América Latina terá mais uma década perdida?

Por Marcos Aurélio Ruy

O “Balanço Preliminar das Economias da América Latina e do Caribe 2019”, divulgado nesta quarta-feira (18), pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), apresenta o pior cenário na economia da região dos últimos 40 anos de 2014 a 2020. Já são seis anos, entrando para o sétimo, de baixo crescimento econômico e as previsões para 2020 não são otimistas.

O levantamento da Cepal mostra que a região crescerá 0,1% neste ano e tem projeção de 1,3% para 2020. Lembrando que projetava-se 0,5% de crescimento em 2019. “O cenário precisa mudar para que os países latino-americanos voltem a crescer com políticas de combate às desigualdades, que crescem assustadoramente com o neoliberalismo imperando em vários países”, afirma Ivânia Pereira, primeira vice-presidenta da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

“O problema”, diz Divanilton Pereira, segundo vice-presidente da CTB, é que “o império norte-americano atua para recuperar terreno na América Latina e por isso intensifica uma política agressiva e intervencionista para recuperar a sua influência política na região”.

De acordo com ele, “as defasagens estruturais e as economias dependentes, onde predomina a exportação de bens primários, criam uma dependência muito grande dos fluxos da situação do mercado internacional”, que no momento não é das melhores.

É “essa limitação econômica que continua criando condições para que ocorram desestabilizações políticas”, sendo o “grande gargalo estrutural que a economia latino-americana ainda não superou”, acentua.

Saiba mais pelo link https://www.cepal.org/es/publicaciones/45000-balance-preliminar-economias-america-latina-caribe-2019

Por isso, mesmo depois de vários países latino-americanos viverem experiências democráticas e progressistas com política econômica voltada para os interesses nacionais com combate às desigualdades, o ressentimento da classe média e os interesses mesquinhos da elite econômica proporcionam o campo para a ação de poderosos conglomerados econômicos contra os estados nacionais e contra a classe trabalhadora”, realça Ivânia, poderosos conglomerados econômicos internacionais para pôr fim aos governos livres da tutela do imperialismo.

A Cepal mostra também que a dívida pública saltou de 36,1% em 2014 para 43,2% em 2019. Pondo fim ao discurso de austeridade fiscal para solucionar a crise. Aliás, o neoliberalismo aprofunda as desigualdades e provoca aumento do índice de desemprego que para 2019 deve ficar em 8,2% na América Latina e 8,4% em 2020.

Mesmo países com economias mais desenvolvidas como Brasil, Argentina e México, apesar de “não sofrerem abalos fortíssimos”, diz Divanilton, como países mais dependentes, a renda per capita “cai de uma forma muito acentuada”. Entre 2015 e 2016, “a queda foi de 8% no Brasil e 6% na Argentina nos últimos três anos e queda de 60% na Venezuela”.

Em relação às dívidas públicas, o Brasil (224%) e o Chile (200%) têm os maiores níveis de dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Contando somente a dívida pública, a Argentina lidera com 80,7% do PIB e o Brasil vem em segundo lugar com 78,7%. “Resultado do golpe de 2016 e da falta de projeto de desenvolvimento do atual presidente”, revela Ivânia.

Estima-se ainda que a região terá 191 milhões de pobres no final deste ano. Eram 185 milhões em 2018. Pior ainda é que deveremos ter 72 milhões de latino-americanos na situação de extrema pobreza ainda em 2019. Índices puxados pelo crescimento da pobreza no Brasil, que elegeu um presidente de extrema-direita e atua para destruir o país com políticas antinacionais e antipovo e a Venezuela que enfrente um embargo econômico promovido pelos Estados Unidos.

Os golpes proliferam na região. O mais recente aconteceu na Bolívia que culminou com o exílio do ex-presidente Evo Morales. No Brasil, o golpe ocorreu em 2016 e aprofundou a crise que vinha desde 2015. Jair Bolsonaro trata de afundar o país de vez.

Para a CTB os “países dependentes com limitações estruturais e que têm a economia voltada para a exportação de bens primários precisam da presença do Estado, de empresas fortes, articuladas entre o capital privado e público”. E assim gerarem “demandas próprias e a partir delas ofertas necessárias para que o emprego e as condições sociais dos povos da região possam ser melhoradas”, reforça Divanilton.

“Para não termos mais uma década perdida, precisamos reagir com unidade. O povo está nas ruas no Chile, na Argentina o neoliberalismo foi derrotado nas urnas, a resistência ao golpe de Estado na Bolívia se mantém de pé e o Brasil tem a sua chance de virar a página se dermos uma resposta contundente votando em prefeitos e vereadores de oposição a Bolsonaro”, conclui Ivânia.

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