Desemprego e revolta contra o FMI marcam eleições em Portugal

O aumento do desemprego, os cortes nos gastos sociais e a desconfiança na classe política reforçam o mal-estar dos portugueses com as eleições legislativas marcadas para o domingo (05/06). O Partido Social Democrata, de centro-direita, manteve a liderança sobre o governista Partido Socialista em duas pesquisas divulgadas nesta quinta-feira (02/06).

A severa crise pela qual Portugal passa deixou quase 700 mil pessoas  sem emprego – o equivalente a 12,4% da população ativa. Além disso, o país deverá realizar, como contrapartida ao empréstimo internacional de 78 bilhões de euros do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da Uniaõ Europeia, reformas no setor trabalhista, na educação e na saúde que podem piorar ainda mais o panorama e já provocaram manifestações.

Os jovens, os mais castigados pela falta de perspectivas, protagonizaram os primeiros protestos. Uma de suas principais queixas é a precariedade na qual vivem muitos, em geral estagiários “eternos” ou trabalhadores sem contrato ou cobertura social, pagos através de recibos de cor verde chamados de coletivos.

Um movimento juvenil criado neste ano de forma espontânea a partir de um grupo de amigos insatisfeitos com a situação do país promoveu no dia 12 de março grandes manifestações em várias cidades, cujo eco nas eleições ainda está por vir. Convocados como protestos politicamente independentes e pacíficos, reuniram cerca de 300 mil portugueses nas ruas das principais cidades, uma manifestação de dimensão pouco habitual para o país.

Presos pelos compromissos da ajuda financeira, as duas grandes correntes políticas lusitanas – os socialistas e os conservadores – não acolheram em seus programas as aspirações deste movimento que, para muitos, trouxe evocações da Revolução dos Cravos de 1974.

Além dos protestos civis, os principais sindicatos também se mobilizaram contra o resgate financeiro – anunciado no dia 6 de abril – e os planos prévios de ajuste fiscal do governo do socialista José Sócrates, com cortes de salários e de subsídios sociais e aumentos de impostos.

A Confederação Geral de Trabalhadores de Portugal (CGTP), de tendência comunista, e a União Geral de Trabalhadores (UGT, socialista) convocaram uma greve geral no dia 24 de novembro do ano passado, a primeira em conjunto desde 1988. Sindicato mais poderoso do país, com cerca de 700 mil filiados, a CGTP endureceu desde então sua postura devido ao anúncio da ajuda externa. A organização prepara agora uma campanha de greves e protestos que já começa a repercutir em Lisboa e no Porto.

Mas, ao contrário da dúvida em relação às consequências eleitorais das reivindicações estudantis, a insatisfação dos sindicatos parece direcionar seus votos para os partidos marxistas do Parlamento, que contam com cerca de um quinto dos votos.

O descontentamento social ganhou um novo capítulo nas últimas semanas com o eco que teve em Lisboa o protesto na praça Porta do Sol, em Madri. O que começou com dezenas de estudantes espanhóis concentrados em frente ao Consulado de Lisboa acabou reunindo um heterogêneo movimento disposto a expressar sua contrariedade com a crise e o sistema na Praça Rossio, em Lisboa.

Lá, dezenas de jovens se reuniram ao redor da escultura de Dom Pedro I, rei de Portugal e imperador do Brasil, sob o lema “Democracia verdadeira já” e criaram uma imensa interrogação para as eleições do domingo.

Fonte: Opera Mundi

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