Há um ano o mundo chorava a morte de Nelson Mandela

Aos 95 anos, Nelson Mandela se despediu do mundo material, no dia 5 de dezembro de 2013. O Prêmio Nobel da Paz, em 1993, foi o líder da luta contra o apartheid e o comandante da luta antirracismo na África do Sul. Madiba – como era carinhosamente tratado por seu povo – saiu do meio do seu clã para se transformar no libertador de toda uma nação. Também virou referência mundial pela paz e pela emancipação humana. Há um ano nasce a imortalidade de um dos maiores guerreiros pela vida, cuja arma potencial foi o amor. Verdadeiramente um homem a frente de seu tempo.

É neste contexto que se expressa a militância dessa luta que é interminável, desfavorável, corrosiva, que á a luta antirracismo, em um momento em que com o avanço da reação mundialmente vem se eclodindo, utilizando a estigmatização, uma velha ferramenta cultural contra a população negra. Assim como o racismo institucional, se reafirmando, nos posicionando, e nos levando para as ruas. A trincheira de grandes batalhas pelo direito à vida e pelo respeito às diferenças, como ocorreu em Missouri e Ferguson nos Estados Unidos. Assim como ocorre nas comunidades do Rio de Janeiro e nas grandes metrópoles de nosso país. O racismo institucional é responsável por um dado alarmante, que confirma o genocídio da população jovem brasileira, principalmente os jovens negros.

Segundo dados da 8ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que foi divulgado no mês passado, no período de 5 anos, os policiais brasileiros mataram mais do que os agentes americanos em 30 anos. Os policiais brasileiros mataram, em serviço e fora de serviço, 11.197 pessoas, em 5 anos, uma média de seis por dia. Enquanto nos Estados Unidos foram 11.090 mortos, em 30 anos, média de uma pessoa por dia. Confirmando uma estatística em que a militância do movimento negro tem se pronunciado e denunciado nos últimos 20 anos. Evidenciando e parafraseando Elza Soares, com letra de Seu Jorge e Marcelo Yuca, em que se diz: “A carne mais barata do mercado, é a carne negra”.

Ao celebrar Mandela e o valor desse Nobel da Paz, o carinho e o respeito em que as comunidades religiosas o recebem, é respeitável, é indescritível a importância das cerimônias realizadas orações cristãs, hindus, muçulmanas, judaicas e rastafáris, um espírito ecumênico refletindo a grandeza e o entendimento da diversidade das comunidades do país e a universalidade desse ícone do planeta e da humanidade.

Ainda assim com todo esse exemplo, não é o que se apresenta no restante do mundo, infelizmente. Em nosso país, se federaliza uma preocupação crescente, que é a evolução de comportamentos intolerantes e desrespeitosos contra uma tradição, as religiões de Matriz Africana.
A campanha pelo fim do apartheid se tornou símbolo da luta pela emancipação humana, ultrapassando as fronteiras da África do Sul. Luta materializada por Madiba. No Brasil foi criado o “mito da democracia racial”. Então o que se via e era o apartheid social, um reflexo de classe, dito como “natural”. Mas a nossa luta junto ao tempo, o senhor de todas as coisas, mais uma vez desmistificou essa nuance, quebramos o mito da democracia racial. E é nesses períodos em que se reafirma a luta emancipatória que se apresenta com força o racismo e suas formas correlatas.

Madiba se constituiu no guerreiro das hostes libertárias, um guerreiro contemporâneo, dono de um armamento poderoso e transformador, que grande parte da população necessita, mas desconhece um remédio para a doença do atraso evolutivo dessa humanidade edificada no individualismo, na sociedade de consumo, no preconceito, no racismo, no sexismo, na xenofobia e na homofobia. Mandela simboliza a luta por uma sociedade evoluída, baseada na coletividade, no bem comum, no progresso onde reside a igualdade de condição. A luta dos negros brasileiros se firma na emancipação que nos liberta de todas as formas vexatórias de discriminação. Baseamos-nos na afirmação da construção de uma sociedade fraterna, justa e igualitária.

Vida a esse guerreiro de luz! Viva Madiba, Viva Mandela!

Mônica Custódio é secretária de Promoção de Igualdade Racial da CTB.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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