Uma carta para Fernanda Torres

Fernanda,

Assim como sua mãe, você é uma mulher admirável. Passa uma imagem forte e madura o suficiente para acreditar no próprio poder, na própria independência, na própria libertação.

As aparências enganam, não é mesmo? E assim como a sua mãe escorregou ao dizer que “intervenção militar é coisa de doentes mentais” (não, doentes mentais não precisam ser alienados políticos), você escorregou ao dizer que o vitimismo do feminismo contemporâneo te irrita.

Não sinto indignação ou revolta por seus dizeres superficiais. Tudo o que consigo é lamentar.

O patriarcado é tão sórdido e tão ardiloso que mesmo uma mulher como você é capaz de se deixar enganar. E, quanto a isso, tudo o que quero te dizer é:

Tudo bem. Não estamos aqui para rechaçar nossas semelhantes. Acreditamos que você conseguirá ver que não existe vitimismo em uma luta legítima pela própria liberdade, pelos próprios direitos fundamentais, pela própria vida (sim, o machismo mata). Você será melhor para você e para as mulheres que você pode representar. Nós, mulheres feministas, trabalhamos para isso.

Compreendo que suas memórias infantis – envoltas por valores patriarcalistas, é sempre bom lembrar – te confundiram. Ver a sua babá Irene (pobre, muito provavelmente) sofrendo assédios sem reagir pode ter parecido algo admirável, quase heróico, mas, veja bem: era medo.

Nos tempos em que você ainda precisava de uma babá, as mulheres tinham ainda menos voz do que têm hoje. E por mais que tudo isso já as incomodasse, elas não sabiam que podiam reagir aos seus algozes. Sua babá não sabia que um homem desconhecido não tinha o direito de chamá-la de vadia gostosa ou dizer que a comeria de quatro. A sociedade a convenceu de que isso era natural.

Você, ao contrário, tem, agora, a oportunidade de enxergar a luta de gêneros tal qual ela é. Você, que é contemporânea à geração do poder feminino, tem a chance de lutar pela sua liberdade. Diferente da sua babá – e da sua mãe, e da minha mãe, e de todas estas que vieram antes de nós – você não precisa reproduzir discursos que te oprimem. Você pode escolher.

E é exatamente por isso que o seu discurso me entristece tanto. Você pode ler Beauvoir, pode visitar os tantos blogs feministas na rede, pode simplesmente observar à sua volta com alguma empatia por aquelas que compartilham com você as mesmas opressões e concluir, aliviada, que, não, o feminismo não é vitimismo.

Antes fosse, aliás; assim, ele se tornaria obsoleto e nós estaríamos finalmente livres. Mas não é vitimismo quando uma mulher é estuprada a cada doze segundos. Não é vitimismo quando um homem diz, em rede nacional, que oferece álcool a menores de idade para transar com elas e não é preso. Não é vitimismo quando somos classificadas entre putas e santas pelo tamanho de nossas saias. Não foi vitimismo quando disseram que a sua mãe era velha demais para protagonizar um beijo lésbico (como assim? não se pode sexualizar duas mulheres velhas que se beijam). Não é vitimismo quando o Brasil registra mais de 16 mil casos de feminicídio em um ano (feminicídio: morte de mulheres por conflitos de gênero).

Infelizmente, Fernanda, nossas opressões são reais. Quando nós nos levantamos contra elas, o patriarcado utiliza deste argumento que, de tão chulo, me surpreende que tenha sido usado por você: vitimismo.

Não, não é vitimismo. Nós queríamos intimamente que fosse, mas não é.

Você deixou que o patriarcado te cegasse, como tantas vezes já fez com tantas de nós. E mesmo que você não lide com isso, o feminismo continuará a fazer parte de você: por ele você vota, trabalha, escolhe as suas roupas pela manhã e desfruta da sua liberdade sexual.

Você está onde está – assim como todas as mulheres – porque aquilo que você chama de vitimismo lutou e luta por você.

E nós continuaremos aqui.

Sororidade.

Nathalí Macedo é colunista do Diário do Centro do Mundo, autora do livro “As Mulheres que Possuo”, feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. Canta blues nas horas vagas.

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