Duas propostas antagônicas sobre a Venezuela na ONU

O Conselho de Segurança da ONU analisa nesta quinta-feira (28) duas propostas antagônicas sobre a Venezuela, uma contra e outra a favor do governo Maduro. A primeira, apresentada pelos Estados Unidos, contesta a legitimidade do presidente chavista e pede novas eleições presidenciais. A outra, sugerida pela Rússia, defende o atual governo e o princípio da soberania nacional e não intervenção; sugere que a ajuda humanitária seja endereçada a Nicolás Maduro e às autoridades do país e adverte contra o uso da força.

A proposta de Moscou confronta o projeto de Washington de que as remessas de alimentos e remédios sejam manipuladas pela oposição para fortalecer e legitimar o deputado golpista Juan Guaidó, que por orientação do vice-presidente norte-americano, Mike Pence, se autoproclamou presidente interino da Venezuela em 22 de janeiro.

Intervenção ou soberania?

São duas propostas antagônicas que revelam a divisão do Conselho de Segurança da ONU e o impasse que deverá resultar em rejeições mútuas, visto que as potências nucleares (EUA, Rússia, China, Inglaterra e França) têm poder de veto no organismo. Rússia e China apoiam o governo de Nicolás Maduro, ao passo que os EUA estão em feroz ofensiva para derrubá-lo e colocar um ponto final na revolução bolivariana, que desafiou o império e proclamou o objetivo de construir uma sociedade socialista.

Mesmo se obtiver maioria entre os 15 membros do Conselho de Segurança nenhuma das duas propostas terá o respaldo da ONU em função do direito ao veto das cinco potências nucleares. A pressão dos EUA é intensa, mas esbarra na oposição de Moscou e Pequim, que parecem determinados a lutar por uma nova ordem internacional sem intervenções de potências estrangeiras em conflitos internos de outros países e fundada no respeito à autodeterminação dos povos.

O conflito interno da Venezuela, que tem um nítido caráter de classes, está deste modo compreendido numa batalha geopolítica mais global que coloca em questão a decadente ordem imperialista definida pelos acordos de Bretton Wodds (1944), cuja fundamento é a hegemonia econômica, política e militar dos EUA, cuja decadência é hoje notória.

Ofensiva imperialista

Os EUA são em grande medida responsável pela crise que perturba a sociedade venezuelana, pois estão movendo uma cruel guerra econômica contra o regime chavista, com sanções de toda ordem e estímulo à violência e ao golpismo desde que Chávez chegou ao poder em 1998. O interesse maior e não confessados dos imperialistas americanos é tomar conta das maiores reservas petrolíferas do mundo e conter a crescente influência da China no continente.

Em abril 2002 o líder da revolução bolivariana foi vítima de um golpe apoiado por Washington, que não teve respaldo popular e não chegou a durar 48 horas. Chávez voltou ao Palácio de Miraflores pelas mãos do povo e militares patriotas e revolucionários. O ano seguinte (2003) também foi marcado por iniciativas golpistas, lideradas pelos executivos da PDVSA, uma espécie de Petrobras venezuelana.

Eles também acabaram derrotados, mas o espírito golpista continuou influenciando os círculos reacionários frequentados pela burguesia e latifundiários do país, aliados dos EUA. Nicolás Maduro também não teve momentos de sossego, enfrentou manifestações violentas capitaneadas pela extrema direita em 2014 e 2017 e agora depara-se com o golpe comandado pelo deputado Juan Guaidó.

Bolsonaro e Guaidó

Nesta quinta-feira (28) o golpista Guaidó foi recebido por Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Foi o encontro de dois líderes da extrema-direita latino-americana, ambos caudatários da política imperialista emanada de Washington e fãs do presidente Donald Trump. Num rasgo de demagogia bizarra e de mau gosto, Bolsonaro disse que “Deus é brasileiro e venezuelano”. O apoio do presidente brasileiro ao líder da oposição venezuelana, que não passa de um fantoche da Casa Branca, não corresponde aos interesses do nosso povo, que já está sofrendo as consequencias, e viola a Constituição de 1988, que consagra o princípio da não intervenção e de solução pacífica para os conflitos políticos domésticos das nações.

É um gesto que tampouco está em harmonia com os sentimentos do povo venezuelano, que não respaldou o extremista Guaidó, não deseja a guerra civil e rejeita a intervenção do imperialismo. O mesmo se pode dizer em relação às Forças Armadas Bolivarianas e à Justiça do país, que apesar da crise e das pressões imperialistas continuam leais ao governo Maduro.

Umberto Martins

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