Ao assumir 3º mandato na Bolívia, Evo reforça demanda de saída ao mar

O líder indígena cocalero Evo Morales foi empossado nesta quinta-feira (22) presidente da Bolívia em seu terceiro mandato consecutivo. O mandatário jurou o cargo durante cerimônia realizada no Parlamento boliviano junto ao vice-presidente, Álvaro García Linera.

Além de se comprometer a reduzir a pobreza ao menor nível da história do país, Evo Morales também reforçou uma reivindicação antiga — e pauta central de sua campanha à reeleição —, o direito boliviano a uma saída ao mar. “Devemos voltar ao Pacífico com soberania”, disse Morales.

“Temos o direito a uma saída soberana ao oceano Pacífico, por história, por justiça e por direito”, acrescentou o presidente, referindo-se à demanda de seu país com o Chile no tribunal internacional de Haia para a retomada de parte do território perdido durante a guerra do Pacífico, na qual o país indígena perdeu quase 400 quilômetros lineares de costa.

Evo Morales também se comprometeu a reduzir a pobreza ao menor nível possível até 2020, ano em que termina seu mandato. De acordo com o Banco Mundial, antes da chegada de Evo Morales ao poder, em 2005, 60,6% dos bolivianos estavam abaixo da linha da pobreza. Em 2011, o número foi reduzido a 45% da população, valor ainda considerado alto, quando comparado com países vizinhos como Brasil, que tem 8,4% dos cidadãos nessa condição, ou Paraguai, com 23,8%.

A cerimônia de posse, iniciada nesta quarta (21/01) com a realização de rituais andinos nas ruínas do sítio arqueológico pré-colombiano de Tiwanaku, contou hoje com a participação da presidente Dilma Rousseff e dos governantes de Costa Rica, Equador, Paraguai, Trinidad e Tobago e Venezuela, entre outros convidados internacionais.

Após ser juramentado pelo vice-presidente García Linera, Morales recordou o momento em que foi expulso do Congresso pela direita do país em 22 de janeiro de 2002 e ressaltou que os nove anos do Estado Plurinacional da Bolívia “demonstram que temos democracia e estabilidade política”.

Morales lembrou, em seu discurso, que a Bolívia, em meio à expansão dos direitos sociais da classe trabalhadora, também tem um dos maiores índices de crescimento econômico da região. De 2005 até 2014, o PIB do país cresceu 5,1%.

Com relação à desigualdade social, o presidente destacou que em 2005, os 10% mais ricos tinham 128 vezes mais recursos que os 10% mais pobres. Dado que diminuiu 42 vezes em 2013: “Isto é o socialismo”, afirmou.

Outro ponto ressaltado por Morales foi o aumento do salário mínimo — sem reajustes por oito anos, antes da chegada da chegada ao poder, e, desde o início da gestão, teve aumento de 227%. “Já não somos o pior colocado”, comemorou.

Líder cocaleiro, Evo Morales lembrou ainda que seu país está melhor hoje do que quando o Estados Unidos controlavam a política antinarcotráfico. “Quando tínhamos a base miltar dos EUA e quando aqui mandava a DEA (Agência dos EUA contra o narcotráfico) havia mais de 30 mil hectares de coca e, no ano passado, chegamos a 21 mil hectares, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas). O cultivo e o consumo da folha de coca é uma tradição milenar dos povos andinos bolivianos e peruanos e, durante seu mandato, a tradição de mascar a folha deixou de ser crime, fato considerado por ele uma vitória.

Socialismo comunitário

Álvaro García Linera, sociólogo, matemático e um dos maiores intelectuais bolivianos da atualidade, disse, durante seu discurso, que o socialismo comunitário, baseado na experiência indígena ancestral, implementado na Bolívia é “a solução real para a catástrofe ambiental e uma luta contra o velho Estado que monopoliza e um novo Estado que democratiza”.

Linera disse ainda que o socialismo é um “longo” processo de transição no qual o Estado revolucionário e os movimentos sociais se fundem para que as decisões sejam democratizadas e as atividades econômicas entrem na lógica comunitária, “ao invés da lógica do lucro”.

“Socialismo é democracia representativa no Parlamento, mais democracia comunitária nas comunidades agrárias e urbanas, democracia direta nas ruas e fábricas, em meio a um governo revolucionário, um Estado dos movimentos sociais”, definiu Linera.

Evo Morales e García Linera foram reeleitos para o terceiro mandato até 2020 com 61,3% dos votos.

Assistiram à terceira posse do governante boliviano os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, que visita o país pela primeira vez; da Costa Rica, Luis Guillermo Solís; do Equador, Rafael Correa; do Paraguai, Horacio Cartes; de Trinidad e Tobago, Anthony Carmona, e da Venezuela, Nicolás Maduro. E os vice-presidentes de Argentina, Belarus, Cuba, Nicarágua e Peru.

Por Vanessa Martina Silva, no Opera Mundi

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