida provisória que já está lançada, que substitui, digamos, parte do texto do Código que foi vetada.

Nós vamos fazer um trabalho no Congresso Nacional para que esses pontos sejam mantidos, principalmente a diferenciação para a agricultura familiar. Nós temos uma estrutura agrária muito diferenciada. Não é justo que esse público tenha as mesmas condições, por exemplo, de trabalhar em relação às questões ambientais de um proprietário que tenha 5,10, 20, 50 mil hectares de terra. Portanto, nós achamos que houve um princípio de justiça. Agora precisamos atuar no Congresso Nacional para que a gente possa garantir a especificidade da agricultura familiar, já que não podemos tratar de forma igual os desiguais nesse tema do Código Florestal.

 

Paula Farias – Portal CTB
Confira aqui matéria especial sobre como foi o Grito da Terra Brasil 2012

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Mudanças
 
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