Os perdigotos bolsonaristas no avião da Azul

Por Altamiro Borges

Ao permitir que o genocida Jair Bolsonaro entrasse sem máscara e disparasse perdigotos em sua aeronave na sexta-feira passada (11), a empresa Azul cometeu uma infração grave e pode até ser punida. O deputado Alexandre Padilha (PT-SP) já solicitou a convocação de uma audiência pública para debater a quebra de protocolos sanitários na empresa aérea.

A atitude criminosa e irresponsável do presidente – de abraçar, tirar selfies e conversar sem máscara com tripulantes e passageiros – foi visivelmente respaldada pelo comandante da aeronave da Azul. O deputado quer saber quem autorizou essa “invasão” e se órgãos reguladores do setor fizeram algum registro da infração cometida.

Flagrante absurdo de aglomeração

No pedido da audiência pública, o parlamentar solicitou a convocação do presidente da Azul, John Rodgerson, além dos representantes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), do Ministério da Saúde e da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas).

“É assustador que no meio de uma pandemia se assista a um flagrante absurdo de aglomeração dentro de uma aeronave, em que o comandante também comete uma irregularidade”, argumenta Alexandre Padilha, que foi ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff. Nas redes sociais, muitos internautas já anunciaram que passarão a boicotar os voos da Azul.

Vai sobrar só para o piloto?

Segundo matéria da Folha, a empresa aérea vai tentar se livrar da “batata quente da aparição surpresa de Bolsonaro no avião… A responsabilidade deve acabar caindo nas costas do piloto. Segundo a Anvisa, o comandante é a autoridade máxima a bordo das aeronaves, ou seja, é ele o responsável por quem entra no avião e também por quem estiver sem máscara”.

Mesmo assim, a agência já pediu esclarecimentos à Azul e à administração do aeroporto de Vitória (ES). Passageiros do voo também podem acionar a Justiça por se sentirem vítimas da ação criminosa. Na ocasião, já dentro da aeronave, o presidente foi bajulado por alguns, que o chamaram de “mito”, e vaiado por muitos, que gritaram “genocida”.

Ainda sobre o lamentável episódio, que evidencia o grau da barbárie fascista no país, vale conferir o excelente artigo de Cristina Serra na Folha de S.Paulo desta terça-feira (15):

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Cena deplorável no avião da Azul

Por Cristina Serra

O presidente entrou num avião, provocou tumulto, aspergiu perdigotos, açulou opositores. É o que ele sabe fazer de melhor, já que, medíocre e ocioso, não trabalha pelo país. Até aí, nenhuma novidade. Mas não pode passar em branco o papel da companhia Azul nessa cena deplorável.

Não precisa ser especialista em transporte aéreo para entender que ali foram violados regulamentos do setor e medidas de segurança sanitária. Por mais que não queira, a empresa tem, sim, obrigação de vir a público e esclarecer: não sendo Bolsonaro passageiro do voo, quem autorizou sua presença para fazer proselitismo dentro do avião? Quem e por quê?

O comportamento da tripulação também deve ser apurado. O piloto estava sem máscara, todo serelepe, posando com o disseminador-geral da República. A Azul deve ter um departamento de “compliance”, código de ética etc. O que dizem os acionistas e dirigentes da empresa sobre o episódio? Concordam com o que aconteceu? Se não concordam, que providências irão tomar? Ou o tal setor de “compliance” é só para enfeitar o organograma? O dono de uma empresa pode ter suas preferências políticas. Mas não pode impô-las a seus clientes e nem agir contra a lei.

A tragédia que vivemos não é obra apenas de Bolsonaro, mas de todos os que lhe dão condições de permanecer no cargo. A economia poderia estar muito melhor não fosse a incúria e a negligência criminosa do presidente contra o povo brasileiro. Empresários não entenderam que apoiá-lo é dar um tiro no pé. Seguem fieis ao projeto do estado mínimo. Estado e país mínimo.

Se eu fosse passageira daquele voo, já teria entrado na Justiça contra a empresa por atentado à saúde pública. Como não estava lá, o que posso fazer é deixar de viajar pela Azul. É meu protesto solitário. Ou talvez, nem tão solitário assim. Como lembrou-me um amigo outro dia, o oceano é formado por infinitas moléculas de água. E o universo inteiro é constituído por partículas subatômicas.

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Em tempo: O site Metrópoles informa que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), uma autarquia ligada ao Ministério da Justiça, analisará em breve a compra de uma parte da Latam pela Azul. A aquisição tem gerado tensão, principalmente se for das rotas mais populares, porque reforçará a cartelização do setor. Há muita grana em jogo nessa disputa de mercado. Mera coincidência?

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