O samba, na realidade, não vem do morro nem lá da cidade

Entre os grandes do samba, um gigante se destaca e merece menção especial neste 2 de Dezembro (Dia do Samba), o poeta da Vila Isabel, Noel Rosa, cantor, compositor, violonista e bandolinista.

Noel teve uma vida intensa, embora curta, e uma carreira meteórica. Nasceu na Vila em dezembro de 1910 e por lá morreu em maio de 1937, antes de completar 27 anos. Exalava samba e poesia. A obra que compôs, relativamente vasta para a breve existência, atravessou o século 20 e ingressou no atual sem perder a beleza e a atualidade.

Em contraposição ao espírito de vira-lata que anima as classes dominantes brasileiras e orienta o governo Bolsonro, o poeta da Vila admirava e enaltecia a cultura e os valores nacionais, condenando o estrangeirismo e o culto alienado do chamado 1º Mundo, que traduz uma mentalidade colonizada imposta, desde então e até nossos dias, pela ideologia dominante em parceria com a indústria cultural anglo-americana. “Não tem tradução” é uma música que expressa o sentimento e a acurada percepção de Noel sobre o tema.

A beleza singular de sua poesia pode ser conferida em muitas composições, como no samba “Feitio de oração”, onde rebate a ideia de que o samba tem origem no morro com os seguintes versos: “o samba, na realidade, não vem do moro nem lá da cidade; e quem suportar uma paixão sentirá que o samba, então, nasce do coração”.

Selacionamos três composições de Noel Rosa, “Não tem tradução”, na voz do próprio autor; “Feitio de Oração”, interpretado por Gal Costa e “Quem dá mais”, uma música que parece apropriada para descrever este tempo de entreguismo e leilões, com Eduardo Dussek. Além dessas, uma composição de João Nogueira, na voz do próprio, intitulada Wilson, Geraldo e Noel, que homenageia, além do poeta da Vila, dois outros gigantes do samba: Wilson Batista, autor de “Preconceito” (cantado por Caetano, Chico Paulinho) e Geraldo Pereira, o Rei do Samba, lembrado abaixo com “Bolinha de papel”, na voz e violão de João Gilberto.

O gênio baiano de Dorival Caymmi não poderia ficar ausente. Comparece com Doralice, também cantada pelo célebre criador da bossa nova. Concluímos a lista com um companheiro de Noel, o grande Ismael Silva (“Com a vida que pediste a Deus” e “Ironia”), interpretado por Jards Macalé e Dalva Torres.    

Umberto Martins

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