Um encontro sindical transcendente. – Por Ramon Cardona

Ramon Cardona

Depois de ter participado na Guatemala da reunião dos integrantes do Grupo de Trabalho do Encontro Sindical Nossa América para organizar o II Encontro no Brasil acredito que é oportuno evocar o primeiro.

Transcendente, efetivamente, foi o Encontro Sindical Nossa América celebrado em Quito, de 5 a 7 de maio. Tal qualificativo é adequado para aquilatar sua importância quatro meses depois de sua realização, não só por usa origem, senão também pelos estimulantes resultados que alcançou.

Ao avaliar a situação sindical em nossa região, um grupo de organizações sindicais que participaram do congresso de fundação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, na cidade Belo Horizonte em dezembro de 2007, decidiram convocar o evento de Quito com o apoio da Confederação dos Trabalhadores do Equador (CTE).

 Dezenas de organizações se somaram à convocatória. Uma de suas características originais foi, pois, seu impulso desde as bases.

O chamado para o encontro foi desprovido de interesses discriminatórios, o que ofereceu a oportunidade de debater, propor, acordar e atuar sem estar condicionado por outros interesses que não fosse os dos trabalhadores, desempregados, excluídos e explorados de nossa região, sem sujeições a relações hierárquicas, sem pretensões individuais de manipulação ou de liderança e em condições de verdadeira igualdade. Eram estas suas características que permitiram a unidade das organizações sindicais que o convocaram.

A Federação Sindical Mundial na América apoiou imediatamente a iniciativa consciente de que os participantes seriam protagonistas de um acontecimento excepcional que permitiria atuar em prol da organização e fortalecimento do poder dos trabalhadores e de seus sindicatos.

Que sucedeu em Quito?

As expectativas foram superadas pela realidade.

Apesar da diversidade das organizações e com o respaldo de todas, o encontro primou pela consciência da urgência da UNIDADE. Em um clima de exemplar democracia não se acordou nada que não contasse com um consenso absoluto. Nenhuma opinião deixou de ser não só escutada, foi devidamente valorizada, o que forneceu extraordinária força às decisões adotadas.
O debate foi orientado por exposições lúcidas de analistas, assessores, jornalistas, lideranças sindicais ou lutadores sociais, que iniciaram as sessões de trabalho sob a direção de prestigiados dirigentes sindicais da região.

As transformações que hoje marcam a região iluminaram os debates realçando a necessidade de que o movimento sindical, historicamente a vanguarda dos processos de mudança, não pode ficar à margem dos acontecimentos políticos em desenvolvimento.

Adotou-se o compromisso não só de apoiar senão também de acompanhar os governos que, em maior ou menor grau, defendem os verdadeiros interesses dos trabalhadores e dos povos.
Tampouco foi omisso o evento em se identificar, de maneira unânime, com “um futuro soberano e socialista”, expressando assim o compromisso com um novo e melhor mundo, aspirado por bilhões de seres humanos em nosso planeta.

Evidenciou-se, igualmente de forma unitária, a vontade de defender a soberania e a independência de nossos países e de atuar contra a exploração das transnacionais.
Uma ênfase especial foi dedicada aos esforços de integração dos nossos povos com igualdade, identidade e solidariedade, conscientes de que ou nos unimos ou perecemos. O Encontro reconheceu a relevância da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) e o TCP (Tratado de Comércio dos Povos), que advogam e buscam implementar relações entre as nações baseadas na solidariedade, cooperação e complementaridade.
 
O antiimperialismo esteve presente na intervenção da maioria dos participantes, sendo reconhecido por muitos o fato de que o governo dos Estados Unidos está buscando um pretexto na América para iniciar a guerra e barrar os progressos alcançados.
 
Conforme manifestou a FSM na América ao apoiar a convocação do evento, “vivemos num mundo em que os ´poucos ricos´ desprezam, discriminam e escravizam os ´muitos pobres´ e isto é possível pela aliança em que se fundamenta sua unidade como classe social na defesa de um sistema cuja força utilizam para enfrentar, atacar, manipular, dividir, desviar e debilitar os trabalhadores e a sua organização coletiva, os sindicatos”.

Desconhecer este antagonismo, pretender ignorar o egoísmo que foi engendrado no sistema com a exaltação do individualismo, o mercado livre, a competição desregrada e o encaminhamento da ação sindical pelo caminho do diálogo passivo com os adversários dos trabalhadores, manifestando complacência por declarações de boa vontade e reconhecendo isto como triunfo da luta sindical, desviando do que deve ser nossa missão em cada uma de nossas sociedades: a transformação social com predomínio da propriedade pública e o desenvolvimento de uma economia solidária.

Não devemos permitir que o sindicalismo se integre à estrutura política da globalização capitalista e que sirva de suporte para sua sobrevivência, orientando a ação sindical para caminhos aparentemente ingênuos e tolerantes, conveniente para os poderosos, que pretere as verdadeiras manifestações de luta coletiva que historicamente os trabalhadores têm protagonizado.

Esta situação, para a América Latina e o Caribe redobra suas conseqüências se levarmos em consideração que as riquezas naturais que ainda temos em nosso território excitam a voracidade imperialista perante o iminente esgotamento das reservas que até hoje foram exploradas livremente…

O evento de Quito cumpriu cabalmente com os objetivos anunciados em sua convocatória ao abordar os problemas que afetam os trabalhadores em nossa região com uma visão orientada a conceber um plano de ação eficaz, com propósitos concretos e ações que conduzam à recuperação da capacidade de luta dos trabalhadores e o dinamismo e a representatividade na atuação sindical em todos os níveis, defendendo a independência de classe e a autonomia sindical.

Assim foi definida uma Plataforma para a Unidade de Ação em torno da:

•    Defesa dos direitos trabalhistas e sociais, pelo pleno emprego e a redução da jornada de trabalho sem redução de salários
•    Contra a precarização do trabalho, a discriminação no trabalho por motivos de gênero, etnia, religião e orientação sexual; contra a privatização e a favor de que o Estado assuma seu papel de indutor do desenvolvimento econômico e social e a universalização das políticas públicas: educação, saúde, previdência social e transporte
•    Pela integração solidária e soberana entre os povos e apoio às mudanças políticas e sociais
•    A favor da unidade contra a ofensiva militar do imperialismo e de suas forças aliadas conservadoras e corruptas na região
•    Fortalecimento da luta em defesa da soberania alimentar, dos recursos energéticos, hídricos, a biodiversidade e a sustentabilidade ambiental

A Federação Sindical Mundial na América novamente reconhece o significativo aporte que os participantes no encontro sindical de Quito proporcionaram ao fortalecimento das lutas sindicais em nossa região ao delinear, em sua Declaração (Carta de Quito), um panorama claro de nossa situação e propor uma Plataforma para a Unidade de Ação muito precisa que deverá alentar a participação de todos, com a consciência de que só unidos seremos fortes para nos opormos aos que nos oprimem e pretendem cercear nossos avanços e justas aspirações.

Reafirmamos nosso firme compromisso de contribuir com as atividades do Grupo de Trabalho criado para implementar os acordos adotados e preparar a realização do segundo encontro no Brasil.

Unamos a classe trabalhadora da América e elevemos seu protagonismo!  ]

Por Ramon Cardona, secretário da Federação Sindical Mundial para a América

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