Quem tem medo do beijo gay?

 

O beijo entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na estreia da novela Babilônia, na segunda-feira (16), na Rede GloboNuma época onde o preconceito ganha amplo destaque nas redes sociais e na mídia burguesa, a famigerada Globo causa polêmica ao mostrar o beijo homoafetivo entre duas atrizes octogenárias. Provavelmente com mera estratégia de marketing, a emissora da família Marinho mexe com corações e mentes contra e a favor de se mostrar em público a troca de afeto e carinho entre casais homoafetivos. Logo no primeiro capítulo da novela “Babilônia”, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, que interpretam um casal na trama, realizaram a proeza de mais um chamado beijo gay na teledramaturgia brasileira. Não demorou muito e parte da bancada evangélica do Congresso Nacional divulgou nota de repúdio. Mas por que a troca de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo assusta tanto? O pesquisador francês Daniel Borrillo diz em seu livro “Homofobia: História e Crítica de um Preconceito” que “à semelhança do racismo ou da misoginia, a hostilidade contra os gays e as lésbicas é, antes de qualquer coisa, o resultado da impossibilidade vivenciada por alguém para se representar a diferença, sobretudo, quando esta é percebida como ameaçadora ou, simplesmente incômoda”.

natalia fernanda montenegroNathalia e Fernanda formam casal homoafetivo em Babilônia

O senador Magno Malta (PR-ES), líder da Frente Parlamentar Mista Permanente em Defesa da Família Brasileira, entrou em pânico e referiu-se ao beijo das atrizes como “apologia ao mal. Produzida para destruir famílias”. Em resposta aos ataques à cena, Fernanda Montenegro disse que “todos temos o direito de se posicionar. O problema é a radicalização desse pensar e no que ele pode se transformar. Não pertenço aos exércitos que estão se formando por aí. Não precisamos desses exércitos. É uma caça às bruxas o que estão propondo”. Já a professora Sandra Marques indigna-se e diz achar “impressionante que as pessoas se sintam mais agredidas com beijo gay do que com homem casado que engravida outra, uso de sexo para manipular e mãe que faz a filha virar prostituta. É uma inversão de valores”.

Primeiro beijo entre homens em uma novela: Amor à Vida (2014)

 

Apesar de tanta celeuma, esse não foi o primeiro beijo gay da TV brasileira e nem deve ser o último, a par de posicionamentos exacerbados de setores autoritários da sociedade. Segundo historiadores a primeira vez que duas pessoas do mesmo sexo se beijaram em frente às câmaras da telinha foi em 1964 no teleteatro “A Calúnia”, da extinta TV Tupi, entre as atrizes Vida Alves e Geórgia Gomide. Aliás, Vida Alves também foi a primeira mulher a encenar um beijo numa novela em 1961, também na Tupi. O paradoxo disso tudo é que há 51 anos, o beijo entre as atrizes não causou tanto alvoroço. Sinais dos tempos.

Em 1990, na minissérie “Mãe de Santo”, da também extinta TV Manchete, ocorre o primeiro beijo gay masculino da teledramaturgia nacional e ainda inter-racial, protagonizado pelos atores Daniel Barcellos e Raí Alves. Ainda em 2003, Alinne Moraes e Paula Picarelli trocaram um selinho numa encenação teatral da novela “Mulheres Apaixonadas”, da Globo. Cinco anos depois na minissérie “Queridos Amigos”, Bruno Garcia e Guilherme Weber dão um “beijo roubado”. Em 2005, a vênus platinada perdeu a chance de transmitir o primeiro beijo entre dois homens ao cortar a cena do capítulo da novela “América”.

O SBT não perdeu tempo. Em 2011, na trama “Amor e Revolução”, as atrizes Giselle Tigre e Luciana Vendramini entraram para a história por terem exibido o primeiro beijo homoafetivo em uma novela brasileira. No ano passado, porém, a emissora da família Marinho cedeu e Mateus Solano e Thiago Fragoso, em “Amor à Vida” protagonizaram o primeiro beijo gay entre homens em uma novela. Tanta celeuma por um simples beijinho em telenovela, em pleno século 21 mostra o atraso de amplos setores da sociedade brasileira, principalmente porque o primeiro beijo gay no cinema ocorreu no filme norte-americano “Asas”, pasmem de 1927, protagonizado pelos atores Buddy Rogers e Richard Arlen.

Acompanhe 15 biejos gay na TV pelo link http://sapatomica.com/blog/2012/09/09/15-beijos-gays-na-tv-brasileira-em-horario-nobre/

A novela global começou atraindo os holofotes basta saber se vai ceder aos apelos do conservadorismo, como é de costume da emissora carioca. “Para nós LGBT que sofremos todo tipo de discriminação é muito importante que tenhamos referências positivas de gays, lésbicas e pessoas trans nos meios de comunicação, e não apenas caricatas estereotipadas, ou ausência de referências. Isto vale tanto para diminuir o preconceito presente na sociedade de modo geral, como também ajuda os jovens que estão se descobrindo LGBT a terem menos dificuldade em se assumir e a não se sentirem inferiores por causa de sua sexualidade diferente da convencionalmente aceita”, diz Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

 Cena do primeiro beijo gay de uma novela brasileira: Amor e Revolução (2011):

As propostas de censura e boicote à Globo somente pela exibição de um beijo entre atrizes trazem à memória o excelente filme “Cinema Paradiso” (1988), de Giuseppe Tornatore, onde o padre de uma cidadezinha do interior da Itália forçava o projetista a cortar as cenas de beijos das obras apresentadas no único cinema da cidade o Paradiso. O protagonista da película Toto, ainda garoto, aprende a projetar com Alfredo e se apaixona pela sétima arte, tornando-se cineasta. Anos depois, Toto volta à cidade para o funeral de Alfredo e leva para casa um presente deixado por ele. Surpreende-se ao projetar para si todos os beijos censurados colados num único rolo de filme. Será que daqui alguns anos veremos colados dezenas de beijos gay que transtornam tantas mentes conservadoras?

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

Como extra o filme Cinema Paradiso (1988) completo:

 

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