Para Lugo, Paraguai terá embate entre esquerda renovada e direita não reciclada

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O ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, vítima de um golpe que o tirou do cargo no último dia 22 de junho, concedeu entrevista coletiva a jornalistas da imprensa alternativa nesta quinta-feira (2), em São Paulo. Por mais de duas horas, falou sobre seu futuro político e o de seu país, analisou a atual conjuntura latino-americana e mostrou-se pronto para colaborar com as forças progressistas do continente.

Lugo esteve em São Paulo para realizar exames médicos, por conta do câncer linfático descoberto em agosto de 2010 e já extraído, com sucesso, no Brasil. Mais de 20 jornalistas compareceram à entrevista, promovida pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Confira abaixo os principais trechos da conversa, separados por tema:

Balanço de governo
Não fiz nenhuma medida socialista ou de esquerda. Aceitamos as regras do jogo. Tínhamos boas relações com os organismos internacionais e apresentávamos indicadores que eles gostam de ver, como crescimento da economia, controle da inflação e multiplicação das reservas internacionais. Mas havia um perigo: a continuidade do processo de mudanças no país. Isso incomodava bastante. Estávamos bem economicamente, mas politicamente tínhamos forte articulação com grupos sociais.

Golpe
Até agora, a Suprema Corte tem rechaçado nossos pedidos, porque o Parlamento ameaçou de submetê-los, também, a um juízo político – o que eu considero chantagem. […] O golpe tem diversos rostos ocultos. A classe política paraguaia, às vezes, atua de braços dados com poderes paralelos, pois são eles que financiam as campanhas e os partidos. […] Quando eu comecei na política, me diziam que 70% das decisões eram tomadas fora do país. Eu não quis acreditar. Hoje, pela minha experiência, não descarto totalmente essa possibilidade.

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Volta à Presidência

Na política paraguaia, tudo é possível. O que é hoje, não será mais amanhã. Apresentamos dois recursos de inconstitucionalidade na Corte Suprema Federal: um sobre o processo em si e outro sobre a impossibilidade de defesa. Já se passou um mês e o Senado ainda nem sequer deliberou sobre o por que de minha destituição. […] Na conjuntura atual, sou simplesmente um articulador pela unidade dentro da esquerda paraguaia.

América Latina
Há blocos na América Latina com características diferentes, blocos econômicos, ideológicos, e há toda essa tentativa de articulação e integração. Hoje, depois do que ocorreu ao Paraguai, creio que qualquer país tem que estar alerta. Quando houve o golpe em Honduras, já me diziam que o próximo seria o Paraguai. A direita mundial não tem limites.

Direitos políticos
A Constituição não permite que um presidente se reeleja nem que se candidate a qualquer outro cargo após governar por cinco anos, porque se converte automaticamente a senador vitalício. Mas eu não governei por cinco anos nem sou senador vitalício. Portanto, tenho via livre para recuperar meus direitos políticos e apresentar minha candidatura.

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Atual governo

O governo que se instalou em 23 de junho já tomou quatro medidas que nos fazem pensar na ingerência desses poderes de fato na política paraguaia. […] As multinacionais, se não se candidatam, financiam candidaturas. E depois cobram favores.

Papel dos sindicatos paraguaios
No Paraguai, não sei como é aqui no Brasil, os sindicatos não têm a mesma força de outros movimentos sociais, como os camponeses, por exemplos. Falta-lhes, possivelmente, uma leitura mais política da situação, assim como vemos em outros países.

Eleições em 2013
Mais do que nunca, a próxima eleição verá uma esquerda renovada e uma direita carente de reciclagem. A sociedade está polarizada. Os candidatos da direita podem ter a propaganda, o financiamento e os meios de comunicação, mas não têm apoio popular, não têm militantes, como a esquerda. Têm apenas clientes políticos e eleitorais. Há esperança, mas não há ilusão de mudança rápida.

Fernando Damasceno – Portal CTB

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