Farmacêutico, um trabalhador essencial para a saúde

Uma das principais façanhas do capitalismo é tornar natural o fato de o dinheiro e as coisas terem mais valor que os homens e as mulheres. Como disse Karl Marx “a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”. Essa desvalorização é vista cotidianamente na sociedade, em particular se observarmos as relações de trabalho. Atualmente, num mundo marcado por uma profunda crise do capitalismo, aumenta a contradição entre o trabalho, que é exercido por milhões de pessoas de forma coletiva, e a sua apropriação privada, por poucos. O resultado disso é a desvalorização e precarização do trabalho, com o aumento da jornada, a redução de salários e direitos trabalhistas.

O farmacêutico sofre estas mesmas consequências de um mundo mercantilizado. Os serviços de saúde – que deveriam ser um direito inalienável da população – estão cada vez mais submetidos à lógica do mercado. Seja na prestação do atendimento (hospitais, postos de saúde, laboratórios de análises clínicas), seja na produção e distribuição dos medicamentos.

No Brasil, somos 143 mil farmacêuticos, dos quais pouco mais de 52 mil encontram-se nas capitais e 91 mil no interior. Estamos concentrados na área da saúde, mas ocupamos espaços em outras áreas – na maioria delas em funções que têm direta ou indiretamente relação com a qualidade de vida das pessoas (na indústria de alimentos, cosméticos, na vigilância sanitária). Por isso, somos sim trabalhadores da saúde que atuam junto à população ou na indústria. Precisamos nos reconhecer como tal para que a nossa valorização profissional e nossas reivindicações sindicais tenham em vista este componente distintivo da nossa profissão.

E como trabalhadores da saúde, o principal produto e também ferramenta do trabalho do farmacêutico é o medicamento (produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnósticos). Dados da Anvisa para o mercado farmacêuticos mostram que 77,1% dos medicamentos se movimentam nas farmácias e drogarias, 15,5% em clínicas e hospitais particulares, 7,4% em outros espaços. Dos cerca de 111 mil estabelecimentos farmacêuticos, 98% empregam menos de 20 profissionais, e 2% empregam mais de 20 assalariados e movimentam 38 bilhões de reais, enquanto todo o restante movimenta 29,3 bilhões. O que revela a brutal concentração de riqueza deste setor da economia.

Em termos salariais, a disparidade e a concentração são ainda mais gritantes. Nestes estabelecimentos, os trabalhadores recebem uma média mensal de R$ 1002,00, enquanto os proprietários recebem aproximadamente R$ 220 mil reais por mês. São nestes espaços que precisamos enfrentar as contradições entre capital e trabalho. São nestes espaços que a Federação Nacional dos Farmacêuticos – Fenafar e os sindicatos precisam ver aplicados os seus princípios, a sua política.

Estes dados só evidenciam a importância das lutas para que a farmácia seja efetivamente um estabelecimento de saúde. É preciso combater a lógica mercantil do medicamento, que em última instância está ligado ao combate da lógica mercantil a que está submetida a Saúde, a vida e a humanidade, ou seja, questionar e combater os pilares políticos e ideológicos do capitalismo.

Sindicato para lutar

Todo esse debate requer a organização e a unidade dos trabalhadores. As principais bandeiras de luta da Federação Nacional dos Farmacêuticos são desdobramentos da análise anterior. Por isso, lutamos pela farmácia estabelecimento de saúde, pelo piso salarial nacional, pela redução da jornada de trabalho e em defesa do SUS.

Para levar à frente estas lutas precisamos de um sindicato que prepare os trabalhadores para a luta política, defendendo um salário digno e uma vida digna; um sindicato organizado, que faz a luta de forma planejada, preparando sua estrutura para reagir aos ataques contra a categoria por parte dos empresários e governo; um sindicato unitário, porque é na unidade que podemos enfrentar as adversidades; um sindicato democrático, que respeite as decisões tomadas em seus fóruns e abra espaço para que todas as ideias sejam debatidas, respeitando todas as opiniões que visem contribuir para o fortalecimento da categoria; um sindicato politizado, que vincule a luta econômica à luta política, já que as duas andam juntas. Uma entidade que valoriza apenas a luta econômica não consegue elevar a consciência classista de sua base; e um sindicato Independente, que deve estar desvinculado de partidos políticos, de empregadores, instituições religiosas e de governo, o que não significa se omitir das decisões políticas.

Este é o desafio do movimento sindical e, em particular da Fenafar – forjar sindicatos fortes e preparados para transformar a realidade dos farmacêuticos e, ao fazê-lo, contribuir para transformar a realidade da saúde e da sociedade. Mostrar que o farmacêutico pode contribuir para que o brasileiro tenha assegurado o direito constitucional de ter acesso à saúde. Por isso, o foco do nosso debate é a valorização do profissional que têm a responsabilidade com a garantia desse direito social.

Neste 20 de janeiro, data em que comemoramos o dia do farmacêutico, ressaltamos que para a sociedade nos reconhecer como profissionais de saúde, cada um de nós, em seu local de trabalho, precisa se organizar e lutar para alcançar esse reconhecimento e essa valorização. Nossa profissão está direta e indiretamente ligada a buscar que as pessoas vivam mais e melhor, numa sociedade mais democrática e justa. Essa é a nossa luta.


Ronald Ferreira dos Santos é presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) e integra o Conselho Nacional de Saúde.

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