A dimensão internacional das eleições de outubro

umberto martins jornalista ctb

O debate eleitoral é dominado por temas relacionados à economia política doméstica e com uma agenda ditada pela direita e fortemente influenciada por um falso moralismo. Mas existe uma dimensão pouco comentada e visível do pleito presidencial que tem grande relevância para os destinos do Brasil, da América Latina e do mundo, embora não seja um tema presente nos debates promovidos pela grande mídia ou mesmo nas propagandas eleitorais.

“Um eventual retrocesso tucano pode atrasar não só o processo de libertação latino-americana e caribenha das garras do império, como também comprometer o futuro do Brics””Um eventual retrocesso tucano pode atrasar não só o processo de libertação latino-americana e caribenha das garras do império, como também comprometer o futuro do Brics” Trata-se da dimensão internacional das eleições de outubro, que além do Brasil envolvem dois outros países latino-americanos: a Bolívia – onde a batalha foi resolvida no último domingo (12), com a folgada reeleição de Evo Morales no primeiro turno – e o Uruguai, onde a julgar pelas pesquisas o candidato da Frente Ampla, Tabaré Vázquez, deve vencer o primeiro turno no dia 26, mas terá de enfrentar uma segunda rodada (em 30 de novembro) contra Luiz Lacalle Pou, candidato da direita neoliberal.

Está em jogo a continuidade de governos progressistas, cujos líderes, apesar das diferenças, têm em comum, além da origem nos movimentos sociais, o comprometimento com um projeto de integração econômica e política da região alternativo e oposto aos desígnios do império norte-americano. Várias iniciativas foram tomadas nesta direção, cabendo destacar a derrota da Alca, em 2005, a criação da Alba, da Unasul e da Celac, assim como a ampliação do Mercosul, com a incorporação da Venezuela em julho de 2012.

Nova geopolítica

A proposta de integração adquire objetivamente um caráter anti-imperialista na medida em que advoga e lança as bases de um novo arranjo geopolítico para a região fora da órbita dos EUA e alicerçado na soberania, na democracia e no respeito ao direito dos povos e nações à autodeterminação. Uma nova ordem sem hegemonismos, livre de sanções, bloqueios ou golpes, com a transformação da América Latina e Caribe numa “zona de paz”, conforme preconiza a Celac, e o desenvolvimento das nações orientado para a redução das assimetrias, assim como das desigualdades sociais.

A eleição de Chávez na Venezuela, em 1998, retomando os sonhos de Simon Bolivar, e de outros líderes progressistas (Lula no Brasil, Morales na Bolívia, Correa no Equador, Kirchner na Argentina), criou um novo cenário político na América Latina, substancialmente diferente daquele vigente no período neoliberal, que por aqui, nos anos 90 do século passado, tomou a forma do Consenso de Washington e foi tutelado pelo FMI.

O movimento de rebeldia na América Latina e Caribe está em sintonia com as transformações em curso no mundo decorrentes do deslocamento da produção industrial e do poder econômico do chamado Ocidente para o Oriente, a decadência dos Estados Unidos e a ascensão da China. Converge, neste sentido, com a criação e os acordos realizados no âmbito do Brics, que explicitou seu apoio “aos processos de integração da América do Sul” na Declaração de Fortaleza, aprovada na 6ª Cúpula do grupo.

Além do conteúdo nacional e anti-imperialista os movimentos em prol de uma nova geopolítica regional e internacional, em choque com os propósitos imperialistas de Washington, têm também um caráter de classe, pois a nova orientação da política externa no Brasil (assim como na Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina) não é do agrado da fração hegemônica da burguesia, cujas opiniões e interesses são reproduzidos diuturnamente pela grande mídia. Isto ficou evidente na reação irada à intervenção de Dilma na última Assembleia-Geral da ONU, em que condenou os bombardeios unilaterais dos EUA contra a Síria a pretexto de combater o terrorismo.

Relações perigosas

As relações perigosas entre a direita local e o imperialismo não constituem novidade. Lembremos os inúmeros golpes militares desfechados contra a democracia em vários países latino-americanos e caribenhos ao longo da história, inclusive no Brasil em 1964. Em todos eles, sem exceção, vamos encontrar as impressões digitais do império. Os casos mais recentes de Honduras e Paraguai – aliados às iniciativas golpistas na Venezuela, Bolívia e Equador – mostram os riscos aos quais os povos latino-americanos e caribenhos estão expostos hoje.

É ingenuidade política imaginar que as potências capitalistas são indiferentes ao processo eleitoral em curso. Evidentemente não há transparência nas ações políticas que exercem. Agem nas sombras, como forças ocultas, as mesmas que levaram Getúlio Vargas ao suicídio e os generais ao poder em 1964, mas seus propósitos e posicionamentos podem ser percebidos nas entrelinhas de artigos e editoriais da mídia imperialista, como é o caso de The Economist, que pediu o voto a Aécio no segundo turno (em nome da mudança). Conforme notou a presidenta Dilma, a famosa revista britânica é (e sempre foi) porta-voz do decadente sistema financeiro internacional.

A raivosa oposição que a direita neoliberal faz às relações do governo brasileiro com Cuba, Venezuela e Bolívia, assim como à integração e ao Mercosul, aliada à insistência com que batem na tecla de que é preciso negociar acordos de livre comércio com os Estados Unidos e a União Europeia sinalizam também o sentido da mudança que querem imprimir à política externa.

Integração e Brics

Queiramos ou não, o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil não é um assunto exclusivamente doméstico. Todo o mundo está de olho e o imperialismo certamente muito mais do que supõe nossa vã imaginação. O resultado do pleito vai impactar o continente americano e o mundo.

A vitória de Dilma é a garantia de que o generoso projeto de integração não sofrerá solução de continuidade, ao passo que um eventual retrocesso tucano pode atrasar não só o processo de libertação latino-americana e caribenha das garras do império, como também comprometer o futuro do Brics. O Brasil voltaria a ficar de joelhos perante os EUA, seria restaurada a diplomacia dos pés descalços e obscurecida a perspectiva de desenvolvimento com soberania, democracia e valorização do trabalho, bem como a integração democrática das nações latino-americanas e caribenhas.

Mas não acredito que as urnas vão consagrar o retrocesso. Vai dar Dilma e não devemos medir esforços para conquistar mais uma vitória do povo brasileiro.

Umberto Martins é jornalista.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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