Para o filósofo Leandro Karnal, é necessário aprender a dialogar e respeitar as diferenças

O filósofo Leandro Karnal publicou nesta terça-feira (6) um texto intitulado “O limite da liberdade de expressão” em resposta ao professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Jairo José da Silva, que defendeu a violência policial nos atos pelo “Fora Temer”.

Silva escreveu em seu Facebook: “Uma garota ficou ferida na esbórnia pró-Dilma em São Paulo. Pode ficar cega. Se for petista é uma boa notícia, mas não vai fazer muita diferença, já que são cegos como toupeiras”.

professor menna perdeu olho fascista

Insano. A que ponto chega a mentalidade fascista. Desejar o mal para uma pessoa, só porque ela pensa diferentemente. Silva se refere à jovem Deborah Fabri atingida por estilhaços de bomba de gás lançada pela Polícia Militar em manifestação contra o governo golpista. O professor e filósofo Karnal escreveu uma resposta suficiente para fazer corar Silva, se ele ainda contar com alguma consciência.

Diz que “posso, com bons argumentos, ser contra o partido A ou B. Posso condenar quem depreda patrimônio público ou privado. Posso ser do PSOL ou do DEM. A sociedade precisa desta diversidade de posicionamentos. Nunca posso defender violência contra uma pessoa. Nada justifica isto” (leia a íntegra abaixo).

O limite da liberdade de expressão

Conquistamos com dificuldade a liberdade de expressão. Ela é um direito constitucional e um esteio do pacto social. A própria lei já estabelece limites: não posso defender ou incitar crime. Não posso, em nome da liberdade de expressão, defender racismo ou violência contra mulheres ou pedofilia. A liberdade é ampla, mas não absoluta.

O professor Jairo José da Silva é titular da Unesp e com consagrada carreira acadêmica. Tudo indica tratar-se de pesquisador sério e reconhecido em muitos bons centros. Isto não impediu de afirmar algo muito difícil no seu Facebook. Diante do fato de uma aluna Deborah Fabri, de 19 anos, ter sido atingida no olho por bala de borracha e ter perdido a visão, o docente comentou que era uma notícia potencialmente boa que ela ficasse cega.

Posso discordar das manifestações. Posso, com bons argumentos, ser contra o partido A ou B. Posso condenar quem depreda patrimônio público ou privado. Posso ser do PSOL ou do DEM. A sociedade precisa desta diversidade de posicionamentos. Nunca posso defender violência contra uma pessoa. Nada justifica isto. Este é o limite da liberdade de expressão, pois além deste limite começa o mundo da barbárie. Todos podemos dizer coisas que, refletindo melhor, pensamos ser um equívoco. Cabe, então, veemente pedido de desculpas. Até ele ocorrer, somos coautores da violência defendida. Violência é o fim do diálogo. Como professor, fico intensamente chocado quando alguém se alegra com uma aluna perdendo a visão. Fico mais chocado com alguém que, tendo os dois olhos, seja tão cego.

Temos um longo caminho pela frente. Aprender a ser crítico sem destruir, aprender a ser policial sem cegar, aprender a discordar sem apoiar violência e, acima de tudo, aprender a dialogar.

Portal CTB

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