Povos latino-americanos e europeus disputam o protagonismo da CELAC

Encerrou-se no último domingo (27) o Encontro dos Povos latino-americano, caribenho e europeu na Universidade do Chile, em Santiago, Chile. A abertura ocorreu na sexta-feira (26), com diversas programações autogestadas pelas mais diversificadas entidades sociais, sindicais e populares, que totalizaram em torno de 400 entidades presentes.

Este ano, o Encontro ocorreu paralelamente à reunião da cúpula da CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) com a da União Europeia, na qual 61 chefes de Estado se fizeram presentes. O objetivo dos movimentos sociais foi reafirmar a soberania nacional, proteger os recursos naturais, os direitos sociais e trabalhistas dos povos da região frente aos acordos que a Europa tenta viabilizar bilateralmente e/ou com a própria CELAC.

Destaca-se historicamente que este ano a CELAC será conduzida pelo governo cubano. O presidente Raul Castro, em forma de rodízio, tomou posse e substituiu o presidente chileno Sebastián Piñera.

Repressão

Na tarde-noite de abertura, realizou-se a marcha do Encontro, que contou com a participação de mais de três mil participantes. Saindo da universidade, ela percorreu as ruas até uma praça central da cidade, sendo acompanhada por forte aparato policial.

O governo chileno até os últimos instantes tentou proibir sua realização, mas o movimento se impôs e conseguiu garantir a marcha. No entanto, para não perder seu caráter direitista, em alguns momentos a policia do presidente Piñera atacou violentamente os manifestantes que realizavam em praça pública um belo ato político e cultural.

A jovem professora Barbara Figueroa, 34 anos, que pertence ao sindicato de sua categoria e foi eleita em setembro/2012 presidenta da Central Unitária do Chile (CUT), abriu o ato condenando a atitude do governo, mas ao mesmo tempo, reafirmou o significado histórico do encontro e conclamou as entidades a se unirem como tática indispensável para garantir o êxito da nova realidade política e econômica da região. Salientou também como caminho para lutar contra os efeitos da crise capitalista em curso.

Em seguida, algumas entidades se pronunciaram e reafirmaram o  discurso da presidenta, com destaque para um líder Mapuche, povo indígena que enfrenta violenta batalha contra os projetos do governo chileno.

FSM e CELAC

A Federação Sindical Mundial (FSM) foi recebida pelo Ministério das Relações Exteriores do Chile nesta mesma sexta-feira. Acompanhados pelas entidades filiadas CTB, CTC, UNT/Venezuela, PIT-CNT/Uruguai, CTE/Equador, além de representantes sindicais do Chile, os dirigente da FSM para América Latina e Caribe, Ramón Cardona e para o Chile, José Ortiz, entregaram um documento no qual saúdam a instalação da CELAC como instrumento fundamental para uma efetiva integração, como também reivindicações que exigem a valorização do trabalho – direitos trabalhistas e sociais, democracia social e representação junto às instâncias decisórias dessa comunidade. Além disso, aspectos que visam o fortalecimento dos Estados nacionais, respeito às diferenças e a necessária complementaridade econômica e tecnológica entre as nações-membro.divanilton cupula2

CTB e FSM em mesa de debate sindical

A CUT/Chile, anfitriã da CTB e da FSM, dentro da programação do evento, organizou um debate entre as entidades sindicais convidadas. Sob o tema “o modelo de desenvolvimento alternativo para a região”, a CTB, CTC/Cuba, UNT/Venezuela, CUT/Brasil, CUT/Chile, CTA/Argentina, CAT/Chile apresentaram sua opiniões acerca do tema em discussão.

A CTB em sua exposição resgatou que a formulação de que a integração latino-americana e caribenha é estratégica não é nova. Ela remonta há mais de duzentos anos, sobretudo sob a liderança do libertário Simón Bolívar e José Martí. E que, portanto, as organizações sindicais contemporâneas não devem se apresentar como proprietárias intelectuais dessa formulação. A crítica foi dirigida ao documento apresentado pela CSA para este debate.

divanilton cupula3Além disso, destacou que as forças políticas populares e democráticas que derrotaram o projeto de anexação continental pelos Estados Unidos, a ALCA, não devem permitir que acordos comerciais e econômicos sob a batuta dos interesses hegemônicos da Europa, inviabilizem o atual processo político em curso na região, como também agrida os interesses do povo e da classe trabalhadora.  

Evo e os movimentos sociais

No domingo, ultimo dia do encontro, o presidente da Bolívia, Evo Morales, ofereceu um café da manhã para os representantes das entidades sociais presentes.

“Aqui não discutiremos valores, nem princípios, pois temos as mesmas opiniões sobre eles. Quero ouvir qual é a agenda prioritária de vocês para que eu possa disputá-la na CELAC”, falou o presidente, abrindo a reunião.divanilton cupula4

Os presentes ressaltaram a importância da atitude do presidente em ouvir os movimentos sociais e aproveitaram para reforçar sua pauta política e reivindicatória.

Eixos

Duas assembleias gerais, antecedidas por grupos de trabalho, debateram e formularam o documento final do encontro, que tiveram como base quatro eixos temáticos:

A democracia, participação e soberania dos povos frente às multinacionais; os direitos humanos e trabalhistas frente às privatizações; o direito a terra, contra a mercantilização da natureza e da vida; integração e soberania entre os povos e contra a injustiça social.

Durante os próximos dias, a comissão organizadora do evento divulgará as resoluções formais do Encontro.

Por Divanilton Pereira, membro da Direção Nacional da CTB e representante desta no evento.


Leia também:
Integração latino-americana e caribenha é uma necessidade histórica
Para dirigente da CTB, acordo entre Mercosul e UE não pode prejudicar trabalhadores

Compartilhar: