Darwin, o negro e a “causa sagrada”

Por João Martins, ex-deputado estadual (PCdoB-ES)

É definitivo e resta comprovado que a famosa teoria da evolução foi fruto da “causa sagrada” de Darwin, conforme ele denominava a luta contra a escravidão. Veio de uma família antiescravista e viveu em um ambiente humanitário onde respirava a defesa dos negros, a luta contra a escravidão.

Assim, ele cerrou fileiras no combate à ideia de que “o escravo negro era uma espécie de animal criada à parte”, uma subespécie. Enquanto tantos iam para o enfrentamento tendo como instrumento a moral, Darwin apegou-se à ciência com intuito de comprovar que as raças humanas descendem de um único tronco primitivo, isto é, a grande busca era para provar a unidade original da espécie humana, origem única de negros, brancos, amarelos, a descendência comum de um ancestral. 

Uma uma espécie

Foi o que fez, com suas pesquisas e obras, e o que as ciências sociais cada vez mais fundamentam e justificam, que “há uma única espécie humana a habitar o globo”. Todo o aparato darwinista derruba as teorias falsas a respeito de “raças”, liquidando preconceitos tacanhos que estão na base de “abusos antigos e instituições opressoras” e apontando a existência apenas de variações entre os indivíduos de uma mesma espécie.  

Seu avô, Eramus Darwin, médico, naturalista e poeta, em um brado contra a escravidão, através de sua poesia, em versos combativos recitava: “Aquele que permite a opressão é cúmplice do crime…”.

Filha das trevas

O “pai” da geografia, o naturalista Humboldt, a quem Darwin recorria através de leituras de suas obras, aquele que em 1800 indicou que o desmatamento e as grandes massas de vapor de gás das indústrias afetavam o clima, criticava de forma contundente o colonialismo e a escravidão de negros e índios. Tanto que ao visitar Cuba salientou que “cada gota de caldo de cana custava sangue e gemidos” e foi amigo de Bolívar (“A escravidão era filha das trevas”).

Humboldt e John, o amigo negro de Darwin, que tanto lhe ensinou no movimento pela emancipação dos escravos na Inglaterra, compunham os grandes influenciadores e inspiradores de Darwin, suas fontes sociais, morais e científicas no embate pela liquidação de todas as formas de escravidão.  

Darwin elogiava até poeticamente as belezas naturais do Brasil, como quando esteve na Bahia e afirmou que “…delícia é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez , se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira”. No entanto, ficou chocado com as condições opressivas em que viviam aqui os negros.

Viu um menininho de cinco ou seis anos de idade, negro, sendo espancado várias vezes com chicote de cavalo. Em Pernambuco ouviu “os mais angustiosos gemidos” e não tinha dúvida nenhuma que algum escravo estava sendo torturado. No Rio de Janeiro morou “em frente de uma velha senhora que possuía parafusos para comprimir os dedos de suas escravas”.

Presenciou em uma casa, “onde um jovem mulato sofria, diariamente e a cada hora, aviltamentos, castigos e perseguições suficientes para despedaçar o espírito mesmo do animal mais desgraçado”. Ao se despedir do Brasil e dos brasileiros declarou: ”Dou graças a Deus, e espero nunca mais visitar um país de escravos…(nenhuma) terra de escravidão e, por tanto, de aviltamento moral”.

O que era indicado por Darwin em relação a “raças”, hoje é sustentado pelos biólogos e geneticistas, como A. W. F. Edwards: “A classificação racial humana não tem valor social e é inegavelmente destrutiva para as relações sociais e humanas”. Temos um ancestral comum, primitivo e, portanto, negros, brancos, amarelos, fazem parte de uma espécie única.

Sociedade de classes

A ciência não dará fim ao racismo. Mas fornece grandiosos ensinamentos, elementos e instrumentos para liquidar as concepções da existência de subespécies, lutar tenazmente contra a ignorância, o obscurantismo, a estupidez. Com isto, oferece as condições para impedir o confisco de nossa mente por racionalidades primitivas.

O racismo tem como origem e causa a divisão da sociedade em classes sociais. Surge no modo de produção escravista.  É um conceito ideológico e como tal tem de ser enfrentado. Reforça todo sistema social baseado em classes, associa-se com o nazi-fascismo e só será extirpado com o fim do modo de produção sustentado em divisão de classes.

Negros (as), amarelos (as), índios (as), brancos (as), todos (as) situados (as) e irmanados (as) com o proletariado, uni-vos na luta contra a opressão e pela liberdade.

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