Contag sai da CUT e reafirma defesa da unicidade

Pascoal Carneiro

Várias lideranças da esquerda brasileira marcaram presença na abertura do 10º Congresso da Contag. Nos discursos de abertura todos lembraram a importância histórica dos congressos da entidade, que representa mais de 20 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, e reafirmaram o papel que a Confederação desempenha na sociedade brasileira, sobretudo na definição das políticas nacionais para a área rural. O presidente da CTB, Wagner Gomes, falou da importância que o sindicalismo rural tem para o Brasil e conclamou os delegados e delegadas a manter a unidade para enfrentar a crise econômica e lutar contra a portaria 186 do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), que busca consagrar o pluralismo sindical no âmbito das federações e confederações.

O crédito agrícola, a reforma agrária, a preservação ambiental, o fortalecimento da agricultura familiar e a implantação irrestrita do Programa Luz para Todos foram apontados como prioridades para garantir igualdade de oportunidades e justiça social no campo. As reivindicações constam do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário da Contag – PADRSS, que será o principal de eixo de atuação da sua nova direção durante os próximos quatros anos. “As propostas do PADRSS são fundamentais para fortalecer a agricultura familiar e enfrentar os impactos da crise mundial, que está sendo aproveitada por empresários oportunistas para flexibilizar os direitos trabalhistas”,

Pautado na teoria do desenvolvimento rural sustentável e fundamentado na luta pela reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar, assim como pelos direitos trabalhistas e por melhores condições de vida para os assalariados e assalariadas rurais – entre outros pontos -, o projeto é um dos principais instrumentos da Contag, a maior organização camponesa da América Latina.

O 10º congresso foi dividido em comissões temáticas que debateram os seguintes temas:  Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural, Sustentável e Solidário (PADRSS); políticas agrária, agrícola e sociais; meio ambiente; assalariados e assalariadas rurais; formação e organização sindical; sustentabilidade política e financeira; relações internacionais; juventude rural; organização e luta das mulheres trabalhadoras rurais e pessoas da terceira idade.
 
O ponto mais polêmico do Congresso foi a desfiliação da Contag à CUT, assunto discutido em todos os grupos de trabalho. Os partidários da continuidade da filiação buscaram vincular o debate da desfiliação à filiação em outra central. Tentaram queimar a CTB. Porém, a grande maioria dos delegados e delegadas enfatizaram a importância de politizar o debate, procurando discutir as concepções sindicais e políticas da  Contag. O Congresso reiterou a defesa da unicidade sindical, rechaçando o pluralismo e o divisionismo. Além disto, apontou a luta por um novo projeto de desenvolvimento nacional, a unidade com os trabalhadores urbanos, a defesa do emprego, a convicção de que a classe trabalhadora não deve pagar pela crise.  A desfiliação da CUT foi aprovada por 1.441 votos contra 1.109

Fundada em 22 de dezembro de 1963, no Rio de Janeiro, a Contag é a maior entidade sindical de trabalhadores e trabalhadoras da America Latina. Na época de sua fundação existiam 14 federações e 475 sindicatos de trabalhadores rurais. Hoje, a entidade está organizada em todos os estados, conta com 27 federações e cerca de 4 mil sindicatos rurais representado 21 milhões de trabalhadores do campo.  O 10º Congresso também elegeu a nova diretoria da entidade. Apenas uma chapa disputou o pleito. 
 
A chapa única foi presidida por Alberto Broch, sindicalista gaúcho. Broch é dirigente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), entidade que é filiada à CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil). Ele foi eleito para dirigir a Contag pelos próximos quatro anos. A votação aconteceu no último dia do Congresso (14/03/2009) e obteve cerca de 97% dos votos dos delegados e delegadas. A Contag preservará sua autonomia e, conforme declarou seu novo presidente, trabalhará principalmente com as duas centrais com maior representatividade no campo brasileiro: a CTB e a CUT.

O presidente eleito da Contag, Alberto Broch comemorou a participação intensa dos estados e acredita que a discussão foi fundamental pois levou para debate todos os temas de interesse dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais. Revelou, assim, a força e a unidade do campo.

10º Congresso aprovou também a criação das secretarias de Meio Ambiente, De Mulheres, de Jovens e a de Terceira Idade. Foi reafirmada também as cotas de mulheres (30%) e jovens (20%). A nova diretoria é composta por 13 membros, sendo três jovens ocupando secretarias, a de política agrária, meio ambiente e juventude 

A nova diretoria recebeu 2.389 votos, 54 votaram nulos e 83 em branco. A posse está marcada para abril.  E em abril serão definidas também as bandeiras do Grito da Terra e a pauta de negociação com o governo federal. A agenda será concentrada em três questões: agilização da reforma agrária, melhoria das políticas públicas, principalmente no que diz respeito à assistência técnica, e melhoria de programas existentes, como o seguro agrícola e o Pronaf.

Eu acompanhei todo congresso e tenho convicção de que a direção eleita conta com força e unidade para organizar a luta dos trabalhadores para enfrentar a sanha do capitalismo e das grandes empresas rurais. Foi um congresso histórico, que teve por saldo uma lição de unidade para o conjunto da classe trabalhadora e do movimento sindical brasileiro e que ofereceu uma poderosa ferramenta para atuação unitária do sindicalismo no campo.


Pascoal Carneiro é metalúrgico e secretário geral da CTB

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