Com sorte, renda per capita brasileira de 2013 só será resgatada em 2030

Embora aparentemente vigoroso, o crescimento econômico de 7,7% no terceiro trimestre decepcionou os observadores e não foi suficiente para repor as perdas registradas durante o primeiro semestre. O PIB deve terminar o ano com um declínio superior a 4% e com a taxa de desemprego aberto próxima de 17%, a julgar pela previsão dos economistas.

A recessão de 2020 deve reduzir o PIB per capita brasileiro de tal forma que o retorno ao nível de 2019 deve ocorrer apenas em 2023, segundo estimativas de estudo realizado pelo Ibre/FGV. Os estragos acumulados nos últimos anos são ainda maiores. A renda per capita alcançada em 2013 só deve ser atingida daqui a 10 anos. Isto se tudo caminhar bem e o país não for sacudido por novas recessões.

A conclusão que se impõe é que a economia brasileira retrocedeu décadas após o golpe de Estado de 2016, que levou o emedebista Michel Temer à Presidência. A restauração neoliberal imposta pelo governo golpista, que o governo Bolsonaro procura aprofundar, é a causa mais relevante da tragédia nacional.

As reformas neoliberais, impostas sob a falsa promessa de que conduziriam ao crescimento da economia e criação de pelo menos 6 milhões de novos postos de trabalho, na verdade agravaram a crise e constituem o mais sério obstáculo à retomada da produção.

A reforma trabalhista enfraqueceu os sindicatos e, junto com a terceirização irrestrita, resultou em maior precarização dos contratos, informalização e arrocho dos salários, contribuindo para enfraquecer o mercado interno.

A Emenda Constitucional 95, que congelou as despesas públicas por 20 anos, provocou a redução da taxa de investimentos, a degradação dos serviços públicos e perpetuou a estagnação da economia. É uma armadilha que aprisionou as possibilidades de desenvolvimento e terá de ser desarmada para que o país saia do pântano.

O empobrecimento do país acirra os conflitos sociais que definem a distribuição do produto que é hoje menor para a divisão entre os habitantes do país. Nesta briga, por enquanto, quem se dá bem é o grande capitalista, especialmente do sistema financeiro.

O que avança efetivamente é a escandalosa concentração da renda, alimentando a urgência da taxação das grandes fortunas, a exemplo do que foi feito recentemente pelos nossos vizinhos chilenos e argentinos. Mas é preciso acrescentar que uma solução do tipo requer grandes mobilizações sociais.

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