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No Julho das Pretas, cetebistas negras contam suas histórias de enfrentamento ao racismo

Por causa do Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha – 25 de julho -, o mês passou a ser chamado de Julho das Pretas. O Portal CTB, por isso, perguntou a diversas dirigentes negras, sobre uma história de racismo que as marcou muito.

As histórias denunciam a dupla discriminação sofrida pelas mulheres negras. São atacadas por serem negras e por serem objeto do desejo do homem branco. Desejo forjado pela ideologia patriarcal, desde a escravidão para justificar a luxúria dos senhores de escravos.

A secretária da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil nacional, Mônica Custódio, conta que estava sentada na faculdade estudando, quando chegou uma mulher branca e disse que queria o seu lugar. Ela espantou-se e questionou o porquê e a mulher disse que era porque ela estava “cansada”.

Muitas relatam implicâncias com os cabelos afros e chegaram a perder a possibilidade de promoções por serem negras e, de acordo com os olhos do patronato branco, não têm boa aparência para determinadas funções.

Acompanhe as histórias, se emocione e se revolte:

Adriana Silva, secretária da Igualdade Racial da CTB-ES

Racismo sofro todos os dias por ser mulher negra e da periferia. É algo que está presente no meu dia-a-dia, sofro na faculdade, no trabalho, em todos os lugares. Um exemplo disso é quando perguntam minha profissão e eu respondo que sou empresária aí me perguntam se concluí o ensino médio eu digo que faço faculdade, aí as pessoas se espantam.

Cherry Almeida, dirigente da CTB-BA

No Conselho Municipal de Saúde de Salvador aconteceu algo inusitado para mim. Resolvi disputa a eleição para a presidência do conselho. No dia da reunião na qual coloquei meu nome, ouvi alguém falar assim: “Eu acho que a Cherry é muito ousada, mas ela não tem o perfil para presidir o conselho municipal da terceira maior capital do país”.

Fiquei pensando qual seria esse perfil em que eu não me enquadrava, justamente morando na cidade mais negra fora da África. Era o olhar do perfil do padrão de beleza ariano. Outra vez disseram: “A não, a Cherry é do Sindicato dos Comerciários, não é da saúde e ela está fora do perfil de um conselho municipal dessa envergadura”.

Claudia Vitalino, dirigente da CTB-RJ e do Sindsprev-RJ

Em meu primeiro ano na gestão do Sindsprev-RJ, na diretoria estadual da Secretaria Sócio- Cultural, uma filiada entrou na sala, querendo falar com alguém da diretoria para solucionar um problema.

Eu iniciei o atendimento. Aí minha secretária loira voltou de uma tarefa que tinha ido resolver na rua. Na mesma hora em que ela chegou, a servidora do Ministério da Saúde começou a perguntar para ela tudo o que eu já tinha respondido, como se ela fosse a diretora e eu a funcionária do sindicato.

A minha secretária, muito sem jeito, disse que eu era a diretora. A moça ficou muito sem graça, pediu desculpas e agradeceu o atendimento…

Doméstica

Uma outra vez eu estava em um ônibus na zona sul do Rio de Janeiro, ao meu lado sentou uma senhora branca aparentando uma boa condição financeira. Conversamos e quando eu estava me despedindo, ela me entregou um cartão e disse para mim que estava precisando de uma secretária doméstica e que se eu ou alguma amiga minha estivesse precisando para entrar em contato. Detalhe em nenhum momento da conversa falei sobre a minha profissão…

Eu engoli a raiva e entreguei o meu cartão a ela e disse que se ela ou alguma amiga também estivesse precisando para ela me ligar. Ela ficou vermelha e tentou se desculpar…

Izane Mare Ribeiro Mathos, diretora da CTB-RS

Quando eu tinha 15 anos, buscando o primeiro emprego, não fui admitida em um supermercado, por ser afrodescendente. Fui dispensada, após olharem minha fisionomia, isso porque fui pessoalmente. Não havia mandado currículo.                   

Já em meados de 1990 quando minha primogênita nasceu, uma conhecida branca, entrou no quarto do hospital, dizendo “deixa eu ver se não saiu neguinha”.

Outra vez mais recente, em um salão de cabelereiros a atendente, disse para mim: “Tu tens a pele clara, mas teu nariz achatado e o cabelo ruim denunciam tua raça”. Na hora, eu disse: muito me orgulha a minha raça negra e meu cabelo não é ruim, é crespo. Falei que ela estava cometendo ato racista e discriminatório. Saí do recinto, sem retocar a tintura, que entrei lá para fazer.

Lidiane Gomes, secretária da Igualdade Racial da CTB-SP

Aos 17 anos, eu trabalhava em uma fábrica de instrumentos cirúrgicos em um bairro periférico de Campinas (SP). Estava cursando o terceiro ano de Processamento de Dados em um Colégio Técnico tradicional da cidade. Trabalhava e ajudava minha mãe a pagar metade da mensalidade.

Um dia abriu uma vaga de secretária que necessitava saber usar o computador. Fui candidata à vaga e a gerente, que era minha amiga pessoal, desceu do escritório chorando copiosamente. Ela não conseguia me dizer qual era o problema.                       

Depois de um tempo, se refez e me disse que eu não seria secretária porque eu era preta e que por isso, não ficaria bem eu ficar na frente da loja atendendo o público. Neste dia vi bem o que é ser negra no Brasil.

Maria Alves de Souza, diretora de Políticas Sociais e Previdência da Fetaemg

Comigo acontece muitas vezes, quando as pessoas anunciam a presença da diretora da Fetaemg, sinto olhares de desprezo. Essa situação só começa a mudar após eu começar a falar sobre ao assunto em pauta.

Em minha cidade, Ouro Verde (MG), em um período de campanha eleitoral, fiz campanha para um candidato quilombola a vereador. No dia seguinte, as pessoas me abordaram na rua dizendo: De pentear os cabelos você não gosta, mas de subir em palanque e ficar interferindo na vida das pessoas você gosta”. Isso porque sou negra e me orgulho muito disso.

Santa Alves, secretária da Igualdade Racial da CTB-DF

O racismo comigo acontece no comércio, geralmente os vendedores nos olham como se pensassem será que tem dinheiro, aqui no shopping de Brasília tem câmeras que monitoram a chegada e os negros são todos suspeitos, falo isso pois tenho um amigo que trabalha na segurança. Os olhares acontecem sempre, mas não me abordaram.                       

Também já me perguntaram na rua se eu sabia de alguém queria trabalhar como doméstica.

Tereza Bandeira, secretária da Mulher do Sinttelba e dirigente da CTB-BA

Em uma empresa no ramo do comércio, onde eu desenvolvia atividades, deixei de ser promovida por usar cabelo natural. Prevalecia a questão da “boa aparência”, ou seja, cabelos alisados. O padrão de beleza europeu prevalece e as negras são marginalizadas.    

Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy.  Foto: Blog Biotipo                                 

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