Expropriaram a maquete: Centre Ville (Parte 1)

Assim como o termo expropriaram tem significado em si, ocupação está para “invasão” no que se refere ao dia 16 de Julho de 1982, data do início da maior ocupação de casas urbanas feita por movimento popular na história geral. Esta é a realidade do surgimento da comunidade e não mais Condomínio Centreville na cidade de Santo André. E para o plano de ocupação adquirir a maquete da arquitetura do condomínio, exposta na entrada do mesmo e sob vigilância de guardas particulares, talvez, tenha sido a primeira ação prática.

Já visto que para se falar de Centreville pensemos da história a história. Primeiro que Centre Ville nomenclatura de origem francesa significa “centro da cidade” ou “centro da vila”, no caso dos EUA, “Centreville” é a região que findou – se a Guerra de Secessão no Estado da Virginia, mas ainda sim, redundâncias, pois, muitos condomínios são nomeados dessa forma para caracterizar vila – “ville”. Aos poucos foi mudando e ainda que oficial na forma de Centreville tudo junto, o comércio, a AULMCV – Associação União e Luta dos Moradores do Centre Ville e em geral passou a utilizar “Centre Ville”, que na semântica é o correto.

A tentativa de Condomínio Centreville de Santo André foi projetada no início da década de 70 e a execução feita através de empréstimos do Banco Nacional de Habitação – BNH para a empreiteira NOVAURBE. As políticas corruptelas do governo inconstitucional fica evidente no caso do Condomínio Centreville, os valores do financiamento eram exaustivos para a população. Em pesquisa do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e Associação dos Sociólogos de São Paulo da época, a renda familiar dos ocupantes era de 75 mil Cr$ (*), enquanto, os valores das casas variavam de 527 mil Cr$ (*) a 1.182 milhão Cr$ (*).

A crise se efetivou com a falência da empreiteira que transferiu a dívida para a Nossa Caixa (fundida com o Banco do Brasil em 2010). Oficialmente os empréstimos adquiridos pela empreiteira tinha o plano de construir 539 casas e 226 apartamentos, porém, em 1982 foram constatadas apenas 539 casas variando de 80% a 83% de acabamento sujeito à deterioração pelos seis anos de abandono e, os terrenos para os apartamentos ficando vazios e fazendo parte da terceira fase da ocupação desta região.  Segundo avaliação da (IAB) com a quantidade dos empréstimos feitos pela NOVAURBE para a construção do CENTREVILLE que foi o equivalente a 3.418.258.463,83 (*) Cr$ quase três bilhões e quinhentos milhões de cruzeiros, poder-se-ia, construir o total de 2.700 casas de seis cômodos.

O projeto de Condomínio Centreville, possui casas de seis, sete, oito cômodos e média de 225 m² numa área total de 685.000 m². No ano da ocupação havia apenas 43 famílias financiadoras, estas ainda com alguma ligação com a esfera pública como setores de média patente da polícia militar. Em documento oficial do Procurador da Geral da Justiça do Estado de São Paulo, Doutor Paulo Salvador Frontini, em 1986 com quatro anos de ocupação contavam-se 550 casas ocupadas, 600 famílias e equivalente a 2.500 pessoas de idosos a crianças.

Essa era a “vila do centro”, centro das atenções á mercê do abandono, já havia surgido um aterro sanitário como segundo vizinho e a favela como primeira. O financiamento no valor original deixara a muito tempo de ser um bom “negócio”. Contudo é uma região que possui algumas vantagens em localização, é próximo ao centro, à via de ligação com São Paulo, às indústrias como Cofap, Pirelli e Petroquímica e, na transição com Mauá.

O abandono foi interrompido pela chegada dos ocupantes – massa de populares, sob a cultura do novo sindicalismo, dos comunas do Brasil, do ABC operário, do movimento contra a Carestia, da Igreja, das diretas já, da densidade demográfica e industrial. Foi no momento da ocupação e a partir da maquete que o projeto muda de condomínio para a possibilidade de um projeto de comunidade.

A mobilização, os anseios, os protagonismos do povo do Centre Ville, é uma aula de inspiração que ficarão para a história da Cidade de Santo André e da luta classista por moradia. Se falarmos da conquista da água que partiu de 14 torneiras coletivas, da creche e atual posto de saúde, da Escola “16 de Julho”, da coragem das mulheres e de tantas outras conquistas certamente não caberão em apenas um “artigo rascunho” e é outra parte da história.

Atualmente a Comunidade Centre Ville não possui a documentação e a regularização das casas, ainda, que todas as questões jurídicas favoreçam os moradores. Simultaneamente vive outra ante – secessão e em um novo momento do ABC, agora, Comercial – Industrial. Está localizado entre o projeto já executado do PAC – 1 e do Rodoanel, o Centreville é um dos bairros de ligação entre ambos do qual virá o investimento do PAC – 2; e que tudo indica fará a urbanização e revitalização da antiga companheira e vizinha, favela da Av. Pedro Américo – Homer Othon, estando, á 2 minutos do corredor comercial no qual já está sendo instalado o próximo shopping do ABC e á 10 minutos da recente UFABC – Universidade Federal do ABC.

* Não foi convertido Cruzeiro em Real para evitar uma quantidade excessiva de números e com isso favorecer a interpretação, intuitiva e proporcional. Existem conversores automáticos na web; http://www.igf.com.br/calculadoras/conversor/conversor.htm é um deles.

** Rumo aos 30 anos de Centre Ville: 16 de Julho de 2012.


André Lemos é auxiliar de coordenação do Centro de Estudos Sindicais (CES) e ex-dirigente da Associação União e Luta dos Moradores do Centre Ville (AULMCV).

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