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Lejeune Mirhan: “Trabalhadores dos países árabes apoiam a criação do Estado da Palestina”

A CTB participará, entre os dias 22 e 24 de março, do 9ª Congresso da União Geral dos Trabalhadores Palestinos (UGTP). A Conferência ocorrerá na cidade de Ramalláh, sede da Autoridade Nacional Palestina, na Cisjordânia. Na mesma localidade, ocorrerá no dia 22 a Conferência Internacional em Solidariedade à Palestina, organizada pela Federação Sindical Mundial (FSM).

O representante da CTB nas duas atividades será o sociólogo, escritor, arabista e sindicalista Prof. Lejeune Mirhan, especialista em Oriente Médio e mundo árabe – região do mundo que estuda há 30 anos. Nesta entrevista, concedida às vésperas de sua viagem para a Cisjordânia, ele fala sobre o papel dos trabalhadores da região para a criação do Estado Palestino, discorre sobre as dificuldades enfrentadas por seu movimento sindical e analisa a possibilidade de eclodir uma nova guerra em curto prazo.

Confira abaixo:

Portal CTB: Para o movimento de solidariedade à luta do povo palestino, qual a importância de um evento organizado por uma entidade como a Federação Sindical Mundial (FSM)?
Lejeune Mirhan: A Federação Sindical Mundial é uma organização sindical mundial das mais antigas do mundo. Tem centenas de entidades filiadas em todos os cinco continentes, que representa hoje em torno de cem milhões de trabalhadores sindicalizados. Essa organização sindical mundial, que desde 1948 é radicalmente solidária à luta dos palestinos pelos seus direitos, pela sua soberania e pelo seu Estado, neste momento em que o mundo inteiro clama e defende que o Estado da palestina seja aceito como membro pleno da ONU, com o número 194º, uma Conferência dessas, de caráter internacional, na Cisjordânia ocupada por Israel, reforça a luta palestina. Por isso a sua importância.

A respeito do movimento sindical palestino, qual tem sido o papel histórico dos trabalhadores da região para a luta pela criação do Estado da Palestina?
Todas as centrais e federações gerais de trabalhadores dos países árabes apoiam, de forma decisiva, a criação do Estado da Palestina. Quanto a isso, não há divergências. Ocorre que essas entidades, na maioria dos países, que são monarquias feudais e reacionárias, praticamente proíbem essas entidades de organizarem manifestações em apoio aos palestinos. O único Estado nacional árabe que hoje apoia de forma decisiva a criação do Estado da Palestina é a República Árabe Síria, cujo governo tem estado sob completo ataque de forças estrangeiras que tudo fazem para derrubá-lo. O próprio presidente da FSM é um árabe e é sírio, Adnan Azzouz, presidente da Federação Geral dos Trabalhadores Sírios.

Na condição de estudioso sobre o Oriente Médio e o mundo árabe em geral, quais são as principais dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora do povo palestino na atualidade? Quais os principais problemas sociais e econômicos enfrentados por eles hoje em dia?
A questão central hoje é a dificuldade que a Palestina vive. Sob ocupação de exército invasor desde maio de 1948, os territórios da palestina histórica restaram em mãos palestinas, ainda assim de forma limitada, apenas 20% das terras originais. Os acordos de Oslo de 1993 concederam – ainda que isso tenha sido um fato positivo – uma autonomia limitada para a Autoridade palestina na Cisjordânia e em Gaza. Os palestinos não podem gerir seus impostos, não têm moeda própria, usam a moeda israelense. A crise mundial do capitalismo, em um país sob ocupação como a Palestina, ela se abate de maneira ainda mais draconiana. O desemprego aberto é elevadíssimo e chega a 40%. A informalidade é total. Os 1,5 milhão de palestinos que moram em Israel, esses vivem mal também, pois costumam ganhar 40% menos que um trabalhador israelense. E, na maioria dos casos, desempenham funções que um trabalhador israelense não desempenha (profissões de “segunda classe”). Lamentável essa situação, mas tudo isso é atestado com dados precisos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Alguns especialistas enxergam a possibilidade de uma nova guerra em curto prazo na região do Oriente Médio; outros dizem que, por ser um ano eleitoral nos EUA, essa hipótese é remota. Qual sua análise a respeito?
Ali naquele mundo, tudo pode acontecer. Em relação às eleições americanas, uma guerra ajudaria muito Obama. Mas seria mais um apoio a um ataque que Israel pode vir a fazer contra o Irã. Acho difícil isso, porque não há autonomia de voo tão grande aos caças israelenses, que não teriam apoios em terras para reabastecimento e fazer isso com muitos aviões no ar é caríssimo e muito difícil. Operação arriscada. Mas pode acontecer. A tensão no momento diz respeito à Síria. O eixo do mal, formado por EUA, Israel, França, Inglaterra e as monarquias fascistas do Golfo, em especial Arábia Saudita e Qatar, fazem tudo pela derrubada do governo patriótico e apoiador da causa palestina do Dr. Bashar Al Assad, da Síria. Esse país forma outro eixo, antiimperialista, que tem o Irã, o Líbano e o Iraque.

Recentemente, a Rússia montou uma base no estratégico porto de Tartous na Síria e o Irã mandou para lá a sua 18ª frota de navios. Pela primeira vez, desde a revolução iraniana, um navio desse país persa cruza o canal de Suez e chega ao Mediterrâneo e atraca em Tartous também. E não foi um navio só que passou. Foi uma frota inteira. Pelo menos nove embarcações militares. Se a Rússia perde essa base, como dizem alguns especialistas, ela não “beberá uma canequinha de água do Mediterrâneo nunca mais”! Outro local de tensão é o próprio Golfo Pérsico. Por ali, no estreito de Ormuz, passam por dia quase 40% de todo o petróleo do mundo. E os EUA têm duas das suas seis frotas navais permanentemente naquele Golfo. O Irã tem centenas de navios da sua marinha de Guerra. Assim, o clima está muito tenso em toda a região. Sem falar do interesse da Turquia em apoiar essas manobras americanas e israelenses, para se cacifar como líder regional. O que ela vem colhendo é muito ódio e rancor de todo o mundo muçulmano e árabes em geral pelas suas posturas pró-ocidentais.

Em uma viagem internacional como esta, na qual você representa a CTB, quais os riscos envolvidos?
É uma viagem sempre arriscada. Não existe Palestina no mapa mundial. Existe só Israel. A Palestina, o que restou dela, atende pelo nome de Cisjordânia e Faixa de Gaza. Como já disse, em torno de 20% das terras que historicamente eram dos palestinos antes da ocupação sionista da região com apoio da Inglaterra e dos EUA. Para chegar a nosso evento, que será também o 9º Congresso da Central dos Trabalhadores Palestinos, nós descemos no aeroporto de Tel Aviv. Só depois é que nos dirigimos à Ramalláh, sede da ANP e da GUPW. Nessa viagem por terra de uma hora, passaremos por vários checkpoints – todos controlados pelas Forças de Defesa de Israel, que é o seu exército, o quarto mais poderoso do mundo. Tudo pode acontecer nesse trajeto ou mesmo criarem dificuldades para as delegações sindicais de todo o mundo que para lá se dirigem.

Fernando Damasceno – Portal CTB

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