Música e trabalho: coração se fecha ao trabalho sem vontade

Por Marcos Aurélio Ruy

Para o grupo paulista Francisco, El Hombre, trabalhar sem vontade fecha o coração e nos desumaniza, por isso, perguntam: “Somos humanos ou máquinas”? Numa canção a desvendar a dor no peito pela imposição patronal e a fragmentação do trabalho, não permitindo ao trabalhador conhecer todo o processo de produção.

O grupo foi criado em 2013, em Campinas, no interior de São Paulo e é composto por mexicanos e brasileiros. Conta com dois álbuns e seu maior sucesso até o momento é Triste, Louca ou Má, de Juliana Strassacapa. O refrão da música diz “Que um homem não te define/Sua casa não te define/Sua carne não te define/Você é seu próprio lar.”

O grupo viralizou na internet ao cantar Bolso Nada e pedir para as pessoas se darem as mãos e dizer para “ninguém soltar a mão de ninguém” até o Bolsonaro cair e continuarmos de mãos dadas para reconstruir o país devassado.

Como Uma Flor, Francisco, El Hombre (traduzida)

Me agarrei ao pé de um deus e meu coração se fechou
Fui trabalhar e meu coração se fechou
Eu me mudei para uma casa, mas eu não me encaixo lá
Não cabem meus sapatos, nem a lua, nem o sol

Me agarrei ao pé de um deus e meu coração se fechou
Fui trabalhar e meu coração se fechou
Eu me mudei para uma casa, mas eu não me encaixo lá
Não cabem meus sapatos, nem a lua, nem o sol

Coloquei uma gravata e meu coração se fechou
Cobria todo o meu peito, escondendo uma dor
Rasguei todas as roupas e, em seguida, nu
Tomei em minhas mãos o meu coração se abriu como uma flor
E abriu como uma flor

Me agarrei ao pé de um deus e meu coração se fechou
Fui trabalhar e meu coração se fechou
Eu me mudei para uma casa, mas eu não me encaixo lá
Não cabem meus sapatos, nem a lua, nem o sol

Coloquei uma gravata e meu coração se fechou
Cobria todo o meu peito, escondendo uma dor
Rasguei todas as roupas e, em seguida, nu
Tomei em minhas mãos o meu coração se abriu como uma flor
E abriu como uma flor

Somos humanos ou máquinas
Animais ou máquinas
Somos humanos ou máquinas
Não me enferruja a chuvaiaiá

Uma flor rasgou a rua
Desafiando a inércia cinza do ódio
Uma flor minha e sua
Florescendo trouxe vida à rua
Eu sou minha própria luz

Tome em suas mãos o seu coração
E vai se abrir como uma flor
E vai se abrir como uma flor

Criolo

O compositor e cantor paulista, Criolo canta o trabalho de um carnavalesco em pleno carnaval. E como qualquer trabalhador brasileiro acorda muito cedo e dá um duro danado por ter “As contas a pagar/Fila pra pegar/Senha pra rasgar/Fantasia.”

O personagem saiu de casa às pressas “Atravessou o morro/E do outro lado da nação/Levou um susto ao ver/Um povo que não tem/Com o que se preocupar”, justamente porque não trabalha e não precisa se preocupar se no dia seguinte vai ter feijão para encher a panela de sua casa. Muito clara a poesia em mostrar a realidade do capitalismo.

4 da Manhã, de Criolo

Às 4 da manhã ele acordou
Tomou café sem pão
E foi a rua
Por o bloco pra desfilar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Ficou com medo ao ver
Que seu bloco talvez não pudesse agradar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…

Que às 4 da manhã ele bordou sem pão
Junto a estandarte
Pois a alma pra lavar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Levou um susto ao ver
Um povo que não tem
Com o que se preocupar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…

Seu Jorge

O músico carioca, Seu Jorge canta a vida de quem vive na correria das cidades grandes, revelando afinal que somos todos “boias-frias” em uma rotina de exploração e sacrifícios ao enfrentar transporte precário e lotado ainda pode ser demitido se chegar atrasado.

E denuncia o neoliberalismo excludente ao afirmar que “tem gari por aí que é formado engenheiro.” Afinal, somos todos garis, engenheiros, jornalistas, advogados, artistas, somos todos trabalhadores. Falta avisar muita gente disso. “E sem dinheiro vai dar um jeito/Vai pro serviço/É compromisso, vai ter problema se ele faltar/Salário é pouco, não dá pra nada/Desempregado também não dá”, reforça o compositor.

Trabalhador, Seu Jorge

Está na luta, no corre-corre, no dia a dia
Marmita é fria mas precisa ir trabalhar
Essa rotina em toda firma começa às sete da manhã
Patrão reclama e manda embora quem atrasar

Trabalhador
Trabalhador brasileiro
Dentista, frentista, polícia, bombeiro
Trabalhador brasileiro
Tem gari por aí que é formado engenheiro
Trabalhador brasileiro
Trabalhador

E sem dinheiro vai dar um jeito
Vai pro serviço
É compromisso, vai ter problema se ele faltar
Salário é pouco, não dá pra nada
Desempregado também não dá
E desse jeito a vida segue sem melhorar

Trabalhador
Trabalhador brasileiro
Garçom, garçonete, jurista, pedreiro
Trabalhador brasileiro
Trabalha igual burro e não ganha dinheiro
Trabalhador brasileiro
Trabalhador


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