Que seja para o bem a participação de artistas na vida política do país

Durante a ditadura, implantada pelo golpe de 1964, um grupo de artistas resolveu participar da resistência ao autoritarismo com obras engajadas. Peças teatrais retratavam a vida brasileira com humor, mas com profundo senso crítico. Muitos dramaturgos foram censurados e perseguidos. Inclusive novelas censuradas na tevê. A mais famosa foi “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, em 1975. Já os teatrólogos começaram a encenar tragédias gregas clássicas adaptadas para ludibriar a censura. Na telona, o Cinema Novo expunha a alma dos brasileiros com vontade de refletir sobre as mazelas da sociedade.

passeata dos cem mil - 1968- artistasDesde antes do golpe,  o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) atraía artistas das mais diferentes visões políticas para levar arte com reflexão para a classe trabalhadora. Os militares fecharam a UNE e incendiaram sua sede no Rio de Janeiro.

O tempo foi se fechando para os opositores do regime. Muitos artistas, porém, tomaram a decisão de resistir em todas as formas de expressões artísticas. Até a estilista Zuzu Angel (há filme de mesmo nome que vale a pena assistir) passou a denunciar os desmandos dos ditadores em seus desfiles no exterior após o assassinato nos porões do regime de seu filho Stuart.

Ela até ganhou uma música de Chico Buarque de nome “Angélica” para denunciar o fato. Zuzu foi assassinada pela repressão num acidente de trânsito forjado em 1976. A música popular brasileira, por sua forte penetração popular, teve grande número de artistas perseguidos. Canções de Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Chico Buarque, João do Valle, Zé Keti, entre outros, davam o tom da resistência.

 Angélica (Chico Buarque e Miltinho):

As músicas de protesto e o movimento tropicalista ganharam os corações e as mentes da juventude que não desejava ver tolhida a sua liberdade. Vários compositores foram presos ou convidados a sair do país. Gil e Caetano foram presos e exilados, Chico e Vandré foram “convidados” a sair do país. O caso mais emblemático é o de Vandré. Ele voltou calado e não se sabe bem o porquê não se pronunciou sobre os acontecimentos e deixou a vida artística. Parece incorporar o título do livro de Zuenir Ventura: “1968 o Ano que Não Terminou”. O autor paraibano só quebrou o silêncio quando concedeu uma entrevista à Globo News, em 2010, com respostas evasivas, com aparente falta de sentido. Em 1981, no episódio conhecido como “Caso do Riocentro”, uma bomba explodiu no colo de um militar no estacionamento do Riocentro, no Rio de Janeiro, onde milhares de pessoas assistiam a um show de 1º de Maio, com dezenas de artistas. A catástrofe foi evitada por um erro dos militares que tinham ordens de executar o atentado terrorista e culpar os comunistas depois.

 Entrevista de Geraldo Vandré à Globo News em 2010: 

Outro movimento foi a Jovem Guarda, com um programa homônimo na TV Record, em São Paulo. Liderados por Roberto Carlos e muito influenciados pela música pop e comercial, os jovens desse movimento ignoraram a política e falavam de amenidades, numa espécie de “rebeldia consentida”. Roberto Carlos chegou a tecer elogios (há um vídeo fácil de localizar na internet) ao general-ditador do Chile Augusto Pinochet. O cantor capixaba jamais criticou os ditadores no Brasil.

Arte e política se misturaram no maior movimento de massa do Brasil dos últimos 30 anos, denominado Diretas Já. Na primeira grande oportunidade de se unir ao povo para derrubar a ditadura, artistas como Caetano e Gil não participaram das manifestaçãoes populares contra a ditadura. Coube mais uma vez a Chico Buarque liderar os artistas nesse movimento. A cantora paraense Fafá de Belém também emprestou sua voz e cantava o Hino Nacional em todos os comícios pelo Brasil afora. Ela foi considerada a musa das diretas.

Unidos contra a ditadura, separados na democracia, os artistas apoiam candidatos de ideologias muito diferentes. Na primeira eleição presidencial depois da ditadura, os artistas marcaram presença nas campanhas e Lula dava de goleada com Chico, Paulo Betti, Antônio Fagundes, Marieta Severo, Djavan, Wagner Tiso, entre muitos outros. Já o seu adversário no segundo turno, Fernando Collor de Mello, contou com apoio das atrizes Marília Pêra e Claudia Raia. Também teve assessoria da jornalista Belisa Ribeiro, destacada apresentadora de telejornais da Globo e mãe de Gabriel, o Pensador. O compositor Hilton Acioli compôs para o segundo turno o jingle da campanha de Lula “Sem Medo de Ser Feliz” em resposta às campanhas difamatórias contra o líder petista e o “fantasma do comunismo” apregoado pela mídia comercial. Mesmo com toda essa força, Lula foi derrotado. Dois anos após sua posse Collor sofreu impeachment, derrubado pelo movimento dos “caras pintadas”, em 1992.

Nas eleições de 1994 e 1998, Lula manteve apoios seguidos de artistas de diversas áreas, mas foi derrotado as duas vezes por Fernando Henrique Cardoso, apoiado por Regina Duarte, Caetano Veloso, entre outros artistas. A atriz alcunhada anteriormente de a “namoradinha do Brasil”, no entanto, protagonizou um episódio nefasto à sua biografia na eleição presidencial de 2002, quando foi à campanha do então candidato do PSDB, José Serra, pronunciar seu “medo” de uma vitória de Lula. O episódio ficou conhecido como a luta do medo contra a esperança, quando o então candidato do PT disse que a esperança venceria o medo. Diversos artistas saíram em defesa de Lula que venceu a eleição.

Após a posse de Lula em 2003, a classe artística foi se movimentando de um lado para o outro. Os apoios ao governo foram muitos, principalmente com a escolha de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, cuja atuação colocou o ministério no mapa do Brasil. Os artistas passaram a encaminhar suas demandas ao governo sem intermediários. Em 2006, inclusive a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano prestou apoio à reeleição de Lula. Mas poucos anos depois, Zezé aderiu ao movimento denominado Cansei (uma tentativa de derrubar o presidente através do prestígio de artistas e celebridades), liderado pelo empresário João Doria. O Cansei contou com a participação da apresentadora Hebe Camargo, da cantora Ivete Sangalo, de Sérgio Reis, entre outros. Esse movimento jamais com seguiu mobilizar número condizente de seguidores para as suas pretensões. Tanto que em entrevista à mídia comercial, o irmão de Zezé Di Camargo, Luciano disse que não participava de movimento comandado por gente que fazia “festa de aniversário para cachorro”. Ele disse textualmente: “Caguei pro Cansei”.

Regina Duarte com medo de Lula na campanha de Serra em 2002:

Com o avanço da vida democrática, tudo vai ficando mais nítido e artistas que nunca levantaram a voz contra as arbitrariedades da ditadura resolveram posicionar-se politicamente em atitude muitas vezes oportunistas. Caso das atrizes Carol Castro, Rosamaria Murtinho, Nathália Timberg, Susana Vieira e Bárbara Paz que vestiram preto em luto pelo resultado favorável aos embargos infringentes para os réus da Ação Penal 470, dado pelo Supremo Tribunal Federal em 2013. Viraram chacota na internet.

Caso parecido aconteceu com Caetano Veloso quando chamou o ex-presidente Lula de “cafona” e “analfabeto”. O compositor baiano levou uma bronca pública da já centenária mãe, Dona Canô, em 2011, pedindo desculpas a Lula e desautorizando o filho famoso a falar em nome da família. Outro fato marcante foi o artigo no jornal “Folha de S.Paulo” do apresentador Luciano Huck, no qual mandava chamar o Capitão Nascimento, personificação da violência policial, após terem roubado seu rolex na capital paulista, em 2011. O compositor Zeca Baleiro escreveu uma resposta no mesmo jornal, onde rebate a posição do apresentador global e estranha que alguém que nunca falou nada de política venha com uma posição radical dessas por ter sido roubado. Ainda em 2005, no plebiscito sobre a possibilidade de proibição de comercialização de armas de fogo no país, os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura estiveram à frente dos artistas a favor da proibição, mas foram derrotados pela forte campanha efetuada pela indústria bélica contra.

Na eleição de 2010, Dilma teve apoio de inúmeros artistas contra a quase nulidade de seu adversário José Serra. Novamente Chico Buarque liderou a trupe de artistas. Já na eleição para a Presidência da República deste ano, os artistas estão ainda mais divididos, embora a presidenta Dilma ainda leve vantagem. Milton Nascimento, Fernando Brant e Fagner declararam apoio ao candidato tucano. Caetano Veloso e Gilberto Gil declinaram voto em Marina Silva. Chico Buarque, Racionais MC’s, Aderbal Freire-Filho, Camila Pitanga, Paulo Betti, Chico César, o grupo Teatro Mágico, entre outros, votam em Dilma.

Afinal todo artista, antes de mais nada é um cidadão e tem o direito de opinar sobre a vida brasileira. Concorde-se ou não, é muito benvinda a participação deles na vida política do país, desde que feita de maneira transparente e com honestidade. Cultura e política podem andar de braços dados para o bem ou para o mal, que aqui seja para o bem.

Por Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

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