Mulheres gregas procuram atenuar efeitos da crise econômica no país

Neste período em que a crise da dívida na Grécia atinge os setores dominados pelos trabalhadores do sexo masculino, como a construção civil, e milhares de homens perdem os empregos ou sofrem cortes salariais, as mulheres gregas estão fazendo um esforço heroico para tornarem-se as provedoras dos seus lares. Mas poucas estão tendo sucesso.

“Isso é uma tentativa de defesa contra a crise”, afirma Maria Karamesini, professora de economia da Universidade Panteion, que assessora a Comissão Europeia nas questões relativas à igualdade de condições para os dois sexos. “À medida que o desemprego aumenta entre os homens, um número cada vez maior de mulheres está procurando compensar as perdas de renda domiciliar”, afirma Karamesini, que ajuda o seu marido desde o início de 2009, quando ele perdeu o emprego de arquiteto. “Mas é claro que a maioria delas não está encontrando trabalho”.

Natalia Papapetrou, uma arquiteta de 36 anos de idade que fala três idiomas, jamais pensou que iria um dia se candidatar a um emprego como caixa de um supermercado de Atenas. Mas, cinco meses após ter perdido o emprego como assessora de uma organização estatal, e 18 meses depois que o seu marido perdeu o emprego, a responsabilidade de alimentar duas crianças começou a pesar bastante.

O casal transferiu a filha mais velha de uma escola pública para uma particular, e os pais deles estão ajudando com o pagamento da hipoteca da casa. Como praticamente não há dinheiro entrando, encontrar um trabalho tornou-se uma preocupação intensa. “Eu estou disposta a fazer qualquer coisa”, afirma Papapetrou, que se inscreveu para empregos em lojas e escritórios, sem entretanto ter recebido até o momento nenhuma oferta concreta.

Novo cenário

Estatísticas governamentais demonstram que o desemprego entre as mulheres gregas subiu 4% no último trimestre de 2010, chegando a 17,9%, comparado a média de 9,7% dos 27 países membros da União Europeia. Para as mulheres gregas de até 29 anos de idade, o índice de desemprego é de 33%. O desemprego entre os homens aumentou na mesma proporção, tendo chegado a 11,5%, comparado à média da União Europeia de 9,5%.

O aumento do desemprego entre a população masculina reflete vários meses de demissões que alimentaram manifestações frequentes e furiosas em Atenas. Mas não houve demissões em massa nas áreas dominadas pelas mulheres, como o setor público e a indústria de serviços, pelo menos até este momento. Portanto, o principal motivo para o aumento do desemprego feminino parece ser a busca sem sucesso por trabalho.

Economistas da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento, em Paris, estão chegando à mesma conclusão. Segundo a agência, o índice de participação na força de trabalho das mulheres gregas (aquelas que ou se encontram empregadas ou estão procurando ativamente um emprego) cresceu 2,9% nos últimos três anos – o que é quase o triplo da média da União Europeia de 1%. Mas o índice de emprego para as mulheres gregas caiu 0,8% no mesmo período.

“Isso demonstra que as mulheres gregas entraram no mercado de trabalho em uma tentativa de amenizar o impacto da recessão sobre a renda de suas famílias, mas frequentemente sem conseguir encontrar um emprego, ou pelo menos um emprego que seja compilado pelo governo”, afirma Paul Swaim, economista especialista em questões trabalhistas da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento. Swaim observou que na Espanha, onde o desemprego feminino é de mais de 20%, houve uma reação similar. Na Irlanda, que também passa por uma forte recessão, mulheres desencorajadas tendem a desistir de procurar um emprego.

Perspectivas

Os setores público e privado estão encolhendo. O turismo é praticamente o único setor que movimenta a economia grega, e até mesmo ele foi atingido pela crise, embora existam sinais de recuperação neste ano, já que a convulsão social no Oriente Médio faz com que turistas que iriam para países como Egito, Tunísia e Marrocos prefiram viajar para a Grécia.

As perspectivas para as mulheres empresárias também não são boas, já que um em cada quatro pequenos negócios, um setor que representa 96% de todas as empresas na Grécia, está fechando as portas devido à crise financeira.

Uma nova legislação, prevendo apenas uma contratação para cada cinco demissões no serviço público, afetará mais as mulheres do que os homens. Dentre as mulheres gregas com graduação universitária, até 60% ingressam tradicionalmente no setor público, segundo Karamesini, da Universidade Panteion. “O Estado costumava ser uma fonte garantida de emprego para as mulheres e isso estimulou a igualdade entre os sexos”, explica Karamesini. “O que está ocorrendo agora é um grande retrocesso”.

Um duro programa de austeridade econômica faz com que o governo tenha pouco espaço para tomar iniciativas quanto ao problema. Em uma declaração em abril último, a ministra do Trabalho da Grécia, Louka Katseli, apresentou dois novos programas com o objetivo de integrar as mulheres ao mercado de trabalho e encorajá-las a abrir os seus próprios negócios.

Mas ela também admitiu que há obstáculos. “As mulheres que perderam os empregos e que não estavam trabalhando devido a fatores externos enfrentam agora grandes dificuldades para retornar ao mercado de trabalho”, explicou a ministra.

Como os empregos de expediente integral estão se tornando cada vez mais raros, muitas mulheres estão aceitando empregos de expediente parcial, como o de garçonetes em cafés e restaurantes, onde os patrões muitas vezes não pagam as contribuições previdenciárias. Como esses empregos não são registrados, não existem estatísticas, mas evidências não oficiais indicam que existe uma tendência concreta nesse setor.

Anna Stylianou, 29, mora na cidade portuária de Salonika, no norte do país, onde o desemprego entre as mulheres é de mais de 20%. Stylianou, uma enfermeira formada que não consegue encontrar trabalho na sua área, começou a trabalhar em fevereiro deste ano em um café, em regime de tempo parcial, quando o salário do seu marido em uma empresa de construção foi cortado pela metade. Com uma renda mensal equivalente a US$ 1.750, e com os rumores de que haverá demissões na companhia, os planos do casal no sentido de ter filhos foram postergados. “Nós não podemos ter um bebê com toda esta incerteza”, explica Stylianou.

Algumas mães que encontram-se em grupos de baixa renda estão em apuros devido às despesas para criar os filhos. A SOS Children’s Villages, uma organização de caridade que fornece habitação para crianças em várias cidades, incluindo Atenas e Salonika, registrou um aumento de 45% das inscrições de mães solteiras no ano passado.

Embora os laços familiares tradicionalmente fortes signifiquem que muitas mulheres gregas contam com parentes que as ajudam a criar os filhos, outras veem-se obrigadas a contratar babás. Como os cortes econômicos resultaram no fechamento de creches estatais, muitas mulheres são agora obrigadas a contratar empregadas domésticas, mas a queda dos salários significa que elas estão tendo muita dificuldade para arcar com esses novos gastos. “Essa é uma despesa que uma quantidade cada vez menor de mulheres tem condições de suportar”, diz Maria Stratigaki, diretora do secretariado geral para a igualdade entre os sexos, uma instituição governamental.

Violência doméstica

O escritório dela criou recentemente uma linha telefônica para ajudar as vítimas da violência doméstica. Ela diz que essa violência não apareceu nas estatísticas oficiais, mas parece estar aumentando. “Se abrirmos um jornal em um dia qualquer, veremos que há pelo menos uma reportagem sobre um assassinato ou um espancamento doméstico”, afirma Stratigaki.

A violência doméstica muitas vezes emerge quando as preocupações financeiras somam-se às outras tensões já existentes, diz Karamesini, a professora da Universidade Panteion. “Eu não conheço nenhum domicílio que atualmente esteja livre da tensão”, diz Karamesini. Ela teme que as mulheres encontrem cada vez mais dificuldades para ter filhos devido à necessidade de trabalhar, e que a taxa de natalidade da Grécia, já em queda, de 1,3 criança por mulher, possa cair ainda mais. “Como é que as mulheres terão filhos em um mercado de trabalho tão difícil?”, pergunta ela. “Esta é uma geração perdida”.

Fonte: International Herald Tribune

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