Desafios das trabalhadoras

Nara Teixeira

Em 1910, foi instituído o dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem às 130 operárias que morreram dentro de uma fábrica de tecidos, em 1857, na cidade de Nova York – Estados Unidos. As tecelãs, queimadas vivas, estavam reivindicando melhores condições de trabalho, tais como: redução na carga diária de trabalho; equiparação salarial com os homens (pois chegavam a receber até um terço do salário de um homem para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.
 
O objetivo de se instituir a data era, e para muitas continua sendo, o de discutir o papel das mulheres na sociedade e buscar formas de combater as discriminações, os preconceitos e as desvalorizações de gênero. Desta forma, aproveitamos as comemorações do 8 de março para discutir e refletir sobre a situação das mulheres no ensino privado do Estado de Mato Grosso.
 
Uma pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Estado de Mato Grosso (SINTRAE-MT) fez um diagnóstico sócio-econômico dos profissionais do ensino privado de Cuiabá e Várzea Grande – da educação infantil ao ensino superior e cursos livres. Por meio desse estudo, foi possível identificar, entre outras coisas, que somos uma categoria jovem e predominantemente feminina. Por isso, podemos dizer, com toda a certeza, que somos as principais vítimas da mercantilização e da precarização presente na educação privada de Mato Grosso.
 
Os baixos salários, que aumentam os lucros das empresas, obrigam muitas professoras, por exemplo, a assumir diversas turmas. Desta forma, acabam sobrecarregadas ao preparar aulas, trabalhos e provas, além de corrigir e preencher diários – atividades extra-classe para as quais não recebem hora-atividade nem hora-extra.
 
Por terem um número pequeno de auxiliares administrativos, muitas trabalhadoras acabam sobrecarregadas de atividade, acumulam diversas funções, jornadas exaustivas de trabalho, bem como condições inadequadas na execução de suas tarefas, muitas vezes utilizando o “banco de horas” – que não está acordado a nenhum estabelecimento de ensino privado da nossa base  – não recebem também horas- extra.
 
Somos as vítimas prediletas do assédio moral e sexual. Manifestações opressoras e preconceituosas que, em muitos casos, acabam minando até mesmo nossa capacidade de trabalhar, destruindo nossa auto-estima.  Ainda não temos dados estatísticos sobre a saúde das trabalhadoras em estabelecimentos de ensino privado em Mato Grosso. Entretanto, podemos constatar, graças às reclamações da categoria, que o adoecimento é cada vez mais grave, predominando doenças relacionadas à voz e ao cansaço físico e mental, principalmente nas mulheres.
 
Tal situação traz graves conseqüências à nossa categoria, em sua grande maioria composta por mulheres. A insatisfação no trabalho, decorrente da baixa remuneração, do desprestigio profissional  ou mesmo das doenças desenvolvidas em função da atividade profissional desgastante, acaba desmotivando as trabalhadoras, levando-as muitas vezes ao abandono da atividade educacional.
 
Por isso, neste dia 08 de março, lutar pela regulamentação do setor privado, contra a desnacionalização e contra a mercantilização da educação; debater o papel da educação no projeto de desenvolvimento nacional; participar das atividades promovidas para esclarecer e melhorar a situação das trabalhadoras e de nossos companheiros é uma das formas que temos de homenagear o Dia Internacional da Mulher e também, consequentemente, as 130 operárias barbaramente assassinadas há 152 anos em Nova York.
 
Nara Teixeira é presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino de Mato Grosso (SINTRAE-MT)

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