Sem categoria

As histórias de quem perdeu tudo na tragédia de Mariana

Duas barragens da mineradora Samarco se romperam na cidade de Mariana (MG), no dia 05 de novembro de 2015. Nessas barragens havia lama, rejeitos sólidos e água. Esses detritos são resultado da mineração na região. Pelo menos 128 residências foram atingidas pela onda de lama e dejetos. Oficialmente, o número de mortos é de 18 pessoas (16 adultos e 2 crianças) e um desaparecido.

Os detritos das barragens tomou conta do rio Gualaxo e chegaram ao município de Barra Longa, a 60 km de Mariana e a 215 km de Belo Horizonte. Seis localidades de Mariana, além de Bento Rodrigues, foram atingidas. Segundo especialistas, a lama que desce pelo rio Doce atingirá, no total, uma área de cerca de 10 mil quilômetros quadrados no litoral capixaba – área equivalente a mais de seis vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os prejuízos são calculados em mais de R$ 100 milhões, segundo o prefeito de Mariana, Duarte Júnior.

A tragédia ocorrida em Mariana deixou um saldo de 18 mortos (16 trabalhadores e 2 crianças); 1 trabalhador desaparecido; mais de 10 mil postos de trabalho fechados com comerciantes, agricultores e pescadores desempregados; mais de um milhão de pessoas atingidas; e a destruição da Bacia do Rio Doce. Moradores vasculham escombros em busca de documentos, dinheiro e lembranças de uma vida inteira.

A dona de casa Graciethe Isabel Viera, de 54 anos, estava na porta de casa quando Marquinhos, um vizinho, chegou de moto gritando: “a barragem rompeu, vai inundar tudo aqui. Corre, Baixinha!” Eram 16h30 de 5 de novembro. Graciethe entrou para buscar o sogro, mas José Dunga, de 90 anos, desdenhou: “deixe de ser boba, está muito longe, isso não chega aqui não”. O sítio ficava no vilarejo de Camargos, a menos seis quilômetros do distrito de Bento Rodrigues, o primeiro a ser arrasado pela lama despejada com o rompimento das barragens de Fundão e Santarém, em Mariana, Minas Gerais Ela puxou o sogro e com ele aos tropeços subiu o morro coberto de árvores nos fundos do terreno. De lá, viu o barro cobrir a casa até o telhado e se lembrou dos quatro quilos de doce de limão que acabara de fazer, a primeira encomenda desde que concluíra o curso de doceira, dos retratos do pai morto recentemente e do cachorro Barão, que não teve tempo de salvar. Barão, o fiel companheiro da família, estava preso a corrente por causa de um ferimento na perna. Não pode fugir. Morreram também dez cabeças de gado, porcos e galinhas. O pasto se transformou em um mar de lama mal cheirosa. Por onde passou, a onda de rejeitos da Samarco, empresa formada pela sociedade de duas das maiores mineradoras do mundo, a Vale e a BHP Billiton, destruiu pontes, transformou as águas límpidas de rios em uma substância marrom pastosa e abriu crateras na vegetação de Mata Atlântica que cobre a região. Deixou 10 mortos e 18 desaparecidos.

Após a tragédia, Baixinha se mudou para uma casa vazia, na parte alta do vilarejo, emprestada por um vizinho. O sogro foi para Belo Horizonte ficar com a neta, estudante de economia de 22 anos. O desejo de Baixinha era deixar a região para sempre. Tem a sensação de que a qualquer momento pode dar de cara com outra onda gigante de lama. Mas o marido, Geraldo Dunga, de 58 anos, não quer ir embora. Desde a inundação, ele percorre alguns quilômetros numa trilha aberta no morro e chega à propriedade destruída, onde ainda restam alguns porcos e galinhas para cuidar. Diz que quando banhou as galinhas na bica que desce da encosta, elas pareciam pesar uns cinco quilos por causa do barro grudado. Geraldo Dunga caminha entre os destroços acompanhado das cadelas Senzala, Florentina e Certeza que fuçam o barro. No começo da tarde de quarta-feira, ÉPOCA conversou aos gritos com ele, distante 50 metros, isolado por uma faixa de lama que tragaria quem tentasse atravessá-la. Quando se está atolado já na altura do joelho, mesmo um homem forte não consegue se livrar facilmente, nem com a ajuda de outros.

Geraldo Dunga tinha vacas leiteiras e fazia o transporte de alunos para colégios de Bento Rodrigues e localidades vizinhas. “Não temos mais queijo, nem leite, nem a escola”, diz Baixinha. Só restou o medo. Agora, segundo ela, funcionários da Samarco percorrem a região alertando moradores que, se houver novo rompimento de barragem, uma sirene soará e todos deverão correr para a igreja na parte mais alta. Há duas outras barragens na região, a de Germano, com capacidade de armazenamento ainda maior do que as duas que se romperam, e a Cava de Germano. Qualquer barulho assusta Baixinha, até mesmo o do vento sacudindo a lona que cobre o teto da igreja, destelhada há algum tempo.

Na quarta-feira, em Mariana, a 25 quilômetros de Bento Rodrigues, correram boatos de que Germano estava prestes a vir abaixo. “Ah, eu não vou para aquele lado, não”, disse Gilson Silva, motorista local contratado por ÉPOCA. Ele só se tranquilizou quando a rádio local passou a avisar de hora em hora que não havia risco, informação transmitida pela Samarco. A especulação também era assunto no bar de Erico Jorge, na rua principal de Camargos, uma das poucas não atingidas. Dois funcionários de uma empresa de telefonia estacionaram o carro, pediram uma coca-cola e contaram a novidade: quase uma semana depois do rompimento das barragens, estavam instalando um sistema que permitiria à Samarco acionar sirenes para alertar a população em caso de risco. ÉPOCA esteve no local onde foi colocada uma antena, que emitirá sinais para disparar os alarmes, mas uma caminhonete da Samarco bloqueava a entrada. Equipes da mineradora circulam em camionetes a toda velocidade pelas estradas da região para identificar moradores que tenham sido atingidos. Com olhares tensos, se afastam ao encontrar jornalistas.

O agricultor Aroldo Zeferino Arantes, de 63 anos, começou a sentir cheiro de óleo quando escurecia no vilarejo de Ponte do Gama, a 40 quilômetros de Bento Rodrigues. Passava um pouco das 18h e ele não entendia o que era aquela massa escura, cheirando a óleo, que avançava em direção ao seu sítio. Mais de duas horas depois do rompimento em Bento Rodrigues, ninguém em Ponte do Gama recebera qualquer tipo de aviso sobre o que acontecera. Mesmo sem saber do que se tratava, entendeu que tinha pouco tempo para agir. Sua primeira preocupação foi com a mãe de 93 anos, uma senhorinha que caminha bem e que se orgulha de colocar a linha no buraco de agulha melhor do que o filho. Antes de a lama tomar conta de tudo, ela teve forças para se refugiar na parte alta de uma plantação de eucalipto. Com a mãe em um lugar seguro, Arantes começou a tocar os animais para longe, em direção ao morro, mas não conseguiu evitar a morte de alguns deles.

Na manhã seguinte, do alto do morro onde passou a noite, Arantes viu o tamanho da destruição. Em alguns pontos a lama chegava a quatro metros de altura, cobria casas e carros. Até patos se afogaram. O atoleiro chegou a seu portão, mas não atingiu a casa, que fica em um ponto mais alto. Vai demorar muito tempo, porém, para Arantes conseguir tirar o Fusca da garagem. No final da tarde de quarta-feira, dois tratores da Samarco removiam o barro para instalar um duto por onde a água possa escoar. Enquanto as máquinas trabalhavam, Arantes observava o barro. “Isso vai secar e depois nem com uma ferramenta será possível cortar. Vai ficar igual a um pedaço de ferro”, disse.

Por volta das 18h do dia do rompimento das barragens, um helicóptero com dois bombeiros pousou em um campo de futebol no distrito de Paracatu, a 55 quilômetros de Bento Rodrigues. Um grupo de policiais chegou por terra. Eles gritavam para os moradores deixarem as casas rapidamente. O agricultor José Patrocínio de Oliveira, de 86 anos, conhecido como Zezinho, teve apenas cinco minutos para pegar os documentos pessoais e subir à parte alta com os filhos. No guarda-roupas, soterrado logo depois, ficaram suas economias – R$ 3 mil – e seus bens mais preciosos: os instrumentos musicais e as fantasias da Folia de Reis, festa que realiza há 50 anos em Paracatu, onde nasceu e teve 24 filhos.

Na tarde de quinta-feira, uma semana após o rompimento das barragens, Zezinho sentou-se em um tronco de árvore na parte alta de Paracatu. Poucos metros à frente via casas soterradas, só como telhados de fora. “O que vou fazer, perdi tudo.” Elias, um de seus filhos, circulava entre as ruínas inventariando as perdas. Mostra a casa do pai, onde tentou em vão recuperar os R$ 3 mil, aponta para um freezer semienterrado e diz que lá funcionava a soverteria da cunhada, chega ao galpão onde sua moto está dentro de um bloco de barro, ao lado de um galinheiro. “Tem 50 galinhas enterradas aí dentro”, diz explicando o fedor insuportável. “Suspeito que pode haver gente morta também. Tenho sentido um cheiro diferente”, afirma.

A 30 metros dali, separado de Elias por uma faixa de barro, Lourival Gonçalves Marcelino queima roupas encardidas em uma fogueira. Ele conseguiu entrar em casa por uma brecha no teto. Pegou as roupas e, antes de lança-las no fogo, revista minuciosamente cada uma. Procura R$ 1 mil que deixou no armário. Ele não pode se dar ao luxo de perder a quantia. Gastara na reforma da casa, agora destruída, e havia matado um de seus bois para estocar carne no congelador. Do freezer destruído no que restou da cozinha vem um cheiro de podre.

Dezenas de cães famintos fuçam o barro. Na superfície há dezenas de galinhas mortas e o cheiro indica que há mais animas soterrados. Uma equipe do Corpo de Bombeiros passa pela fogueira de Lourival e volta pouco depois com um porco resgatado, amarrado em um pau que trazem ao ombro. Os cachorros fuçadores acompanham, somem de novo e voltam a aparecer, mais sujos ainda. Zezinho não parece preocupado e abraça seu cachorro sujo de lama.

O tsunami de lama derrubou a ponte numa das estradas de acesso a Bento Rodrigues. Outro trecho da via foi destruído por pedras de até quatro metros. Carro não passa. Dá para seguir a pé por um trecho curto, mas os rejeitos despejados pela mineradora impedem uma aproximação do antigo distrito. A solução é dar uma grande volta, percorrendo o dobro da distância. Mas a poucos metros do vilarejo a Polícia Militar montou uma barreira com contêiner, holofote acoplado a um gerador e um micro-ônibus. Um sargento informa que o aparato é para evitar que pessoas, mesmo os antigos moradores, atrapalhem as buscas do Corpo de Bombeiros. Só um tipo de veículo está autorizado a ultrapassar o bloqueio: as caminhonetes da Samarco.

Portal CTB com agências

Compartilhar: