A liderança suprema do país nivelada por baixo

Por J. Carlos de Assis*

                Um país que tem Bolsonoro como presidente da República não poderia deixar de ter um Rodrigo Maia como presidente da Câmara. Um está à altura do outro. Alcolumbre, o presidente do Senado, está um pouco acima dessa dupla, pois, por enquanto, se defende do ridículo geral com algum nível de sobriedade no caos político. Mas que tal Toffoli na presidência do Supremo? Completa o trio  do reino absoluto da mediocridade onde aqueles que deveriam ser líderes do povo se nivelam como lobistas do Capital.

                Ninguém deveria se surpreender com a indicação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada brasileira nos Estados Unidos. Está à altura do governo Bolsonaro. Segundo a justificativa dele, o filho é melhor que o pai. Portanto, deve ter uma carga de ódio contra opositores muito maior que a dele. Em Washington, deverá se colocar em posição de ajudar Trump a liquidar com o Partido Democrata, especialmente com Sanders, que tem a ousadia de se apresentar no coração do capitalismo como um proponente socialista.

                Tudo isso poderia ser visto como idiossincrasia do processo político brasileiro num momento de especial má sorte para o povo caso não houvesse conseqüências perversas no mundo real. Pela primeira vez em nossa história, e excetuando situações de ditadura, unem-se, contra o povo, Executivo, Legislativo e Judiciário. O Estado, que deveria ser uma expressão da sociedade, torna-se assim o verdugo do povo, o feitor da sociedade civil.

                Trata-se de uma situação pré-revolucionária. O processo dialético é inexorável: se a articulação de forças puxa excessivamente para um lado, ela acabará suscitando a força oposta por outro. E isso não se dá necessariamente no plano político, que não passa de um véu ideológico no sistema, mas na própria sociedade. Não fosse isso as ditaduras não acabavam. Assim como, em algum momento, acabará a ditadura institucional em que estamos.

                O problema, naturalmente, é o tempo. Pode demorar muito, sobretudo para aqueles de minha geração que estão na faixa dos 70. Entretanto, não nos afobemos. Sempre haverá algum imbecil entusiasmado com sua suposta onipotência para despertar reações contrárias. Vejamos Rodrigo Maia. Decidiu disputar com Paulo Guedes o primado neoliberal. Disse que ninguém sabe para o que serve Caixa Econômica, Banco do Brasil, Petrobrás.

                Maia quer radicalizar o discurso da privatização para ocupar o espaço de Bolsonaro na  direita e na extrema direita. Claro, isso supõe que os abutres do mercado financeiro já entenderam que Bolsonaro, por sua patente imbecilidade pessoal e política, atrapalha mais do que ajuda. Precisam urgentemente de um novo títere. Maia é o homem. Ninguém quer personalidades brilhantes para esse papel. Em tempo de campanha, até Bolsonaro serviu.

                Não busquem qualidades de liderança especiais em Maia. Seu mérito foi ocupar um vácuo num momento crítico da Câmara, com os parlamentares em total confusão. Dali em diante a Presidência da Câmara, como um ímã institucional, produziu os elementos de coesão que deram a impressão de habilidade na condução do processo legislativo, sobretudo na reforma da Previdência. Achar que em outras situações essa coesão durará é pura ficção. Sobretudo se não estiver por trás a grana das emendas.

* Professor, jornalista e economista 

                 

                

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