Desindustrialização e reprimarização: um retrato da dominação financeira no Brasil

Cenário que emerge com o país se tornando ainda mais agrário-exportador é o da decadência que atinge, em especial, a região Sudeste.

Como herança das políticas neoliberais desencadeadas desde a “era dos Fernandos” (Color, 1990-1992 e Cardoso, 1995-2002), o Brasil sofreu inegável inflexão no desempenho do seu sistema produtivo frente à inédita trajetória da precoce desindustrialização asfixiada crescentemente pela dominância financeira. Diante da mais recente divulgação das contas regionais relativas ao ano de 2017 pelo IBGE, torna-se possível apresentar breve balanço a respeito da economia nacional no acumulado dos últimos quinze anos.

Entre 2002 e 2017, por exemplo, as atividades financeiras tiveram o melhor desempenho, cujo crescimento médio anual foi de 4,1%, enquanto a indústria de transformação acusou o pior resultado, com variação média de apenas 0,7% ao ano. Com isso, as atividades financeiras cresceram 1,7 pontos percentuais (pp) a cada variação positiva de 1 ponto pp do Produto Interno Bruto nacional, ao passo que a indústria de transformação somente aumentou 0,3 pp.

Ademais da incrível perda do vigor industrial, verdadeira coluna vertebral do desenvolvimento em qualquer país, assistiu-se também o protagonismo do reprimarismo na produção nacional. Em quinze anos, o extrativismo e a agropecuária cresceram 3,5% ao ano, em média, o que representou elevação de 1,5 pp a cada crescimento de 1 pp da economia nacional.

O desempenho setorial nacional extremamente diferenciado terminou por impactar, em consequência, também distintamente em cada localidade do país. Das 27 unidades federativas, por exemplo, oito enunciaram comportamento anual abaixo da média nacional (2,4%), como no caso do Paraná (2,3%), Sergipe (2,3%), Bahia (2,2%), São Paulo (2,2%), Minas Gerais (2,1%), Rio Grande do Norte (2,0%), Rio Grande do Sul (1,8%) e Rio de Janeiro (1,4%) entre os anos de 2002 e 2017.

Os estados até então mais industrializados foram os mais penalizados pela conversão da economia brasileira de industrializada para primário-exportadora sob a dominância financeira. Enquanto Mato Grosso e Tocantins, mais associados às atividades econômicas do setor primário, crescem 2,1 pp para cada 1 pp de variação positiva do PIB nacional, o estado de São Paulo expandiu apenas 0,9 pp e o Rio de Janeiro menos ainda (0,6 pp de crescimento).

Neste contexto regressivo da estrutura produtiva nacional, o balanço regional em sua participação relativa no PIB brasileiro sofreu alteração significativa durante os 15 anos considerados. Seis unidades federativas das 27, por exemplo, perderam representação relativa no PIB nacional, sendo a principal, o estado do Rio de Janeiro, com decréscimo de 17,7%, seguido de Sergipe (-14,3%), São Paulo (-7,7%), Amazonas (-6,7%), Espírito Santo (-5,6%) e Rio Grande do Sul (-3,0%).

Por consequência, a composição regional da produção nacional sofreu mudanças não desprezíveis no período de 2002 a 2017. Das cinco regiões grandes regiões geográficas brasileiras, somente o Sudeste teve queda de 7,8% em sua participação na produção nacional, enquanto as demais conseguiram crescer relativamente, sendo a região Norte a que mais se destacou, com aumento de 16,3%, acompanhada do Centro Oeste (16,3%), Nordeste (10,7%) e Sul (4,9%).

O retrato que emerge da economia nacional submetida à dominância financeira, cuja dinâmica assenta-se cada vez mais no reprimarismo de sua estrutura produtiva nacional, é o da decadência a atingir a consideravelmente a região Sudeste, o principal centro de produção da nação. Outrora conhecido por sua inigualável pujança nacional, o Sudeste foi a única grande região geográfica do país a registrar simultaneamente o esvaziamento relativo da sua população (-1,6%) e produção (-7,8%) no país durante os anos de 2002 a 2017.

Para além da região Sudeste, destaca-se o estado de São Paulo que tem abandonado a sua histórica condição de locomotiva da nação, conforme identificado pelo protagonismo impulsionado inicialmente no ciclo cafeeiro até 1930 e, posteriormente, na industrialização nacional entre as décadas de 1930 e 1980. Nos últimos 15 anos, contudo, o estado paulista, a unidade federativa mais rica do país, perdeu conjuntamente participação relativa nacional tanto na população (-0,9%) como na produção (-7,7%).

Por Marcio Pochmann.

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