Lula quer dar adeus ao dólar e defende moeda própria do BRICS

Foto: Ricardo Stuckert

A eleição de Lula não provocou impactos apenas no Brasil. Seus desdobramentos internacionais são realçados neste momento com a viagem do presidente brasileiro à China. A visita vai estreitar os laços e fortalecer a parceria estratégica entre as duas nações e tem notáveis repercussões geopolíticas.

Sob o governo Bolsonaro, o Brasil hostilizou a China e o governo chinês. Fez coro aos ataques desvairados do governo dos EUA, à época presidido por Donald Trump, contra a potência asiática, que Washington elegeu como inimiga estratégica ao lado da Rússia. O líder do fascismo brasileiro desprezou o BRICS e impôs ao Itamaraty, através do trumpista Ernesto Araújo, uma orientação eminentemente ideológica, anticomunista, de extrema direita.

Novo impulso para o BRICS

Com Lula, o Brasil retoma as relações amistosas e a parceria com a China – que é a principal parceira comercial desde 2009 e já investiu por aqui mais de US$ 72 bilhões. O BRICS, acrônimo que designa o bloco econômico e político composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, criado no bojo da crise financeira internacional em 2009, tende a ganhar um novo impulso e imprimir novo ritmo à transição histórica para um novo arranjo geopolítico.

O presidente brasileiro já sinalizou neste sentido no discurso que pronunciou em Xangai durante a posse da ex-presidenta Dilma Rousseff como presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado no âmbito do BRICS com o propósito de financiar projetos de desenvolvimento dos países membros e aliados.

Lula sugeriu a criação de uma moeda própria do BRICS para substituir o dólar nas relações comerciais e financeiras, superando desta forma a dependência da moeda dos Estados Unidos, que funciona ainda hoje como uma espécie de moeda global, o que confere privilégios exorbitantes aos EUA para acumular dívidas e déficits, privilégios que por este mesmo motivo são também uma fonte de parasitismo e decadência.

“Eu toda noite me pergunto: por que todos os países estão obrigados a fazer seu comércio lastreado no dólar? Por que não podemos fazer nosso comércio lastreado na nossa moeda, porque não temos o compromisso de inovar? Quem é que decidiu que era o dólar a moeda depois que desapareceu o ouro como paridade? Por que um banco como o dos Brics não pode ter uma moeda que possa financiar os projetos entre os países do Brics?”, perguntou Lula.

Críticas ao FMI e Banco Mundial

O banco do BRICS nasceu como um contraponto ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), instituições dominadas pelos EUA, vassalas dos bancos privados internacionais, que condicionam seus empréstimos e auxílios financeiros a ajustes recessivos, com cortes drásticos nos investimentos públicos, privatizações, desemprego e arrocho dos salários. Suas receitas tóxicas impedem o desenvolvimento das nações que a elas se submetem e impõem aos povos sacrifícios intoleráveis.

Lula criticou as amarras impostas pelo FMI e o Banco Mundial aos países mais pobres. “Muitos países em desenvolvimento acumulam dívidas impagáveis, é nesse contexto que o Novo Banco de Desenvolvimento se impõe. A decisão de criar esse banco foi um marco na vida dos países emergentes. Os Brics não poderiam ficar alheios às grandes questões internacionais”, disse Lula.

“Pela primeira vez um banco de alcance global é estabelecido sem a participação de países desenvolvidos em sua fase inicial. Livre, portanto, das amarras e condicionalidades impostas por instituições tradicionais e com a possibilidade de financiamento de projetos em moedas locais”, continuou.

Nova ordem mundial

A ex-presidente Dilma Rousseff também reforçou a intenção do NDB em buscar financiamentos com outras moedas, além do uso do dólar e do euro.

“Captaremos recursos dos mais diversos mercados mundiais, em diferentes moedas, como o renmimbi, o dólar e o euro. Buscaremos financiar nossos projetos em moedas locais, privilegiando os mercados domésticos e diminuindo a exposição às variações cambiais. Nosso objetivo é construir alternativas financeiras robustas para os países membros”, disse Dilma.

A viagem de Lula à China já resultou na assinatura de 15 acordos bilaterais em diferentes áreas, com destaque para ciência e tecnologia, e deve alavancar o crescimento das relações comerciais, bem como atrair investimentos chineses estimados em US$ 50 bilhões para o Brasil, especialmente na área de infraestrutura.

Trata-se de uma parceria fundamental para o desenvolvimento nacional e que converge, no plano global, para a construção de uma nova ordem internacional, que a julgar pelo propósito dos chineses e líderes do BRICS deve abrir mãos dos hegemonismos e ser alicerçada no multilateralismo, na solução pacífica dos conflitos entre as nações e na promoção do desenvolvimento orientado para o bem estar social e o respeito ao meio ambiente. Seria uma ordem pós-imperialista.

No encontro com Lula em Pequim nesta sexta-feira (14), o presidente chinês, Xi Jinping afirmou que “a China buscará um desenvolvimento de alta qualidade, acelerará a criação de um novo paradigma de desenvolvimento e promoverá uma abertura de alto padrão. Isto abrirá novas oportunidades para o Brasil e para os países de todo o mundo”.

Lula, por sua vez, reiterou a solidez da amizade entre os dois países com uma declaração que chegou a ser interpretado como um recado a Washington. “Ontem (quinta, 14) fizemos uma visita à Huawei (empresa chinesa de telecomunicações demonizada e perseguida pelos EUA), em uma demonstração que queremos dizer ao mundo que não temos preconceito em nossas relações com os chineses e que ninguém vai proibir que o Brasil aprimore sua relação com a China”.

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