As populações indígenas e o coronavírus

Por Rubens Vaz Ianelli*

Outro dia vi uma fotografia do Cacique Celestino, bem idoso e ainda vivendo na Área indígena do Parabubure (MT), que ele lutou para reconquistar para seu povo, os Xavante. Entre as décadas de 1970 e 80 ele era visto em Brasília reivindicando os direitos de ocupação das terras de seus ancestrais que foram ocupadas pelas fazendas.

Andava na recente capital do Brasil paramentado como um Xavante. Em uma mão ele levava a borduna e na outra uma pasta de negócios com documentos dentro. Foi Celestino que me introduziu no Parabubure em 1993, quando eu estava acompanhado da Dra. Aracy Lopes da Silva, antropóloga da Universidade de São Paulo e da enfermeira Sandra, companheira de trabalho no posto de saúde do Jardim Peri, na zona norte de São Paulo. Fomos atender um pedido de socorro.

Desnutrição e preconceitos

A taxa de mortalidade infantil era bem alta, havia desnutrição visível aos olhos mais acurados e os Xavante estavam em rápido crescimento. Nas cidades mais próximas do Parabubure, como Campinápolis e Nova Xavantina, sentimos forte preconceito contra os índios. Nessa última havia um hospital com uma área separada, imunda, em que segregavam os Xavante.

Esta área localiza-se no Brasil Central, no leste do Mato Grosso, se estende da serra do Roncador ao vale cortado pelos rios das Mortes, Kuluene, Couto de Magalhães, Batovi e Garças, região habitada há pelo menos 200 anos pelos indígenas do tronco linguístico Jê, ao qual pertencem os Xavante, auto intitulados A’uwe. Hoje está compreendida entre os municípios de Barra do Garças, Nova Xavantina, Água Boa, Canarana, Paranatinga e Ribeirão Cascalheira. 

Soja e pecuária

O cerrado já não é o mesmo. Foi arrasado pela pecuária e sobretudo pelo agronegócio da soja. A caça escasseou, as águas dos rios são, em alguns lugares, poluídas pelas fazendas que despejam dejetos e fezes do gado, além de agrotóxicos. São essas águas que chegam em muitas aldeias.

A terra indígena Xavante que foi ocupada mais recentemente parece ter sido Marãiwatsédé, entre a bacia do médio Xingu e o Araguaia. Com aproximadamente sete anos em mãos dos Xavante, essa é considerada a terra indígena mais desmatada da Amazônia, uma terra que já sofreu diversas invasões e incêndios criminosos.

Como enfrentar a pandemia?

No início da pandemia o centro-oeste apresentava números mais baixos da covid-19, agora a ocorrência de casos começa a subir sensivelmente. A doença já está entre os Xavante. Até o dia 21 de junho havia 71 casos confirmados, 24 internados, cinco em estado grave na UTI e seis óbitos dos indígenas. As áreas de São Marcos, em Barra do Garças e Parabubure, ambas com maior população, tiveram 58 dos 71 casos, restando ainda 50 suspeitos a esclarecer.

Certamente estes dados já estão defasados. O coronavirus está disseminado por todo território nacional e já entrou nas aldeias. Três pontos são bem relevantes na abordagem deste tema. O primeiro é evitar que o vírus chegue às aldeias. O segundo é como fazer o isolamento dentro das comunidades e o terceiro é como dispor de serviços ágeis e disponíveis para o atendimento à saúde indígena.

Para evitar que o coronavírus entre na aldeia é preciso um bloqueio da mobilidade, ou melhor, um cordão sanitário onde ninguém entra e ninguém sai, corta-se o contato externo. Os Yawanawá fizeram isso com algumas aldeias do alto rio Gregório no Acre. O contato com a cidade e o fluxo de barcos no rio foram interrompidos. O nó é como se manter isolado. Vi que o artista, cantor e compositor Arnaldo Antunes está divulgando uma campanha de arrecadação de fundos para a aldeia Nova Esperança dos Yawanawá. Sem existir uma contrapartida de cestas básicas e de outros insumos para a sobrevivência é bem difícil se manter nesta situação de isolamento.

Vários indígenas recebem aposentadoria ou bolsa família, benefícios retirados todo o mês nas agências da Caixa Econômica Federal no meio urbano. Muitos dependem desses auxílios para comprar alimentos, medicamentos ou o gás para o fogão onde já não há mais lenha. Para se obter uma contrapartida que compense a não retirada deste dinheiro nas cidades deve haver a mão do Estado para minorar o sofrimento dos indígenas atuando em conjunto nas três esferas de poder: federal, estadual e municipal.

Isolamento nas aldeias

Como praticar o isolamento dentro da aldeia é algo que parece bem complexo, tendo em vista o modo de vida, em geral agregado, dos indígenas. Pode-se até pensar em construir malocas de isolamento, mas isso é só uma hipótese. O monitoramento do isolamento depende dos profissionais e agentes de saúde que tenham condições objetivas de cumprirem com todo esse trabalho extraordinário decorrente da pandemia.

Ainda que existam os Distritos Sanitários Especiais Indígenas – Dseis, com equipes de saúde em campo, é preciso mais estrutura nesse momento critico, uma logística que vai do fornecimento de equipamentos para as equipes de saúde até a manutenção de veículos de transporte às mãos para as emergências. As Forças Armadas podem desempenhar um papel de destaque agindo ao lado do povo em suas reais necessidades. No aspecto do atendimento médico, as populações mais distantes do Norte e do Nordeste perderam um apoio importante com a partida dos médicos cubanos, preparados para situações de emergência como as epidemias.

Referências de saúde

Há áreas indígenas bem distantes como as do Acre e do Amazonas, por exemplo. No Estado do Amazonas muitas mortes pelo coronavírus ocorreram nas comunidades sem recursos ou foram vitimadas a caminho de um hospital. Viagens demoram dias até se chegar a um centro como a distante Atalaia do Norte, que é referência para as populações que vivem no vale do rio Javari, fronteira com o Peru, local com presença de grupos indígenas isolados e de outra etnias, que vêm sendo assediados constantemente por garimpeiros, madeireiros e missionários religiosos estadunidenses, todos levando ao desequilíbrio de sociedades frágeis frente aos desmandos de ocupações em suas áreas. O mesmo ocorre na região do Alto Solimões, local que teve a penetração da pandemia prematuramente.

No Acre, as terras indígenas são distantes de um centro com UTI. Moradores do rio Jordão, se forem de batelão para o primeiro polo de referência que é Tarauacá vão demorar até uma semana ou um ou dois dias se forem de canoa ou barco a motor. No entanto, Tarauacá não possui UTI e o local mais perto é Cruzeiro do Sul, cidade que já está carregada com a demanda acrescida pelos doentes de todos os municípios ao seu redor. Nesse caso é melhor um pequeno avião para o transporte direto para a capital, Rio Branco, mas isso requer uma verba elevada, pois o transporte aéreo onera consideravelmente os serviços de saúde.

Uma morte por minuto

A atitude das autoridades centrais é um “deixa pra lá” em relação à pandemia. O governo federal se concentra em lutas intestinas, interesses menores de grupos, ou em resolver tramoias de uma família no poder ligada aos crimes das milícias. O país já chora mais de 54.000 óbitos e é castigado por uma morte a cada minuto por coronavírus.

Registramos o pior quadro da pandemia em todo o globo terrestre nesse momento e continuamos sem rumo, com o sentimento de uma total ausência de um comando firme que a situação exige. Segundo o Imperial College, um dos principais centros de pesquisa de epidemias do mundo, o Brasil apresenta apresenta taxa de transmissão acima de 1 pela nona semana seguida, o que indica contágio fora de controle. A mesma instituição estima que o nosso país deve ter pelo menos três milhões de infectados.

Vacinas

Ainda é prematuro opinar a respeito de vacinas. Há todo um protocolo que deve se seguir até que ela esteja disponível ao público. A revista científica Nature, publicou um texto dos chineses, com amostra pequena mas indicando que em pacientes infectados pelo coronavírus e recuperados, assintomáticos ou sintomáticos, os níveis de anticorpos caíram rapidamente no prazo de dois a três meses.

Disso se deduz que o tal passaporte da imunidade e a imunidade de rebanho, tão apregoada pelo nosso governo, pode não ocorrer na forma prevista. Há aqueles que afirmam que a evolução da Covid-19 depende mais de fatores genéticos do que simplesmente dos grupos de risco, como idosos e pacientes com comorbidades.

Esta é uma doença grave que pode provocar uma forte resposta inflamatória acarretando danos aos pulmões, ao coração, aos rins, intestino e sistema circulatório. A covid-19 é cheia de desafios e ainda demanda muitos estudos.

Militarização do Estado

Hoje, dois terços do dinheiro liberado para enfrentar a pandemia continuam retidos no Ministério da Saúde (MS), uma pasta sem ministro cujo interino é um general de Roraima que afastou os técnicos competentes que vinham atuando nos cargos chave do órgão e os substituiu por militares de seu círculo de influência.

A própria Sesai- Secretaria de Saúde Indígena do MS tem um coronel da reserva no comando, reflexo da militarização do Estado nacional. É compreensível o desabafo de uma amiga que é técnica competente em saúde pública: “Trabalho há 25 anos no SUS e todo o dia eu choro vendo o desmonte de um sistema de saúde que construímos com tanto suor nesses anos!”. Em meio à pandemia, temos um ministério sem ministro que gerou um apagão na saúde e que procura suprimir e manipular as informações a respeito da doença.  

Cortiços, favelas e aldeias

A pandemia desenvolve-se de uma forma até certo ponto previsível. O início se deu nos grandes centros urbanos, tendo por ponto de partida pessoas que chegaram do exterior infectadas. A própria delegação do governo brasileiro que esteve em reunião com o presidente dos Estados Unidos retornou ao Brasil com boa parte de seus integrantes infectados pelo coronavírus.

Agora, as taxas de infecção crescem em direção às periferias das grandes cidades vitimando as populações mais pobres, como ocorre em São Paulo, e segue para o interior, como as águas que caem dos picos das montanhas e se espalham abaixo nos vales, vão penetrando nos cortiços, favelas, aldeias, comunidades ribeirinhas e nos pequenos municípios mais distantes. A pandemia vem se deslocando por ondas, podendo retornar, ainda que menos devastadora, espera-se. Disso se depreende que as medidas de higiene e saúde pública devem ser reforçadas.

Um governo divorciado da sociedade

Bolsonaro menosprezou a pandemia. Sabotou as medidas de isolamento e de proteção social. Desacreditou os cientistas e insuflou a agressão a esses. Mandou invadir UTIs do país para fotografar e filmar, desrespeitando de uma forma ainda não vista os pacientes lutando entre a vida e a morte, pisoteando a honra e a dignidade dos doentes e de seus familiares e amigos e expondo os trabalhadores da saúde, que já estão por demais pressionados e esgotados pela pandemia e que pensam que isso nunca vai acabar porque não para de chegar doentes nos hospitais.

O presidente trata milhares de mortos e toda uma cadeia de pessoas traumatizadas e marcadas por esta tragédia sanitária e social com frieza e indiferença. Ele quis ainda fazer o mundo médico engolir o tratamento da covid-19 com hidroxicloroquina, medicamento cuja eficácia não foi validada pela ciência e cujos efeitos colaterais podem ser fatais para muitos pacientes infectados.

Olhamos para isto tudo com mais descrença quando ouvimos na reunião ministerial de 22 de abril o ministro do meio ambiente afirmar que “agora é a hora de passar a boiada”, ou seja, liberar o garimpo ilegal, os grileiros, os madeireiros, fazendo negociatas espúrias e acarretando toda sorte de mazelas para o ambiente natural e a população envolvente. Isto se agrava com os estímulos do governo federal que autorizou o registro e venda de imóveis em terras indígenas não homologadas ou registradas.

O que nos resta é dar um grito surdo saindo das entranhas da quarentena como um alerta para o drama das populações mais pobres e menos favorecidas do nosso povo.

É por demais intolerável assistir à invasão crônica das terras Yanomami pelo garimpo ilegal levando a covid-19 para dentro das aldeias e ver o drama das mães que levam seus bebês das aldeias para serem tratados nos hospitais da cidade e eles morrem, desaparecem, talvez enterrados em algum lugar, sem que a família saiba.

Já se tornaram recorrentes os assassinatos de lideranças indígenas, a exemplo dos Guajajara no Maranhão ou das invasões de homens armados com metralhadoras nas terras dos pacíficos Wajãpi, do Amapá, ou da situação degradante e genocida que vivem os Guarani Kaiowá há anos acuados na região de Dourados no Mato Grosso do Sul e que apresentam o maior índice de suicídios do país, notadamente entre jovens. Estes são apenas alguns dos inúmeros exemplos do que ocorre nos rincões deste país.

O risco de genocídio

Tendo em vista a vulnerabilidade dos povos indígenas, nunca é demais pensar que cenas como aquelas vividas nas epidemias de gripe, sarampo e varíola podem retornar. As populações ficavam entregues à própria sorte, debilitando-se seriamente e comprometendo o deslocamento para pegar água ou alimento na roça, morrendo todos ali, nos limites da maloca, de fome e de sede, eliminando etnias. Infelizmente não se pode descartar o risco de genocídio.

Sem esperanças, nos marcos do atual governo, quero não crer nas palavras do eminente antropólogo, o Prof. Eduardo Viveiros de Castro, que disse em 2015: “O que se vê no Brasil hoje é uma ofensiva feroz contra os índios”. Foi mais incisivo em 2019: “Estamos assistindo a uma ofensiva final contra os povos indígenas”.

De fato, a entrada da covid-19 nas aldeias vem matando de bebês a adultos jovens e idosos, incluindo importantes lideranças, muitos desses depositários de extenso saber ancestral a respeito da natureza e que estão sendo calados para sempre.

De imediato é melhor acreditar naqueles de espírito combativo inquebrantável, como o do Cacique Celestino e de centenas de lideranças indígenas que lutaram e lutam para somar esforços com todos aqueles que estão a seu lado. Somente com a união de amplas forças políticas e sociais poderemos barrar o avanço da barbárie, pôr fim a este governo necrófilo e fazer o que é mais importante: salvar vidas!

VIDAS INDÍGENAS IMPORTAM!

* Médico sanitarista, trabalhou entre os Xavante de Parabubure e Pimentel Barbosa, em parceria com a USP e Fiocruz; foi diretor técnico do Polo Base de Tarauacá, no Dsei do Alto Juruá – Acre.   

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