Luta contra a carestia começa a mobilizar a população

Campanha contra a carestia começa a crescer pelo Brasil, a CTB faz parte desta iniciativa

Por Mariana Mainenti

A disparada da inflação está dando origem ao retorno de campanhas concebidas nos moldes das que fizeram parte da história do país nas décadas de 1970 e 1980, momento em que o Brasil viveu uma hiperinflação. Lideranças sindicais, de mulheres, de bairros e diversas bases religiosas, com caráter suprapartidário, começam a unir-se nas periferias de várias cidades para defender o controle de preços dos itens indispensáveis à sobrevivência.

Entre os movimentos sociais que estarão presentes ao encontro com o ex-presidente Lula nesta sexta (27) destaca-se o que luta contra a carestia. A disparada da inflação brasileira está dando origem ao retorno de campanhas concebidas nos moldes das que fizeram parte da história do país nas décadas de 1970 e 1980, momento em que o Brasil viveu uma hiperinflação. Lideranças sindicais, de mulheres, de bairros e diversas bases religiosas, com caráter suprapartidário, começam a unir-se nas periferias de várias cidades para defender o controle de preços dos itens indispensáveis à sobrevivência, como os próprios alimentos, cuja alta vem corroendo a renda real da população, que já se encontra desalentada com o desemprego, a miséria e a fome enfrentados pelo abandono dos mais pobres por Bolsonaro.

Com o lema “Abaixo a carestia que a panela está vazia”, que deu origem a um manifesto contra a alta de preços, o movimento que participa do encontro com Lula reuniu-se pela primeira vez em dezembro de 2021, na Paróquia Santos Mártires, localizada na Zona Sul de São Paulo, mesma região em que tiveram início os movimentos contra a carestia que perduraram de 1973 a 1982 e também nasceram nas comunidades eclesiásticas de base.

Desde dezembro do ano passado, já aconteceram cerca de 50 reuniões em comunidades, favelas e bairros de várias regiões da capital, tendo sido formados comitês populares de luta contra a carestia suprapartidários, reunindo pastores evangélicos e padres bem como representantes dos movimentos negro, de juventude e de times de futebol de bairros, além de representantes de categorias como os eletricitários, metroviários, condutores, funcionários dos Correios, da área de saneamento e de federações de servidores públicos.

“Nas reuniões ouvimos muitos relatos de mães que sofrem porque querem dar um iogurte ou um doce para o filho e estão sofrendo privação do consumo. As pessoas estão deixando de comprar, atrasando as contas. Faz um bom tempo que já vem degringolando a situação econômica, com a carestia a consumir o salário do trabalhador. Por isso, defendemos o controle de preços pelo Estado de itens como combustíveis, gás de cozinha, tarifas de água e luz e alimentos da cesta básica, além da correção do salário mínimo. O trabalhador vai terminar o Governo Bolsonaro ganhando menos do que recebia no início dele”, diz Antonio Pedro de Souza, um dos coordenadores da campanha.  

Motivos para a campanha não faltam. “A situação do nosso povo hoje é dramática: temos 19 milhões de pessoas com fome no Brasil e mais da metade da população em situação de insegurança alimentar, ou seja, se toma café da manhã não sabe se almoça, se almoça não sabe se janta; o desemprego tem batido recordes e chegou a estar em 14% e, se somarmos os desempregados com os que vivem ‘de bicos’, são mais de 30 milhões de brasileiros nesta situação; a inflação está com dois dígitos, com tudo pela hora da morte mas, se o salário não aumenta, o preço também não deveria aumentar, aí o povo está se alimentando com carcaça de frango. Além disso, o preço da energia subiu 114% em seis anos; a inflação, 48%; em São Paulo, já tem gás sendo vendido a mais de R$ 150. Não temos mais estoques reguladores de alimentos porque o Governo Bolsonaro acabou com eles; aí temos o quilo de cenoura a R$ 17. Está tudo caro e a culpa é do Bolsonaro”, enumera Alcides Amazonas, presidente do PCdoB em São Paulo e ex-vereador e deputado estadual.

Ele ressalta que, em consequência, da situação econômica, o número de moradores de rua em São Paulo, que era de 14 mil há três anos, hoje está em 30 mil. “Isso precisa ter uma resposta, esta tragédia social. As pessoas deixam de pagar o aluguel para se alimentar e chega uma hora em que são despejadas. Quando cai a temperatura, passam frio. Um país tão rico como o nosso não pode deixar seus filhos morrerem à míngua como vem acontecendo nos grandes centros urbanos. Estamos exportando petróleo bruto e comprando refinado porque Bolsonaro não tem plano de desenvolvimento econômico. E sem contar os quase 700 mil brasileiros que morreram vítimas da Covid. É muito sofrimento para o nosso povo”, lamenta.

Na ocasião do lançamento da campanha, que aconteceu na Praça do Forró, em 29 de abril, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) também ressaltou a responsabilidade do governo Bolsonaro pela inflação. “Esse desgoverno precisa ter fim! O povo não aguenta mais os preços dos alimentos e dos itens básicos. Precisamos que a população tenha melhores condições de vida”, declarou, segundo informações do jornal Hora do Povo.

No Paraná, o movimento de mulheres iniciou a mobilização contra a alta dos preços que, nesta quinta (26), marcou presença na Praça Rui Barbosa, no Centro de Curitiba, onde aconteceu ato para divulgação de abaixo-assinado destinado a pedir providências ao Ministério Público (MP), com o apoio da Força Sindical. “Estamos mobilizando comunidades e vamos encaminhar o abaixo-assinado ao MP, que representa a sociedade, e defende os direitos dos consumidores”, explica Alzimara Bacellar, presidenta da Federação de Mulheres do Paraná, segundo a qual a mobilização começa a partir das mães.

“Grande parte dos 26 milhões de desempregados e desalentados no Brasil são mulheres. E, como é para a mãe que o filho pede um pão ou um leite, as mulheres sentem mais a carestia. O nosso movimento acredita que o próximo governo irá enfrentar a carestia, porque este atual é só para os banqueiros e para os que querem dilapidar o nosso patrimônio”, afirma.

Segundo Alzimara, em locais como Fazenda Rio Grande, Colombo e Campo Largo, as mulheres estão divulgando o abaixo-assinado para vizinhos e parentes. Com isso, o documento já soma cerca de 1 mil apoios. Além da federação, encontra-se à frente da luta contra a carestia no estado a União Brasileira de Mulheres (UBM) do Paraná.

“É nítida e notória a situação da carestia do povo brasileiro que afeta, principalmente, as mulheres. Quase 40% dos lares brasileiros são de mães solo, muitas estão desempregadas e sentem mais o aumento dos preços dos alimentos, cujos responsáveis são os grandes grupos empresariais e o governo federal, que não tem sensibilidade para o sofrimento do nosso povo”, destaca Elza Maria Campos, ex-presidente nacional da UBM. “Como na década de 1970, quando houve um movimento muito grande contra o aumento da carestia, fizemos este ato na praça que é um lugar central, onde passam trabalhadores e trabalhadoras, mas também pessoas desalentadas, para que entrem na luta para que os preços dos alimentos abaixem”, compara.

Motivados pelo impacto da carestia na vida da população, na última semana, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) e o Sindicato dos Comerciários de São Paulo realizaram um Mutirão Nacional do Emprego no Anhembi. Somente no primeiro dia, cerca de 6 mil pessoas entraram na fila em busca de uma oportunidade. “O povo está passando fome, as pessoas estão em desalento. Muitas chegaram ao evento sem ter dinheiro para voltar para casa. Precisamos combater a carestia. O pão francês custa R$ 1,60 em São Paulo. Por isso, realizamos esta que foi a primeira de uma série de ações contra a carestia que a UGT fará em todas as capitais brasileiras e estamos sensibilizando os empresários”, afirmou Ricardo Patah, que preside ambas as entidades que organizam o mutirão. “Mas precisamos de políticas públicas. Não podemos permitir um país rico como o nosso com pessoas desalentadas, nas ruas, vivendo embaixo de viadutos, aguardando por um milagre”, acrescentou.

Durante o mutirão, foram oferecidas diversas oportunidades, como vagas de telemarketing, operador de caixa, vendedor, açougueiro, padeiro, confeiteiro. Somente em restaurantes e bares havia 400 postos disponíveis. “Nos preocupamos em fazer este mutirão porque, além da própria pandemia, que foi tratada de forma irresponsável, não há uma política industrial no Brasil e não percebemos capacidade e sensibilidade do governo para tratar a questão do emprego. Estamos na revolução industrial 5G e não vemos o governo capacitar os trabalhadores para isso. Há uma gestão temerária do Governo federal”, considera Patah.

Por meio de nota conjunta, as centrais sindicais definiram que a luta contra “as carências da classe trabalhadora em meio a uma conjuntura marcada pela carestia, aumento da fome e da pobreza, aumento da inflação, redução da renda e alta taxa de desemprego” é o que deve nortear as entidades neste momento.

“O Brasil voltou ao Mapa da Fome. Isso significa que milhões de brasileiros estão passando fome. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, 19 milhões de pessoas passam fome, e 116 milhões estão em algum grau de insegurança alimentar, ou seja, não sabem o que vão comer na próxima refeição. Essa situação desesperadora pede mobilização social, uma vez que vivemos sob um governo de ultradireita que retirou direitos e garantias da classe trabalhadora. É neste sentido, que os movimentos populares lançaram a ‘Campanha Contra a Carestia’, e a CTB faz parte desta iniciativa”, destaca a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em sua página na internet.

Conheça a íntegra do manifesto “Abaixo a carestia que a panela está vazia”:

“Nos últimos 5 anos, as condições de vida do povo pioraram drasticamente. Não bastasse a pandemia levar a vida de quase 700 mil brasileiros, 116,8 milhões de pessoas passaram fome em algum momento do ano de 2021, no Brasil.

Ao mesmo tempo em que o desemprego e a extrema pobreza chegaram a 14,6% em 2021, o valor da cesta básica subiu para R$ 713,86 em janeiro de 2022, consumindo 63% do salário mínimo. O gás de cozinha é vendido a R$150,00, e a inflação de 1,67% (março/2022) é a maior em 28 anos.

A energia elétrica, por sua vez, não para de subir. Nos últimos seis anos, a conta aumentou 114%, para uma inflação de 48% no mesmo período. Para encher o tanque de gasolina, depois do mega aumento da Petrobrás, gastamos até 25% de um salário mínimo.

Esta tragédia atinge a todos, indistintamente. Mas são os mais pobres, milhões de brasileiros e brasileiras, que mais sofrem.

A política do governo acabou com o estoque regulador da Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB, e estimulou a exportação dos alimentos nos últimos dois anos, quando alcançamos safras recordes. Enquanto isso, os países de todo o mundo fizeram o contrário, comprando mantimentos para garantir a segurança alimentar da sua população durante a pandemia.

O resultado é que para alimentar as nossas famílias temos que cortar a mistura das refeições, parcelar a compra do mercado e até do gás, escolher quais contas não pagar. Cada vez mais gente está passando pelo desespero e humilhação de comprar “carcaça de frango” com pele e gordura para os seus filhos, disputar ossos nos açougues ou até mesmo procurar restos de comida em caminhões de lixo.

Chegou a hora de darmos um basta nesse crime e acabar de uma vez com todas com essa humilhação e sufoco insuportável, provocado pelo governo Bolsonaro.

Exigimos o CONTROLE DE PREÇOS, com o TABELAMENTO DOS PREÇOS da Cesta Básica, gás de cozinha, conta de luz e combustíveis aos valores de 2020. Não vamos assistir e sofrer com esta situação no País, um dos maiores produtores de alimentos do mundo e uma das maiores economias.

Se o salário não cresce, o preço também não pode subir!

Abaixo a carestia que a panela está vazia!”

Fonte: Vermelho

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