Sobre o novo cenário político-social e perspectivas

Érico Leal*

01- Como tantos, minhas ações e reflexões estão condicionadas física e emocionalmente pelo quadro de pandemia eivado de crises de todos os tipos, que estão desconstruindo o país e o povo sob a direção conivente de um governo genocida. Estamos literalmente diante do caos e da tragédia nunca vistos em tempos recentes rumo ao arbítrio oligárquico se não houver freio e mudança de caminho.

2- Portanto todo entendimento e perspectivas que desenvolvo nas caminhadas em torno do Museu “Emílio Goeldi”, indo ao supermercado ou farmácia, no caixa do banco, nos atos e reuniões on lines, lendo revistas ou assistindo jornais estão voltados para barrar a sanha reacionária e coletivamente encontrar saídas que garantam o Estado Democrático de Direitos e os avanços ao bem-estar do povo.

3- Em 24 horas 2.349 brasileiros e brasileiras perderam a vida somando 270.917 mortes, exatamente no dia que completa aniversário o reconhecimento de pandemia pela OMS. São 23,4% de mortes no mundo em um dia para uma população de 2,7%. Uma onda em crescimento junto ao colapso do sistema de saúde com filas de espera em UTIs, em todos os Estados da Federação. No sentido contrário, a vacinação segue a “passos de cágados”, faltando vacina: 4,26% da primeira dose e 1,5% da segunda.

4- Sem o auxílio emergencial, os trabalhadores e trabalhadoras não têm opção diante do dilema de sobreviver ou morrer; transportes lotados, risco de desemprego, aluguéis vencidos, energia cortada, despensa vazia. Vivem diariamente a “roleta russa” cada vez mais sem espaço que alivie sua tragédia pessoal e familiar. Aos desempregados, o desalento ou a solidariedade, a “providência divina” ou o abandono à própria sorte. Tudo isso em um país que vai se diluindo material e espiritualmente.

5- É diante desse cenário dantesco que Lula retorna ao epicentro da política nacional por uma inesperada ação do STF mas não despida de intencionalidade e reação. Talvez um caso de “Deus escreve certo por linhas tortas” ou lido como sinal de novos tempos. Mas apesar desse fato alvissareiro ter mudado comportamentos e movimentado forças políticas, com coletiva e espaços na mídia, ainda não podemos aquilatar seu tamanho e suas consequências na vida do país.

6- O discurso negacionista de repente transmuta-se para o anúncio de compra de 400 milhões de doses de vacina até o final do ano; apoiadores de Bolsonaro no Parlamento propõem um pacto pela vida; o genocida e sua trupe passam a usar e defender a máscara e o distanciamento social. Para um país de fiéis pode parecer o milagre das Bodas de Canaã, no entanto, a água poluída manchada de sangue só confirma o oportunismo eleitoreiro que marca o clã de milicianos.

7- As marolas oriundas dos recentes acontecimentos embalam, em nosso campo, sentimentos de esperança e euforia, animando a luta; porém evidenciam crônicos problemas de disputa e hegemonismo, que atrapalham a unidade dos progressistas e o fortalecimento das condições subjetivas de mudança. Revelam o nível de pensamento da esquerda e a influência de Lula na hoste revolucionária, observada a partir das manifestações em redes sociais.

8- A presença de Lula no campo de batalha, com disposição e sentimentos de classe, e tudo o que isso pode representar dentro e fora do país, traz novo ânimo para a luta; reagrupa a militância; estabelece reação no adversário e possibilita ajustamentos de forças. Mas, por outro lado, traz euforia, soluções fáceis e ilusões de classe, como se bastasse apenas sua presença para as coisas acontecerem ou mudarem.

9- De repente Lula ganha no primeiro turno e toma posse antecipadamente livrando o Brasil de Bolsonaro et caterva; o retorno de Lula “paz e amor” galvanizará setores das classes dominantes sendo o governo de transição; basta o Fantástico da Globo entrevistar Lula para o fato estar consumado; quem está bem colocado nas pesquisas não pode abdicar de candidatura; tem até gente se preparando para a posse. Além disso, artigo acusando de covardia os que questionam a polarização Lula x Bolsonaro; ou fazendo profissão de fé revolucionária na referida polarização, resgatando que polarizações são objetivas para justiçar posição.

10- Registro minha dificuldade de análise política, principalmente nessa quadra dinâmica, e confesso admiração àqueles que em poucas linhas traduzem seus pensamentos e conclusões. De início preciso lutar contra minha origem de formação judaico-cristã, baseada na culpa e no medo; metafísica e idealista: passar desse calvário, como expiação dos pecados, para o primeiro céu do comunismo sem os horrorosos aporrinhamentos da construção da estrada. Coisa de ungido.

11- Outra questão que me angustia é fugir do esquematismo; pensar em processos, correlações e acasos, projetar cenários, avançar e recuar na construção de caminhos; “análise concreta da realidade concreta” para uma ação concreta; agir sobre a realidade objetiva para mudá-la, não são coisas fáceis com dizem os entendidos. Como reza a cartilha, exige leitura de correlação de forças, histórico de lutas e de mudanças, as condições objetivas e subjetivas etc etc. Nem a realidade objetiva é imutável nem a vontade é tudo.

12- A presença de Lula no cenário político é um ganho das forças progressistas nesse mar revolto de conservadorismo. Sua liderança e respeitabilidade, sua inter-locução com diversos setores da sociedade, seu cacife em nível internacional, seu histórico e compromisso com o povo o credencia a abrir espaços de diálogo, liderar junto com tantos outros um amplo processo de discussão sobre estratégias e caminhos; pontos de unificação de amplas forças em defesa da vida, da democracia e da nação.

13- Na política não se deve descartar a priori cenários e resultados, principalmente nas programadas Eleições de 2022. Obviamente, a nós interessa a derrota de Bolsonaro e para mim, dentro do possível, garantir a eleição de um governo progressista. Para isso é necessário reequilibrar a correlação de forças que garantiu o golpe de 2016 e suas consequências. Digo forças reais, não só pesquisas de opinião.

14- Evidente que há um desgaste dessas forças conservadoras em relação ao governo em diversos aspectos; há contradições entre as mesmas; o empobrecimento geral e as consequências da pandemia atingem inúmeros setores; o resgate da economia a partir do Estado é posto até pelo FMI. Portanto, na minha opinião, existem condições de frente ampla; o que não está colocado a priori com que espectro será constituída, se será.

15- A polarização é inerente à política, mas qual derrotará Bolsonaro e seu fascismo? Posto que até nossos dias a democracia é exceção em comparação com o arbítrio; e o arbítrio não é prerrogativa só do genocida . Que polarização pode romper o medo e o estigma construídos contra as forças de esquerda? Que polarização neutralizará setores reacionários? A polarização direita x esquerda muda essa correlação de forças? Em que circunstâncias? Como está a capacidade de resistência das forças democráticas e progressistas?!

16- A entrevista coletiva do Lula sinaliza positivamente ao diálogo, à necessidade de tirar o país do atoleiro, de garantir democracia, desenvolvimento e os direitos sociais; ele se coloca para a luta. No entanto, a impressão que tive, que não deixa de ser legítima, mas que não ajuda o país, é que Lula aposta na polarização com uma frente em torno dele: “desistir jamais”, “não tenham medo de mim” e PT, PT e PT.

17- Sinceramente torço para que as forças políticas mais avançadas convençam Lula e que este em suas conversas e andanças pelo país vá assimilando, que se as mudanças não forem possíveis sob seu comando e do PT que outras alternativas sejam construídas para nos livrar do fascismo. E que não demore, né?!

Belém, 11 de Março de 2021

*Érico Leal, geógrafo, servidor público aposentado, foi vice-presidente da CTB Pará.

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