Quem é essa gente na obra de Chico Buarque?

Por Marcos Aurélio Ruy

No final do ano passado, Chico Buarque lançou o seu sexto romance, “Essa Gente”, desde quando passou a se dedicar à literatura com o romance de estreia “Estorvo”, em 1991, sempre pela Companhia das Letras. A partir desse período ele vem intercalando a publicação de um livro e a gravação de um disco.

Como um grande contador de histórias, Chico cria personagens marcados para permanecer no imaginário popular por significarem a própria sociedade de um país que busca encontrar-se consigo mesmo com todas as dificuldades colocadas para essa gente preta, pobre e favelada.

São porteiros e faxineiras invisíveis em seus condomínios, trabalhadoras domésticas que não têm onde deixar seus filhos para ir cuidar dos filhos de outras mães, motoristas, entregadores de aplicativos, gente que não é vista como gente por gente que se crê elite e com medo dessa gente se refugia na fúria do medo e no ódio ao diferente, sempre atrás de grades e blindagem de carros caríssimos ou de seguranças policiais ou não.

Com fina ironia, quase sarcasmo, o protagonista narrador, José Duarte, um escritor decadente, vê a vida se esvair letra a letra através de 200 páginas escritas em capítulos em forma de diário. Chico mostra que essa gente somos nós, pisoteados pela soberba de um Estado voltado para os mais ricos.

Quem depende do fruto do seu trabalho para sobreviver vai se enxergar nas linhas e entrelinhas dessa grande obra literária.

Chico Buarque lê trecho de Essa Gente

Duarte busca aproximação com seu filho, tristemente relegado por ele, quando entra em cena uma forte personagem feminina, comum na obra de Chico Buarque. A jovem Rebekka, companheira de seu quase amigo Agenor, um salva-vidas muito próximo a milicianos. Rebekka mexe com o sentimento de descrença no futuro do escritor falido e na sua própria capacidade de se reinventar.

Mais uma vez, o autor carioca constrói personagens para marcar uma literatura para ser guardada com sete chaves e lida por todas as pessoas que se interessam em conhecer a alma do Brasil numa construção de sutilizas e delicadezas.

Essa gente é isso. Uma gente que ri mesmo sem motivos para rir e enfrenta o cotidiano de um Estado repressor, discriminatório e sobrevive passo a passo, trabalhando para garantir o almoço da família e se possível o jantar. Para no dia seguinte começar tudo de novo. Com a mesma esperança de um novo horizonte.

É essa gente feita de porteiros e faxineiras invisíveis em condomínios de luxo, de babás que não têm onde deixar seus filhos para serem cuidados, de trabalhadoras domésticas, que mesmo em meio a uma pandemia, são obrigadas a comparecer ao trabalho. São camelôs, entregadores e motoristas de aplicativos, pedreiros, enfermeiras, garis e todas as profissões que os mais privilegiados desprezam.

É uma gente que morre todos os dias pelo braço armado do Estado por balas perdidas que sempre encontram corpos de meninos pobres e pretos, quase sempre, mesmo dentro de suas casas ou passeando nas ruas.

“Essa Gente” é uma literatura vigorosa que mostra um país a sair do ostracismo e se reerguer como nação a partir do momento que passar a respeitar essa gente que constrói com seu suor tudo o que precisa ser construído para melhorar a vida dessa e de todas as gentes.

Ler “Essa Gente” nos remete à necessidade de engajamento permanente contra o ódio, o rancor, a soberba e a ignorância. E atuar com firmeza em defesa da vida, do amor, da paz e da igualdade de direitos, rumo ao futuro, quiçá numa sociedade onde não haja preconceitos e violência.

Serviço:

Essa Gente

Chico Buarque

Companhia das Letras

R$ 49,90 e-book R$39,90

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