Mitos sobre a ocupação da indústria

Por Antonio Corrêa de Lacerda*

A polêmica referente à capacidade do setor industrial em atender ao suprimento da demanda, sem que isso signifique riscos de desabastecimento e/ou pressões inflacionárias, tem ganhado dimensão. Ela é relevante porque influencia as decisões de política econômica, envolvendo entre outras questões a fixação da taxa de juros.

 

A taxa de ocupação dos vários setores e da indústria em geral é sistematicamente monitorada por pesquisas, realizadas pela FIESP, CNI e FGV, divulgadas mensalmente. Os dados mais recentes indicam uma taxa de ocupação entre 81 e 85%. No entanto, nem sempre fica claro para os observadores os critérios utilizados, o que pode induzir a interpretações equivocadas.

É preciso destacar que se trata de uma pesquisa que depende fundamentalmente das respostas do universo de empresas auscultadas. As empresas tendem a adequar a sua capacidade produtiva à demanda futura esperada. Quando uma empresa responde que está utilizando 90% da sua capacidade, isso equivale a dizer que ela, em um determinado turno de produção, digamos de oitos horas, teria a capacidade de produzir 100 unidades e está produzindo 90.

Mas isso não deve ser interpretado como se as empresas só seriam capazes de expandir sua produção em mais 10%. Mediante necessidade, a empresa poderia recorrer a um segundo, ou mesmo terceiro turnos de produção. Poderia ainda trabalhar em finais de semana, ou fazer pequenas adaptações nas suas linhas de produção, para atender à expansão da demanda. Portanto, a primeira informação de ocupação da capacidade de 90% é relevante, mas tem que ser interpretada como uma fotografia estanque de um filme de longa metragem.

Há ainda o ponto mais importante a ser levado em conta é que uma empresa, diante da situação hipotética descrita no parágrafo anterior, decidiria por realizar novos investimentos em ampliação da planta existente, ou mesmo pela construção de uma fábrica nova. O que move o desejo de investir, ou, como muito bem definiu Keynes, desperta o “espírito animal” dos empresários é a expectativa de uma demanda crescente e firme. Ninguém faz investimentos em aumento da produção se não tiver uma clara percepção de demanda firme à frente.

Daí que é preciso interpretar corretamente as pesquisas de ocupação e cruzar essas informações com os investimentos previstos já decididos e em execução, e qual o prazo de maturação- em quanto tempo estarão efetivamente gerando maior produção.

Na eventual ocorrência de um gap entre a ampliação da oferta, dada pela expansão dos investimentos, e a demanda, isso não representa, necessariamente, um risco de desabastecimento ou da pressão inflacionária, já que poderia ser atendido com importações.

Portanto, a pior decisão de política econômica seria aumentar os juros ou restringir o crédito, porque isso pode abortar decisões de investimentos. A melhor forma de controlar a inflação de forma perene, combinada com o crescimento da produção, do emprego, da renda e dos tributos, é mesmo estimular a demanda. Fatores de competitividade sistêmica ajustados à média internacional e a adoção de políticas de desenvolvimento (industrial, tecnológicas e de exportação) também exercem papel fundamental.

Há fortes indicadores de crescimento da demanda, impulsionada pelo aumento da massa salarial real, da oferta de crédito e pela maior confiança do consumidor. Mas há, em contrapartida, indicadores de crescimento dos investimentos. No ano passado, por exemplo, para um crescimento da indústria de 6%, a produção de máquinas e equipamentos cresceu quase 20%. Nada indica para uma reversão desse quadro.

Na verdade, não há gargalos relevantes à vista na indústria. Há sim, deficiências na infra-estrutura e é preciso agir rápido para ampliar a oferta e melhorar a produtividade em áreas como suprimento energético, portos e estradas. Mas aqui também a solução não é conter a demanda, mas estimular inversões para garantir o suprimento, com um marco regulatório claro e estável, realização de investimentos públicos e estímulos aos investimentos privados.

*Professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de “Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil” (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET.

Fonte: Terra Magazine

 

Compartilhar:

Conteúdo Relacionado