Haddad: “A cidade que queremos é uma que acolha a todos e não perpetue injustiças”

“Quando eu me tornei prefeito de São Paulo, eu imaginava uma cena singela: que, quando eu colocasse o pé na rua, eu continuasse me sentindo em casa”. Essas foram as primeiras palavras de Fernando Haddad, candidato a reeleição para a prefeitura de São Paulo, ao abrir o seu discurso de comício na noite desta terça-feira (27).

O último grande evento de campanha do atual prefeito paulistano aconteceu diante de uma plateia lotada na Casa de Portugal e dezenas de grandes intelectuais e artistas, repetindo a façanha realizada na campanha de Dilma Rousseff em 2014. A presença do ex-presidente Lula deu um peso político extra à ocasião.

O discurso dos dois pode ser visto logo abaixo na íntegra:

O discurso de Fernando Haddad começa aos 7m55s
O discurso de Lula começa aos 31m45s

As centenas de pessoas dentro e fora do prédio acompanharam com humor eufórico sucessivas personalidades brasileiras tomarem o microfone em defesa do projeto humanizante que é realizado na metrópole desde 2012. “O que se comemora aqui, principalmente, é o troca da ‘São Paulo S.A.’ por uma cidade mais humana, voltada para as pessoas. Isso não pode acabar”, explicou a cineasta Anna Muylaert. Além dela, nomes como Daniela Mercury, Chico César, Tata Amaral, Laerte, Gregório Duvivier, Flávio Renegado, Zélia Duncan, Otto e Chico Buarque fizeram sua própria contribuição, afirmando apoio à atual administração.

Ao lado dos intelectuais, José Miguel Wisnik, Zé Celso, Juca Ferreira, Boaventura Souza Santos, Daniel Ganjaman, Leonardo Boff, Renato Janine, Luiz Gonzaga Belluzzo e André Singer foram algumas das figuras que falaram no mesmo sentido. Até mesmo o ex-ministro tucano Luiz Carlos Bresser-Pereira compareceu para declarar apoio, chamando Haddad de “representante da democracia”. Entre as lideranças sociais, destacaram-se Adilson Araújo (presidente da CTB), Sérgio Vaz (poeta e criador da Coperifa), Natália Szermeta (coordenadora do MTST), Tamires Sampaio (vice-presidenta da UNE) e Anderson Lopes (Movimento Nacional de População de Rua).

O discurso de Haddad – e o de Lula, logo em seguida – foi construído em torno das justificativas para a reorganização do espaço da cidade, que passou a priorizar as pessoas ao invés dos carros e o público ao invés do privado. “Mas esse conceito simples, que todo mundo pode entender, exige uma atenção permanente de todos nós, porque para você se sentir em casa, você não pode tolerar as injustiças. Se não houver uma atitude de combate às injustiças, essa cidade não é possível, e isso exige um olhar educado para um novo tipo de interação – todos os nossos programas têm esse mesmo tema de fundo, que é a pessoa se sentir acolhida pela cidade, respeitada em seus direitos”, explicou o prefeito. Deste pensamento, disse, surgiram medidas como os corredores de ônibus, os centros de referência para combate ao racismo, ao machismo e à homofobia, a abertura da Av. Paulista aos domingos, as salas de cinema públicas nas periferias e tantos outros. “A gente tem que parar de pensar que o único programa paulistano é ir para o shopping”, brincou.

Sua fala foi feita num tom animado, bem diferente do modo professoral como normalmente se comporta Haddad ao palanque. De fato, Lula até o provocou ao se levantar: “Ele hoje conseguiu se superar, eu nunca tinha visto você fazer um discurso tão emocional”. O ex-presidente focou sua exposição na importância de eleger um candidato progressista para a Prefeitura de São Paulo, argumentando que Haddad poderia fazer frente aos ataques aos direitos sociais e trabalhistas que virão daqui para frente. “Ele terá uma posição fundamental para fazer o enfrentamento com os conservadores”, disse. Falou então da PEC 241, que pretende congelar os gastos do Governo Federal durante 20 anos, e dos cortes nos investimentos em saúde e educação, colocando-os como desafios fundamentais a serem enfrentados pelas esquerdas.

Necessidade de união com Erundina

Um tema que apareceu de forma recorrente ao longos dos discursos da noite – foram mais de 20 – foi a necessidade de resolução do racha progressista que atualmente coloca Luiza Erundina (PSOL) em oposição ao restante das esquerdas paulistanas. O escritor Fernando Moraes foi o mais enfático neste sentido: “Nós corremos o risco de entregar a maior cidade do país para as mãos dos golpistas! Esta na hora de a esquerda dar um exemplo de união e formar um projeto único para a cidade. E esta na hora de PSOL e PT se entenderem e lutarem juntos contra os golpistas”.

O comentário se deve à situação de canibalização mútua que Haddad e Erundina enfrentam ao apresentam programas que são essencialmente iguais nas propostas, mas que concorrem pelos mesmos votos. Os dois candidatos estão respectivamente em quarto e quinto lugar na corrida, atrás de Marta (PMDB), Celso Russomano (PRB) e João Doria Jr. (PSDB). A tese de fusão entre as duas chapas colocaria-os em pé de igualdade com Marta Suplicy, abrindo caminho para uma campanha de “voto útil” que poderia alavancar Haddad para o segundo lugar e, portanto, para o segundo turno.

O advogado e jurista Pedro Serrano, professor de Direito da PUC-SP, também abordou o tema: “Ameaçando a ideia de cidade, aparece a ideia de campo de concentração, habitado por seres viventes sem vontades, que não são dotados de direitos civis e políticos, oprimidos por uma polícia que tem pouco de Polícia e muito de Militar. É contra isso que a candidatura de Haddad se coloca, e a gente tem que falar com a população, não para que façam um voto útil, mas um voto unificado em torno disso. A união é fundamental nessa hora”.

As eleições municipais acontecem em todo o Brasil no próximo domingo, 2 de outubro.

Por Renato Bazan – Portal CTB

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