Tom Jobim é o eterno maestro soberano da MPB

 

Completa 20 anos nesta segunda-feira (8) que o eterno “maestro soberano” da música popular brasileira nos deixou órfãos de suas melodias, arranjos e acordes que ainda hoje embalam sonhos de milhões de brasileiros e brasileiras de todas as idades. Tom Jobim morria, aos 67 anos, nesse dia de parada cardíaca, durante o tratamento de um câncer, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. “O maior expoente da MPB de todos os tempos”, segundo a revista Rolling Stone, deixava órfã uma legião de admiradores e seguidores em todo o mundo. Já para o professor e blogueiro Fernando da Mota Lima, Jobim foi o “maior compositor popular do século 20”.

Um parênteses. Nesse mesmo dia em 1980, outro grande nome da cultura popular do século 20, o inglês John Lennon, um dos líderes da maior banda de rock de todos os tempos, os Beatles, era assassinado em frente à sua residência também em Nova Iorque, por um suposto fã.  

 Entrevista de Tom Jobim ao Roda Viva (TV Cultura) em 1993

Voltando ao tom. Certa vez ao ser inquirido por um repórter, Tom Jobim respondeu que para ele havia a música popular norte-americana, a cubana e a brasileira, o “resto é valsa”. Justamente porque os três países têm matrizes africanas nas principais expressões de seus cancioneiros populares. Aliás, Tom é autor, em parceria com o poetinha Vinicius de Moraes, de Garota de Ipanema (1962), a música brasileira com maior número de gravações e execuções no mundo.

Tudo começou no início dos anos 1950 quando, a sua primeira canção, Incerteza, em parceria com Newton Mendonça, gravada por Mauricy Moura, já mostrava o promissor talento. Já em 1958 (mesmo ano considerado o nascimento do rock, nos Estados Unidos), era lançado no Brasil o LP (Long Play) Canção do Amor de Mais, de Tom e Vinicius, interpretação da “Divina” Elizeth Cardoso e com a participação do violão intrépido e inovador de João Gilberto. A orquestração desse disco, ao cargo de Jobim, é considerada o marco inicial da bossa nova, movimento que possibilitou à MPB acordes jamais imaginados anteriormente. Possibilitou também que as gerações futuras pudessem ir mais longe, com experiências das mais diversas e elevar cada vez mais o patamar das diversificadas composições nacionais.

A bossa nova nasceu sob a influência pelo jazz, do samba, da música clássica, do chorinho, entre alguns outros ritmos populares. Constituiu-se em um gênero musical que passou a influenciar o jazz nos Estados Unidos. Tom Jobim se destacou no Festival de Bossa Nova no Carnegie Hall, em 1962, em Nova Iorque. Esse evento abriu as portas do mundo para o novo ritmo brasileiro e projetou o músico brasileiro, abrindo as portas do mundo para suas apresentações e para gravações de suas composições. Tom Jobim que recebeu convite de Frank Sinatra para gravar um disco com ele. O cantor norte-americano tornou-se fã de Jobim e gravou músicas do maestro. Uma das primeiras foi uma versão em inglês de Garota de Ipanema, a canção que, inclusive, projetou Helô Pinheiro, a tal garota inspiradora de Tom e Vinicius que a viam desfilar pela praia.

Trailer do documentário A Luz do Tom, de Nelson Pereira dos Santos 

Muitas canções do grande músico estão eternizadas no imaginário popular, mesmo que muitos desconheçam a autoria delas. Além de Garota de Ipanema, Chega de Saudade, dele com Vinicius, é marcante, onde a letra garante que “a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia”. Nesses tempos de violência essa canção soa como um hino à candura. Chega de Saudade foi gravada em 1959 por João Gilberto (outro papa da bossa nova), com direção musical e arranjo de Tom Jobim. Com Dindi, parceria com Aloysio de Oliveira, ele diz que “o vento que toca nas folhas, contando as histórias que são de ninguém, mas que são minhas e de você também”. Pura magia de um tempo em que a vida continha romantismo.

Mas o primeiro grande sucesso do compositor foi Tereza da Praia (1954), em parceira com Billy Blanco, seguida por Se é por Falta de Adeus (1955), com Dolores Duran. Inesquecível a canção que ainda hoje embala juras de amor de casais enamorados, Se Todos Fossem Iguais a Você (1956), novamente com o poetinha. Além de embalar namorados, a canção tornou-se uma importante referência para a defesa do amor com respeito e dignidade e contra a violência, em um trecho diz que “Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver, uma canção pelo ar, uma mulher a cantar, uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar como o sol, como a flor, como a luz, amar sem mentir, nem sofrer”. Que maravilha viver assim.

 Vídeo de Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

O legado de Tom Jobim pode ser apreciado em seus seguidores de diferentes matizes. O maestro influenciou grandes compositores que formaram as gerações posteriores. Regem-se pela sua batuta autores como Caetano Velos e Gilberto Gil, líderes do tropicalismo, Milton Nascimento com seu canto iconoclasta, Chico Buarque e Edu Lobo, entre tantos outros. Esses compositores dão a exata dimensão da magnitude de Tom para a MPB.

E a devoção popular ao músico é tanta que no Rio de Janeiro há um aeroporto com seu nome. Tom Jobim só conheceu a vaia do público no 3º Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, em 1968, com a linda Sabiá, em parceria com Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. As vaias ocorreram porque a torcida do público era para o hino das esquerdas de então Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, que ficou em segundo lugar.

Em 1992, Tom Jobim foi o enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Dessa vez o maestro foi regido pela emoção popular. Sentiu-se emocionado pela homenagem da gente do morro, de onde ele bebeu tanta cultura e devolveu em forma de melodias que enternecem os corações de todos e nos levam a amar mais profundamente a nação brasileira.

O músico foi emplacando sucesso em cima de sucesso. Águas de Março (1972), gravada em duo com Elis Regina cutuca a fase mais dura da ditadura, sob o terror do general Médici. É pau, é pedra, é o fim do caminho. É um resto de toco, é um pouco sozinho. É um caco de vidro, é a vida, é o sol. É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol”, diz parte da canção.

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim teve inúmeros parceiros no Brasil e no exterior, com os quais produziu pérolas da MPB. O Morro Não Tem Vez (1962), com Aloysio de Oliveira narra a sua verve em misturar o clássico com o popular e falar sem intermediários com o povo mais humilde. “O morro não tem vez e o que ele fez já foi demais, mas olhem bem vocês quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar”, dizem alguns versos desse clássico da música popular do país.

Passarim (1987) em parceria com o filho Paulo Jobim, onde questiona e reflete sobre os caminhos e descaminhos da vida. “Passarim quis pousar, não deu, voou. Porque o tiro feriu mas não matou. Passarinho, me conta então, me diz: Por que eu também não fui feliz? Cadê meu amor, minha canção? Que me alegrava o coração”, prenunciava as dificuldades pelo que o país passaria antes mesmo de Fernando Collor ser eleito presidente da República.

 Wave (Tom Jobim)

 

Outra canção marcante Eu Te Amo (1980), em parceria com Chico Buarque, entoaria o amor de muitos casais: “Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios. Rompi com o mundo, queimei meus navios. Me diz pra onde é que inda posso ir”, questionam os artistas.

Tom Jobim não só sistematizou a bossa nova e lhe deus novos contornos como levou a MPB para o mundo, mostrando um pouco da cultura do Brasil, impondo respeito e ganhando admiradores em todo o planeta. Como diz a bela Wave (1967) “vou te contar os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho”. Alguém se julga capaz de ser feliz sozinho? Por essas e por outras que as pérolas deixadas por Tom Jobim enternecem a alma de quem sonha com o mundo novo.

Por Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB 

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