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Campanha “América da Paz” será ampliada a partir do FSM, diz presidente do Cebrapaz

Para a presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz, Socorro Gomes, é necessário que esse movimento ganhe os corações e as mentes do povo latino-americano, pois só assim será possível criar uma força que se contraponha ao poderio do imperialismo.

Venezuela, pré-sal, IV Frota, Bolívia, recursos naturais, Paraguai, Alba, Honduras… por trás de toda a complexidade que envolve a América Latina, cresce a cada ano a necessidade de conscientização dos interesses imperialistas pela região, bem como do perigo que isso representa. Diante desse cenário, o Cebrapaz lançou no final de 2009 a campanha “América da Paz”, cuja ampliação está prevista para ocorrer em Porto Alegre, no dia 27 de janeiro, durante a décima edição do Fórum Social Mundial.

A reportagem do Portal CTB conversou com Socorro Gomes a respeito da campanha, do atual cenário latino-americano, do golpe recentemente ocorrido em Honduras, da recente tragédia no Haiti e da polêmica em torno do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Confira abaixo:   

Portal CTB: Iniciado o ano de 2010, como o Cebrapaz pretende ampliar a campanha “América da Paz”?
Socorro Gomes: A América Latina hoje tem uma configuração política distinta — ela joga um outro papel no mundo — e essa configuração está no sentido de se fortalecer por um caminho soberano, de desenvolvimento social, de reapropriação dos recursos dos povos e nações, para garantir mudanças progressistas para essas sociedades. Esse caminho colide com os interesses hegemônicos do imperialismo estadunidense. Toda a América Latina sempre foi conhecida como uma espécie de quintal dos Estados Unidos, cujo controle sempre se deu a partir do controle de mercados, com o objetivo de dominar suas fontes de recursos naturais. E o imperialismo sempre buscou controlar essa riqueza — isso faz parte de sua estratégia de domínio mundial.

Para nós, é essencial uma campanha que ganhe as mentes e os corações aqui da região. Essa campanha contra as bases militares dos Estados Unidos e a IV Frota já está sendo lançada em diversos países e agora, no dia 27 de janeiro, no Fórum Social Mundial, será lançada a campanha continental, em Porto Alegre. O objetivo é realizar um grande movimento para, quem sabe, fazermos em toda a região o que Rafael Correa conseguiu no Equador, ao proibir, na Constituição, a instalação de qualquer base dessa natureza em território nacional.

Em março a campanha será lançada nos estados, em conjunto com nossa coordenação e com as diversas entidades que apoiam essa causa, como a CTB, o MST e a CUT. Isso sem dúvida vai ajudar a fortalecer a cultura da paz e da solidariedade dos povos.

Portal CTB: Em recente artigo, o jornalista e escritor Ignacio Ramonet alertou para o cerco que se faz à Venezuela, por meio das 13 bases militares dos Estados Unidos existentes na América Latina, especialmente na Colômbia.
Socorro Gomes: Sem dúvida. Para nós essa questão das bases militares na Colômbia significa uma preparação para eventuais agressões e provocações.Os Estados Unidos implementaram no mundo um amplo controle militar. Hoje, eles têm quase mil bases militares espalhadas, além de suas frotas navais para controlar todo o fluxo de mercadorias dos oceanos.

Aqui na América Latina, a partir de 2008, eles implementaram a IV Frota, completamente diferente da que existia durante a 2ª Guerra Mundial. Aqui eles têm grandes porta-aviões, inclusive com armamento nuclear e capacidade para adentrar em rios. Ou seja, é a ameaça muito presente de entrar nos nossos territórios.

O que isso significa para o Cebrapaz e para o Conselho Mundial da Paz? Primeiro, a IV Frota tem o objetivo de fiscalizar, intimidar e aterrorizar povos e nações dessa região, e buscar conter o progresso das lutas por soberania. Soberania essa que vem sendo construída por diversos governos, sob o novo paradigma da unidade regional, do diálogo, da integração, da solidariedade.  Isso faz com que o imperialismo sofra diversas derrotas, como o fim da Alca, por exemplo. São conquistas históricas e derrotas fragorosas para o imperialismo, que agora contra-ataca de várias formas.

Portal CTB: Uma dessas formas seria o que houve em Honduras? É possível dizer que o golpe realizado naquele país é uma espécie de balão de ensaio para algo de maior proporção?
Socorro Gomes: Sim, podemos dizer que foi um balão de ensaio. Em nenhum momento a secretária de Estados dos EUA, Hillary Clinton, utilizou a palavra “golpe” para definir a situação de Honduras. Foi, sim, um golpe. Houve um estímulo do staff do governo dos EUA, com o objetivo de derrotar um governo que estava se aliando a essa corrente progressista que é a Alba, que estava aumentando o salário mínimo e que queria transformar a base militar do país em aeroporto civil, como Rafael Correa fez no Equador, com a base de Manta.

Portal CTB: apesar de outras nações apresentarem esse caráter antiimperialista, o foco maior ainda é a Venezuela?
Socorro Gomes: Olha, no meu entendimento, é um engano achar que o foco é a Venezuela especificamente. O foco é essa região toda: Venezuela, Brasil, Bolívia, Equador… Na verdade eles estão colocando suas tropas, repletas de mercenários de guerra, tal qual fazem no Iraque. Na Argentina, neste momento eles tentam desestabilizar a economia. Mas o que os Estados Unidos querem mesmo é garantir sua hegemonia e fazer retroceder as conquistas dos povos aqui da região. Eles sofreram derrotas, mas sempre estarão prontos para contra-atacar.

Portal CTB: Falando novamente a respeito da campanha pela paz e se sua mobilização. O fato de países importantes da região — como Brasil e Colômbia — terem pela frente em 2010 eleições presidenciais traz uma dificuldade a mais para essa temática?
Socorro Gomes: No nosso entendimento, sempre há um lado que fica mais complexo durante as campanhas eleitorais, pela dificuldade de mobilização. Mas há também o lado positivo de podermos debater no processo eleitoral temas como a soberania dos povos e as ameaças do imperialismo. E também há a possibilidade de os candidatos se comprometerem com essa causa, propondo-se a colocarem na Constituição cláusulas que proíbam as bases estrangeiras.

Portal CTB: Esse tema tem uma aceitação muito grande na sociedade. Em termos práticos, como o leitor do Portal da CTB pode se engajar na campanha? Como seu sindicato ou sua entidade pode ajudar?
Socorro Gomes: A força capaz de vencer a aventura deletéria do imperialismo é sem dúvida a dos povos. E para nós é sem dúvida essencial a participação dos trabalhadores, do movimento sindical, dos movimentos sociais em geral nessa luta. Assim, é possível participar buscando seu sindicato, sua central, sua entidade ou entrando em contato diretamente com o Cebrapaz. Existem várias formas, inclusive pela internet, por meio das campanhas que temos lançado.

Os governos latino-americanos têm deixado claro que esta é uma região de paz, na qual os conflitos são resolvidos a partir do diálogo, como o Brasil fez com a Bolívia e o Paraguai. Para nós é essencial a derrota dessa militarização da região. Derrotar essa ingerência é uma condição fundamental para conquistarmos a paz.

Portal CTB: Nesse processo de fortalecimento da soberania, é inevitável lembrar do papel da Alba nesse processo. Existe alguma perspectiva para ampliar a quantidade de países que a compões ou ações como a que aconteceu recentemente em Honduras podem inibir sua amplitude?
Socorro Gomes: A Alba conquistou avanços inimagináveis, tanto do ponto de vista social como econômico. E a luta pela soberania tem altos e baixos — ela nunca é linear. Mas trata-se de um caminho sem volta, pois os povos desses países perceberam como suas vidas podem ser melhoradas com governos comprometidos com os interesses do país, que prezem pela soberania, pela democracia e pela paz.

A Alba será sempre um exemplo de resistência a essas novas tentativas de sufocamento aos países da nossa região. Ela é extremamente avançada, , inclusive na questão de redistribuir os excedentes com os países que necessitam , garantindo o desenvolvimento de todos. É uma integração que tem muito da noção de solidariedade entre os povos e é um paradigma nessa relação.

Portal CTB: Falando um pouco da sociedade brasileira, a gente não poderia deixar de fora a questão do PNDH-3. Você entende que essa proposta do governo contempla as demandas dos movimentos sociais em geral?
Socorro Gomes: Eu entendo que é um plano construído pelo governo, com ampla participação da sociedade. As oligarquias brasileiras, como sabemos, são perversas, sem qualquer compromisso com as conquistas sociais. O Estado tem que pensar o que é melhor para o país e seu povo. Ele prevê também essa questão da punição de crimes cometidos durante a ditadura militar, por meio do direito da memória e da verdade. A tortura foi implementada como método regular de interrogatório e é um crime contra a humanidade, que não pode ficar impune. Não tem lei de Anistia para isso, é algo imprescritível. Portanto, eu vejo o programa como um avanço, que vem ao encontro dos anseios daqueles que lutam pela paz. Até hoje todos sabem que a tortura é algo recorrente nos presídios de todo o país. Se isso não é punido, abre-se um grande precedente.

Portal CTB: E o Brasil ainda ficaria isolado, na condição de um dos poucos grandes países da região que passaram por uma ditadura e não puniram seus torturadores…
Socorro Gomes: Sem dúvida. Todos têm o direito de saber o que realmente aconteceu. E há a condição sagrada de as famílias poderem enterrar seus mortos, algo que só poderá ser feito por meio da abertura dos arquivos secretos. Temos que defendê-lo até mesmo como instrumento de busca de uma sociedade mais humana e justa.

Portal CTB: Por fim, Socorro, como o Cebrapaz vê essa recente tragédia no Haiti?
Socorro Gomes: Temos que estar solidários ao sofrimento do Haiti, que vem sendo vítima desde sua independência. O país vem sendo castigado desde então, não apenas pelas forças da natureza, mas sobretudo pelo imperialismo, que deixou o Haiti à míngua, pois seu povo teve a “ousadia” de libertar os escravos e ser a primeira nação da região a se tornar independente.

O Haiti é um país que já era destruído antes da tragédia, e agora então é preciso que os países da nossa região prestem toda a ajuda possível.

Fernando Damasceno — Portal CTB

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