O peão de Bush na América Latina

Por Umberto Martins

 

A América Latina vive, hoje, um rico e efervescente processo de mudança e transição política. Esta é configurada, de um lado, pela franca decadência política e econômica dos Estados Unidos e, de outro, pela emergência de governos progressistas e revolucionários em muitos e importantes países da região.

Cansados do chamado Consenso de Washington, cujo saldo foi o desemprego em massa, a estagnação econômica e o retrocesso das relações sociais, os povos latino-americanos têm infringido notáveis derrotas à direita neoliberal, conduzindo aos governos novas forças e lideranças políticas que buscam um caminho alternativo de desenvolvimento, rejeitando as receitas recessivas do imperialismo e suas agências, como o FMI e o Banco Mundial. 

A mudança em curso é, em muitos aspectos, surpreendente. Quem se recorda do contexto político mundial prevalecente há apenas 10 ou 15 anos, após a queda do Muro de Berlin e o fim da guerra fria, bem sabe que o cenário atual dificilmente poderia ser cogitado à época. Aparentemente, os EUA atingiram o ápice da hegemonia política após derrotar o “socialismo real”, embora já naquele tempo fosse possível perceber seu declínio relativo no plano econômico. De todo modo, ao longo dos últimos anos a decadência do império, tanto econômica quanto política, tornou-se mais transparente e já não é objeto de muitas controvérsias.

Ventos rebeldes

Os ventos rebeldes, que sopram com força na América Latina desde a vitória do líder revolucionário da Venezuela, Hugo Chávez, nas eleições presidenciais de 1998, certamente influenciaram os resultados da última reunião do Grupo do Rio (*), realizada dia 7 de março, que condenou sem meias palavras a incursão militar da Colômbia no Equador e logrou uma solução pacífica para a crise entre os dois países, que tinha contaminado também as relações com a república bolivariana.
Isolado no continente, apesar de contar com a cumplicidade descarada de Washington, o presidente colombiano, Álvaro Uribe Vélez, pediu perdão ao seu colega equatoriano, Rafael Correa, e assumiu o compromisso público de jamais voltar a agredir um país vizinho. Os fatos revelaram com eloqüência que Uribe não passa de um peão no tabuleiro da doutrina Bush, que por ora colheu mais um revés.

A diferença em relação ao passado recente é flagrante. Lembremos que em dezembro de 1994 o governo estadunidense logrou reunir 34 chefes de Estado na Primeira Cúpula das Américas, realizada em Miami. Conforme a “Declaração de Miami”, aprovada por unanimidade, ali ficou decidido “começar imediatamente a construir a Área de Livre Comércio das Américas”, a famigerada ALCA, que então só recebia críticas das forças de esquerda, duramente golpeadas e fragilizadas pela ascensão fulgurante do neoliberalismo. A ALCA não prosperou, foi derrotada.

É natural que o processo de mudanças e transição política em curso renove esperanças e desperte otimismo nos meios progressistas, mesmo porque a luta pelo socialismo foi recolocada com certa força na agenda social do século XXI, depois da derrota amarga na finada União Soviética e em todo o leste europeu. Todavia, é preciso cuidar para que o sucesso não suba à cabeça.    

A mentira como arma

A provocação do governo colombiano encerra lições simples e preciosas aos que lutam contra o unilateralismo do império, pelo direito à autodeterminação e soberania das nações e pelo socialismo, objetivos que na América Latina estão estreitamente entrelaçados. Em primeiro lugar, não podemos perder de vista o fato de que Uribe não agiu sem o prévio conhecimento e consentimento dos EUA. No rastro dos assassinatos não é difícil encontrar as impressões digitais do império, inscritas na tecnologia usada nos bombardeios e nos atos de espionagem que precederam a chacina.

Por sinal, reiterando a idéia lançada por George Bush de que a noção de soberania em nossa região deve ser relativizada, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, voltou a defender a invasão do território equatoriano e a carnificina contra guerrilheiros das FARC promovida pelo peão Uribe. Ela afirmou quinta-feira (13-3), em Brasília, que “as fronteiras não podem ser usadas como esconderijo de terroristas”, o que significa que podem ser violadas a qualquer momento se o imperialismo e seus lacaios entenderem que assim deve ser.

De resto, os agressores agem com base em conceitos controversos (os inimigos do império são tachados de terroristas ou aliados de terroristas) e pretextos ridículos, como a alegação de que os insurgentes assassinados (enquanto dormiam) estavam adquirindo tecnologia para produzir “armas sujas”, contando para tanto com o apoio de Hugo Chávez e Rafael Correa. Quem não se lembra das armas de destruição em massa no Iraque? A mentira parece ter se transformado num elemento estruturante do discurso imperialista. Não poderia ser de outro modo, mas o fato é que com o apoio da mídia capitalista, por força da repetição, a mentira tende a ser transformada em pensamento dominante e verdade perante o senso comum.

Reação às mudançasConvém lembrar que a violação do território equatoriano não foi a primeira patifaria cometida pelo governo fascista de Uribe contra a soberania de nações fronteiriças. A detenção de Rodrigo Granda em Caracas, meses atrás, a progressiva infiltração de agentes colombianos e paramilitares nas principais cidades venezuelanas, bombardeios sistemáticos e fumigações com substâncias tóxicas nas fronteiras “para combater o cultivo de drogas” são fatos que, entre outros, evidenciam o caráter belicista do atual governo colombiano, que atua no espírito do Plano Colômbia imposto pelos EUA.

É preciso entender, ainda, que as FARC não são o único alvo da dupla Bush/Uribe. O objetivo central, dissimulado pela propaganda imperialista, é sabotar o processo de mudanças políticas em curso na América Latina. Não custa lembrar que o governo progressista do Equador, liderado pelo jovem economista Rafael Correa, tem uma clara orientação antiimperialista, traduzida, por exemplo, na decisão já declarada de não renovar o tratado que permite aos EUA manter uma base militar na cidade equatoriana de Manta e que expira no próximo ano.

Transição não será pacífica 

O imperialismo não morreu, não é um tigre de papel nem perdeu a capacidade de reação. Em contrapartida, temos apenas um esboço de transição política, não podemos sequer dizer que esta tem um rumo definido e as fragilidades do lado de cá são patentes. O perigo de retrocesso não é remoto e a mudança ansiada pelos povos não será granjeada num caminho de paz e amor, livre de acidentes. Deixemos as barbas de molho.

É indispensável preparar o espírito para o acirramento da luta de classes contra o imperialismo (que, como notou Lênin, outra coisa não é senão o capitalismo monopolista da nossa época) e seus lacaios, de forma a abrir caminho para transformações sociais mais profundas no rumo do socialismo do século XXI.

Lacaios do imperialismo

É revoltante a forma com que a mídia monopolizada por algumas famílias de capitalistas (Marinho, Mesquita, Frias, Civita…) vem abordando a violação da soberania do Equador pela Colômbia, em geral ocultando o caráter fascista da agressão e apresentando agressores e agredidos como beligerantes da mesma espécie.

A revista “Veja” se excedeu e, pela capa de sua última edição, faz jus ao troféu “lacaios do imperialismo”. O acirramento da luta de classes na América Latina tem, entre outras coisas, a virtude de dissipar ilusões e clarificar posições, especialmente sobre o papel daquilo que antigamente chamávamos de imprensa burguesa na luta de idéias. O descaramento desta mídia, que se transformou num verdadeiro partido político (de direita), conforme notou o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, nunca foi tão grande.

 

 

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A classe trabalhadora frente ao imperialismo

 Intervenção feita pelo jornalista Umberto Martins, assessor da CTB, dia 5-5 no Encontro Nacional Nossa América . Clique aqui para acessar a versão em espanhol

Propuesta de Plataforma para la Unidad de Acción

1-    Defensa de los derechos laborales y sociales:
– Pleno Empleo:
– El Estado debe asumir su papel de inductor del desarrollo económico y social.
– Reducción de la jornada de trabajo, sin reducción de salario.
– Contra la precarización del trabajo.
– Contra la privatización:
– Universalización de las políticas públicas: educación, salud, previdencia social y transporte.
-El Encuentro Sindical “Nuestra América” asume la campaña: LA EDUCACIÓN NO ES MERCANCÍA.
-Contra la discriminación en el trabajo por motivo de género, etnia, religión y orientación sexual.

2- Integración solidaria y soberana:
– La solidaridad entre los pueblos y el apoyo a los cambios políticos y sociales.
– Unidad contra la ofensiva militar del imperialismo y la de sus fuerzas aliadas conservadoras y corruptas en la región.

3- Lucha en defensa de la soberanía alimentaría, sobre los recursos energéticos, hídricos,  la biodiversidad y la sustentabilidad ambiental.