Salve os teatros: o patrimônio cultural da sociedade

A plateia tem quase quarenta pessoas apertadas, praticamente sem separação com o palco. A luz branca e forte inunda a sala de espetáculo, o que impede de se ver o rosto de qualquer um, só é possível ver sombras e rostos. Os atores entram quase despercebidamente, e o enredo se desenrola; alguém invadiu a casa da família e está escondido. A ameaça revela desesperos,

Angústias e pré-conceitos dos seres comuns representados. Esse é um resumo de uma noite no Club Noir, teatro alternativo e experimental, que faz uma arte crítica e engajada. Quem se sente representado refletirá as próprias crenças e atitudes, um dos objetivos universais do teatro, além de se divertir. 

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O teatro e a cidade sempre foram ligados, uma relação amigável ou conflituosa; pensar os espaços da cidade, como espaços públicos de reflexão e entretenimento. No Brasil, o teatro de rua, surgiu primeiramente como uma forma de voz contra a ditadura nos anos 80 logo após o regime militar, era voltado para movimentos políticos. Nos dias atuais ele possui uma postura mais estética e de movimentos sociais e coletivos.

Muitos grupos, ajudam a comunidade e adotam os locais em que normalmente se apresentam, reformando e cuidando de locais antes abandonados. Um exemplo é o grupo Satyros que se instalou na Praça Roosevelt em São Paulo levando segurança, melhoria e arte para a praça e seus moradores. Estão surgindo vários festivais de teatro de rua, assim como mostras e discussões sobre os trabalhos em todo o território nacional e internacional, e através deles estão sendo discutidas e criadas cada vez mais bibliografias e debates sobre processos criativos de teatro de rua, o que é muito importante para torná-lo uma arte menos discriminada e mais acessível.

Pensar os espaços coletivos é uma das funções do teatro. Sobre o espaço da cidade, o “Entrelinhas e Concreto”, por exemplo, o próprio tema do espetáculo: é a rua. Tendo então a cidade, o espaço urbano, inserido no processo cênico, tornando-se o espaço cênico; o elemento a ser investigado é a vida dos moradores de rua. A cidade está presente também no resultado deste processo, pois em cena há a fiscalização dos becos e ruas em que vivem os miseráveis. É mostrada a situação desumana de sobrevivência que é apresentada pela disputa de domínio de espaço e pela utilização de objetos e restos de comida pelos lixos urbanos. Já em “Páginas Amarelas” e “Diário do Maldito” o espaço urbano é apenas retratado, e não atuante da transmissão de mensagem, no primeiro espetáculo como opressivo e no segundo com a função de mostrar a dupla face da cidade, tanto o que ela não absorve quanto o que ela corrompe.

O teatro de rua, ou alternativo, é uma forma extremamente expressiva e pouco valorizada capaz de levar cultura a pessoas que nem sempre tem acesso à ela, e de expor opiniões e refleti-las com o público e com a sociedade.

 A especulação imobiliária versus o património cultural

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O cenário de teatro independente cresceu nos últimos anos em São Paulo, mas não acompanhou a especulação imobiliária. A Lei de Fomento ao Teatro, em vigor desde 2002, já tentou corrigir esse problema, com verbas de editais que chegavam a R$ 700 mil da Prefeitura de São Paulo. Mas as companhias que conseguiram levar adiante o projeto de abrir suas próprias sedes hoje passam dificuldades para pagar o aluguel.

Os Satyros, Club Noir, Cia. Livre, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Commune e Os Fofos, companhias veteranas do teatro independente de São Paulo, são alguns grupos que usaram parte de verbas repassadas pela Secretaria Municipal de Cultura para investir em infraestrutura. A situação piora porque as verbas dos editais duram dois anos, e os recursos (bilheterias, patrocínios) não são suficientes para bancar os espaços.

“O teatro não consolidou um público amplo. Não criou uma tradição que tenta se firmar agora. O público acha caro pagar 30, 40 reais numa peça, quando tem a TV e outros entretenimentos”, afirma Welington de Andrade, crítico de teatro.

A ausência de políticas públicas efetivas direcionadas aos pequenos e médios grupos de teatro levou à criação do Movimento dos Teatros Independentes (MoTIn). O grupo já se reuniu com o secretário de Cultura da cidade de São Paulo, Juca Ferreira, e com a ministra da Cultura, Marta Suplicy. Duas ações foram definidas: um mapeamento cultural dos teatros da cidade e um seminário internacional para discutir políticas públicas e estratégias de gestão para a área. Ainda sem números oficiais, o grupo estima que São Paulo tenha atualmente entre 150 e 160 espaços, que variam de 20 a 400 lugares.

“A cultura e o lazer estão perdendo a batalha contra a especulação imobiliária em São Paulo”, disse Rudifran Pompeu, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro. “O despejo recente do teatro CIT-Ecum na Consolação e o provável fechamento do Brincante, na Vila Madalena, não são novidades: já aconteceu com o Cine Belas Artes, que só foi reaberto depois de muita pressão social”.

A Secretaria Municipal de Cultura fez um pedido de estudo de vinte e dois teatros independentes para registro como patrimônio cultural ou tombamento, entre eles: Teatro Heleny Guariba, Cia da Revista, Teatro Commune, Club Noir, Teatro do Incêndio. A campanha #TeatroNãoSeAbandona conseguiu mobilização na internet e o Conpresp – Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental – aprovou o registro como bem cultural imaterial dos 22 grupos teatrais. É a primeira declaração do poder público de que essas companhias são parte do patrimônio cultural da cidade e devem ser preservadas.

Veja alguns dos teatros que participam do projeto:

Instituto Brincante

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Brincante é o modo como os artistas populares se autodenominam. Ao realizar um espetáculo, eles dizem que vão “brincar”.
No Instituto Brincante, essa visão lúdica do fazer artístico encontra espaço para ser vivenciada e compreendida em sua profundidade.

Ingresso: variam R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (para alunos do Brincante)

Endereço: Rua Purpurina, 428 – Sumarezinho – São Paulo
Telefone: (11) 3816-0575

Centro Internacional de Teatro Ecum (Cit Ecum)

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O Centro Internacional de Teatro Ecum (CIT-Ecum) é uma nova instituição artístico-pedagógica, resultado da ampliação do projeto Ecum – Encontro Mundial das Artes Cênicas, fundado e realizado em Belo Horizonte. O Centro Internacional de Teatro Ecum é um espaço de estudos avançados que pretende realizar ações artísticas e pedagógicas transculturais, transversais e relacionais, que gerem continuamente uma cultura ativa. Com âmbito de atuação internacional, o projeto se pauta pelos seguintes princípios norteadores:

Cultura ativa. O CIT-Ecum pretende, por meio de suas ações, produzir uma cultura participativa e ligada à efervescência da vida. Uma cultura construída continuamente em ação, que se faz e se refaz em um permanente vir-a-ser.

Ingressos: entre R$ 20 e R$ 30.

Endereço: Praça Dom José Gaspar, 30 – República – São Paulo

Teatro Oficina Uzina Uzona

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O Teatro Oficina reuniu grandes artistas que passaram em seus palcos ao longo de suas décadas de existência, como Etty Fraser, Maria Alice Vergueiro (Tapa na pantera), Leona Cavalli.

O Teatro Oficina foi local de grande parte da experiência cênica internacional, que reuniu de Brecht, Sartre ao Living Theatre. Foi neste lugar que foi lançado um importante manifesto da cultura brasileira, o Tropicalismo, versão na década de sessenta do movimento antropofágico de Oswald de Andrade. Este influenciou músicos, poetas e outros artistas.

Em 1967, o oficina monta “O Rei da Vela”, atuada por outro importante elemento desta companhia, Renato Borghi, junto com Itala Nandi e Fernando Peixoto. Segundo Renato Borghi “A dramaturgia bombástica me fazia sentir atuando dentro da raiz e da alma brasileira; nesta peça, o Oswald de Andrade falava do Brasil de uma forma Movimento Antropofágico, devorando o que gente tinha de bom e de péssimo. O Oswald pegou o Brasil por todos os lados, devorou-o e depois o cuspiu no palco. E eu assinei em baixo, com sangue, suor e lágrimas…”. Atualmente a companhia é dirigido por José Celso Martinez Corrêa.

Ingressos: R$ 30 (inteira).

Rua Jaceguai, 520 – Bexiga – São Paulo

Teatro da Vertigem

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É uma companhia teatral brasileira surgida em 1991 como um projeto experimental de pesquisa de linguagem da expressão representativa.

Concretizou suas pesquisas na criação da peça “O Paraíso Perdido”, em 1992. Consolidou-se, sendo amplamente premiada, como uma companhia inovadora em termos de linguagem e, sobretudo, pelas locações de exibição de seus espetáculos. Sua temática fundamental encontra-se no embate do homem moderno e do homem religioso, e nas consequências morais, éticas e psicológicas deste embate

http://www.teatrodavertigem.com.br/site/index.php

Ingressos: Entre R$ 20 e R$ 10.

Rua Treze de Maio, 240 – 1° andar – Bela Vista – São Paulo

Espaço Satyros

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Companhia de Teatro Os Satyros foi fundada em São Paulo, em 1989, por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. Já com o primeiro trabalho, “Aventuras de Arlequim”, receberam o Troféu APCA de melhor ator (Ivam Cabral) e atriz coadjuvante (Rosemeri Ciupak), além da indicação ao Prêmio Mambembe de melhor texto (Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez).

Desde a sua chegada à Praça Roosevelt, o grupo realiza, no início da primavera, a maratona cultural Satyrianas. O evento que, durante 78 horas ininterruptas, oferece inúmeras atividades teatrais de acesso livre aos moradores da cidade, passou, a partir de 2009, a integrar o calendário oficial do estado de São Paulo.

Praça Franklin Roosevelt, 222 – Consolação – São Paulo

Espaço Os Fofos Encenam

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Os Fofos Encenam têm sua trajetória iniciada em São Paulo no ano de 2001 com o espetáculo “Deus Sabia de Tudo…”, escrito e dirigido por Newton Moreno.

Com recursos da Lei de Fomento de São Paulo, apresentaram o projeto Baú da Arethuzza. Com coordenação e direção de Fernando Neves, o projeto levou à cena 5 espetáculos diversos de Circo-Teatro. O projeto foi vencedor do Prêmio APCA 2014 (categoria especial) além de ser indicado ao prêmio Shell na categoria inovação.

http://www.osfofosencenam.com.br/site/

Ingressos: Entre R$ 20 e R$ 30.
Rua Adoniran Barbosa, 151 – Bela Vista – São Paulo 

Casa Livre (Cia Livre)

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 A Cia. Livre levou aos palcos seu primeiro espetáculo em 2000, com “Toda Nudez Será Castigada”. Em 2004, a Cia. Livre ocupou o Teatro de Arena com dois projetos que ligavam a história ao teatro: O projeto “Arena Conta Arena 50 Anos”, sob direção geral de Isabel Teixeira, e a montagem de “Arena Conta Danton”, livre recriação de A Morte de Danton, de Georg Büchner, com dramaturgia de Fernando Bonassi, em processo colaborativo com a Cia. Livre. Em 2006 a Cia. mergulhou no universo ameríndio e encenou “Vem Vai – O Caminho dos Mortos” (2007/ 2009), recebendo o Prêmio Shell de direção (Cibele Forjaz) e atriz (Lúcia Romano). Já em 2009, a Cia. inaugura a Casa Livre, sede do grupo localizada no bairro da Barra Funda, em São Paulo e estreou o espetáculo “Raptada pelo Raio”.

Ingresso: R$ 20

R. Pirineus, 107 – Campos Elíseos – Centro – São Paulo. Telefone: 3257-6652.

Club Noir

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Club Noir é referência nos palcos trabalhos voltados para o questionamento do mundo, e claro, do próprio teatro. Concentra em um único espaço teatro e casa de cultura, além de ter sido construído com os recursos do Programa de Fomento do Teatro. O local apresenta peças teatrais e se dedica à dramaturgia contemporânea.

A casa possui biblioteca que fica aberta diariamente ao público, com acervo focado em artes, como livros sobre teatro, artes plásticas, cinema e textos de dramaturgia. O espaço ainda promove oficinas de interpretação coordenadas pela atriz Juliana Galdino e integrantes da Cia. além de contar com um Estúdio de Criação Dramatúrgica sob direção de Roberto Alvim, dramaturgo e diretor da Cia.

Ingressos: Até R$ 30

Endereço: Rua Augusta, 331 – Consolação – São Paulo

http://www.ciaclubnoir.com.br/;

Teatro do Incêndio

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A Companhia foi criada pelo ator e diretor Marcelo Marcus Fonseca ao lado de Wanderley Martins e Caiti Hauck para a montagem de “Baal- O Mito da Carne”de Bertolt Brecht, em 1996. O espetáculo permaneceu 2 anos em cartaz com temporadas no Projeto Equilíbrio, Teatro Oficina e 11 unidades do Sesc. Até 1999, foi chamada de Teatro AosTragos (alusão ao “canto do bode”) e, em 2000, para a montagem de “Beatriz Cenci”, de Antonin Artaud, passou a se chamar Teatro do Incêndio em referência a trilogia homônima de Roger Vitrac. Em sua primeira fase, trouxe para os palcos encenações de “O Balcão” de Jean Genet, “A Filosofia na Alcova” de Sade, além da primeira montagem do texto de Artaud que definiu seu nome e parâmetros atuais de pesquisa.

Seus espetáculos são construídos por meio de pesquisas baseadas na experimentação, incluindo todas as áreas da criação teatral: interpretação, cenografia, iluminação, adaptação a espaços alternativos, linguagem musical, figurinos e adereços, procurando renovação constante de conceitos. A liberdade estética, característica do grupo, permite a união ou o tráfego por linguagens como Realismo, Romantismo, Expressionismo e Surrealismo, sendo responsável por montagens como “Anjos de Guarda”, de Zeno Wilde, “Joana d’Arc – A Virgem de Orleans”, de Friedrich Shiller, “Na Selva das Cidades”, de Brecht e “La Ronde”, de Arthur Schnitzler.

Ingressos: Entre R$ 20 e R$ 30.

Endereço: Rua da Consolação, 1219 • Consolação – São Paulo.

Por Raul Duarte – Portal CTB

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