Ken Loach: uberização é o trabalho escravo moderno

”Todo filme é um ato político”, diz um dos maiores cineastas vivos, o britânico Ken Loach, em entrevista ao jornal The Guardian, após o sucesso do seu novo filme, ‘Sorry We Missed You’, considerado como uma continuação de ‘Eu, Daniel Blake’

Pouco tempo depois do sucesso no recente Festival de Cinema de Cannes, o diretor britânico Kenneth Charles Loach, de 82 anos, concedeu a entrevista abaixo ao jornal de Londres The Guardian onde fala sobre seu cinema e sobre a política, dois temas que sempre estiveram entrelaçados na sua premiada e histórica filmografia.

Mestre do filme político e do realismo social do seu país, Sorry We Missed You começou a ser exibido na Europa inaugurando a estação cinematográfica nobre, do outono, com imenso sucesso de público e de crítica. Estimamos que até o fim deste ano ele esteja nas telas do Brasil.

O título Sorry We Missed You contém a ironia que se refere ao aviso deixado nas caixas do correio quando não é possível fazer a entrega da encomenda a um destinatário ausente.

É um libelo contra a uberização do trabalho e, assim como o seu festejado Eu, Daniel Blake, do qual é uma espécie de suíte, o filme relata a atual precariedade do trabalho, uma alternativa para aqueles que fogem, desesperados, do desemprego (o formal, que se torna arcaico) e mostra o empobrecimento da população das pequenas classes médias no Reino Unido.

Filme retrata o drama da classe trabalhadora na atual conjuntura histórica

O roteiro do seu filme, mais uma vez, é do escritor Paul Laverty, grande amigo de Loach. “Para pesquisar o assunto’’, diz o cineasta, ‘’ele perambulava pelos estacionamentos conversando com motoristas de entregas a domicílio, fazia viagens em sua companhia e observava o quanto eles bebiam para manter a energia física e o seu apodrecimento.’’ O ator principal, Kris Hitchen, trabalhou nos últimos vinte anos como encanador autônomo. E muitos dos demais atores são motoristas de entrega domiciliar; trabalhadores uberizados.

O plot de Loach/Laverty levanta a vida de Ricky e sua mulher, Abby. Ela vende o seu carro e passa a usar transportes públicos para que o marido possa comprar uma camionete e fazer os turnos de 12/14 horas durante seis dias por semana, uma ocupação como solução possível para resolver os seus problemas financeiros. A equação familiar completa-se com os dois filhos.

Ambos os filmes, este e Eu, Daniel Blake, são ambientados na cidade de Newcastle, num cenário de economia quebrada e de empresas que tentam convencer os trabalhadores, desonestamente, das vantagens de serem seus próprios patrões.

Mas neste novo mergulho no realismo social britânico, embora com tom globalizante, Loach continua conferindo aos seus personagens um profundo humanismo.

A entrevista ao The Guardian:

The Guardian – Por que você escolheu situar a ação de Sorry, We Missed You em Newcastle, como a de Daniel Blake, ao invés de Irlanda ou mesmo na Escócia, onde você já filmou muito?

Ken Loach – Nós não queríamos arriscar ficarmos atolados no debate sobre a independência escocesa. O tema do filme não é um problema escocês, mas europeu. No entanto, a escolha de Newcastle não foi feita por acaso. É, antes de tudo, uma cidade pequena, não um grande centro como Manchester ou Birmingham. Tem uma forte identidade local, e nela se fala um dialeto ainda muito praticado. Ela está localizada em uma parte da Inglaterra relativamente separada do resto do país, onde as pessoas são orgulhosas da sua região e da sua cidade. A economia desenvolvida ali, a partir de indústrias antigas, incluindo a mineração e a construção naval, que agora foram deixadas para trás, resultaram num alto desemprego e uma profusão de empregos informais.

The Guardian – Como é a cultura local?

KL – É a conjunção entre uma cultura de classe trabalhadora rica e antiga, por um lado, e uma situação socioeconômica difícil, por outro, o que tornou a cidade um lugar ideal para situar a ação do filme.

The Guardian – Você poderia ter dado o título ao seu filme de ‘’ um mundo livre com trabalhadores temporários ,’’ por exemplo. Por que você escolheu o trabalho de motorista de entrega domiciliar entre várias possibilidades de outras profissões?

KL – A profissão de motorista de entregas é   particularmente vulnerável. E não queríamos filmar dentro de um centro de distribuição porque seria exigido um local enorme que excedia o orçamento que tínhamos. A vantagem de encenar um motorista de entrega é eu ele dirige através da cidade. Isto permite esboçar um retrato dela e apresentar toda uma gama de habitantes através dos destinatários das encomendas que Ricky, o entregador, distribui: o homem deficiente a quem ele ajuda a transportar as malas, o torcedor de futebol…

The Guardian – Com este filme, os espectadores podem se sentir culpados por encomendar produtos pela Internet?

KL – O tema não é a moral individual, mas a grande transformação do mundo do trabalho. Empregos fixos, com duração de oito horas por dia, com pagamento suficiente para atender às necessidades das famílias, possibilitando planejar o futuro e encontrar habitação, são transferidos para empregos instáveis e inseguros onde se é obrigado a trabalhar 12 ou 14 horas por dia para ganhar um salário mínimo, sem seguro desemprego, licença remunerada ou salário doença. Em suma, onde todos os riscos passam a ser do funcionário. Esta transferência de poder dos trabalhadores para os empregadores impede que os sindicatos funcionem; eles tentam, mas não conseguem se organizar entre esses trabalhadores.

The Guardian – No filme, a única vez em que os sindicatos são mencionados é através do perfil de Molly, um cliente de Abby, ativista sindical antigo, idoso, que fala sobre as grandes greves de 1984…

KL – Sim, esta é uma das chaves do filme, ou seja, a inevitável implantação do capitalismo. O próprio funcionamento do capitalismo provoca cenas de violência. É muito simples: se houver uma competição para ganhar contratos, é o mais barato que ganha; mas para oferecer os preços mais baixos você tem que cortar o custo do trabalho.

The Guardian – E como proteger os empregos?

KL – Você não pode proteger os empregos se você não planejar a economia. E você não pode planejar o que você não tem. Os empregadores recrutam empregados somente quando precisam. Usam trabalhadores temporários ou os chamados contratados por conta própria sem assumir qualquer responsabilidade por eles. Imitam seus concorrentes, porque caso contrário eles são eliminados da corrida. Infelizmente, acredito que os políticos estão perdendo este fenômeno. Agora, eles começam a falar sobre a reabilitação dos sindicatos. Muito bem. Mas eles não têm uma compreensão do que está acontecendo e como corrigi-lo. São as próprias fundações do mercado livre que devem ser abordadas. Esse é o ponto que estamos tentando sublinhar no nosso filme.

The Guardian – Você diz que o tema do filme não é a moral individual. Os personagens de Ricky e Abby estão lutando para permanecer humanos apesar de tudo. Ainda assim, Ricky não vacila quando um de seus colegas é demitido e ele pode obter o turno de trabalho dele.

KL – Sim, é tudo contraditório. Ricky ajuda, por exemplo, um homem que tem problemas de saúde para transportar seus pacotes; mas por outro lado é levado a não fazê-lo. O sistema atual incentiva as pessoas a serem concorrentes – não camaradas. Maloney, o gerente de armazém, tenta o tempo todo jogar os motoristas uns contra os outros: “Trabalhe duro e você terá um turno mais rentável; você terá benefícios extras, mais dinheiro.”

The Guardian – Os membros das classes trabalhadoras que você mostra, no entanto, continuam demonstrando o que George Orwell chama de “decência comum.” Eles se comportam humanamente. Mas isso não os impediu de votar em políticos que defendem a concorrência distorcida…

KL – É uma profunda contradição. Por que as pessoas votam contra os seus próprios interesses? É um problema tão antigo quanto o sufrágio universal: a classe dominante consegue manipular o voto das classes trabalhadoras.

The Guardian – Manipulação?

KL – Por que se demorou tanto para sair do feudalismo? Porque havia a igreja em particular, que incentivou as pessoas a permanecer no seu lugar. Hoje, ela foi substituída nesta função pela mídia. Então, por que as pessoas votam no fascismo? Por que eles estão votando em Le Pen? É uma pergunta difícil. A resposta envolve analisar os mecanismos de construção de consciência de classe, na minha opinião.

The Guardian – No entanto, no filme não há qualquer referência à política ou aos meios de comunicação.

KL – Discutimos muito sobre isto entre nós. O problema é que quisemos apresentar uma história simples que não é inequívoca em qualquer sentido. Se tivéssemos colocado nela um representante sindical, teria sido como se eu fosse o único a me dirigir ao público diretamente para pregar a boa palavra para a platéia. E eu teria matado o filme. Os espectadores odeiam que lhes diga o que pensar. Mas ao mesmo tempo tentamos despertar neles certa raiva; fazê-los terem a vontade de se sindicalizar, por exemplo. Estamos procurando tentando fazer o público se questionar, perguntar o que podemos fazer sobre tudo isso. Mas se lhes fornecemos a resposta, isso prejudicaria toda a energia do filme.

The Guardian – A revolta, especialmente a revolta adolescente, atravessa a sua filmografia. Sebastian, o filho mais velho, é de alguma forma o único personagem no filme que realmente se rebela contra o absurdo do sistema capitalista em que todos lutam.

KL – A adolescência é a idade em que o caráter é formado e o futuro surge em aberto: é importante e interessante escutar os adolescentes. Ao mesmo tempo, a maioria dos pais entra em tensão com seus filhos em algum momento. Aqui, é porque Ricky e Abby estão exaustos pelo seu trabalho: eles não estão em casa quando as crianças chegam da escola, ou mesmo mais tarde à noite. Não é uma situação extraordinária que estamos mostrando. Cada família se reconhece nela até certo ponto.

The Guardian – Por que você escolheu uma família que não pertence à parcela mais baixa das classes sociais, mas uma que pode ser chamada de classe média mais baixa?

KL – Isso mesmo, não é a classe trabalhadora absoluta. Mas depende de como se define uma classe social. Existem diferentes níveis de pobreza dentro da classe trabalhadora. A família que mostramos faz parte, entretanto, da classe trabalhadora. São trabalhadores que não controlam sua ferramenta de produção.

The Guardian – Mas eles não têm dificuldades como alguns dos personagens de seus filmes anteriores, como Daniel Blake …

KL – Sim, isso é exatamente o que temos tentado mostrar: é uma boa família. Ricky e Abby estão animados. Eles querem trabalhar e são capazes disso. Eles cuidam de seus filhos, não usam drogas, não jogam dinheiro fora… Todos os ingredientes para uma vida familiar bem-sucedida estão reunidos. Exceto o fato de eles trabalharem tempo demais. Não têm segurança no trabalho nem todos os direitos conquistados pelos sindicatos como, por exemplo, um dia de oito horas, um salário decente. É por isso que o sistema os destrói de qualquer maneira.

The Guardian – Você mostra a ambivalência das novas tecnologias. Elas dizem aos funcionários o que fazer, dizem que eles podem enriquecer com a vida cotidiana. Qual é o papel do digital nesta transformação do capitalismo que você está tentando mostrar?

KL – Ricky é controlado permanentemente. Ele sabe que a qualquer hora do dia se sabe onde ele está e verifica-se, em tempo real, se cada entrega foi feita. Lembra aqueles que chicoteavam os escravos nas galeras. É a pior forma de agir do capataz nas linhas de produção. A tecnologia deve pertencer aos povos; não é para usá-los, para escravizá-los.

The Guardian – Você terá escolhido papéis muito estereotipados como a mãe assistente de enfermagem, o filho rebelde, a filha dócil? Você acha que o gênero é uma questão importante ou você vai atrás das relações de classe?

KL – Eu acho que é um problema quando as pessoas não são tratadas de forma justa e há desigualdades em termos de direitos e em termos de remuneração. Entre os motoristas de entrega a domicílio do filme há algumas mulheres; tentamos refletir o mundo social como ele é. Alguns dos cuidadores (personagem da mãe, por exemplo) são do sexo masculino, especialmente para cuidar de pessoas que precisam ser fìsicamente assistidas.

The Guardian – Você conhece o (diretor francês) Robert Guediguian? Na França, com frequência, os seus filmes são comparados aos dele. Vocês dois, às vezes, são acusados de “compassivos” porque basicamente as pessoas, em seus filmes, são “boas’’. O que você diz àqueles que o acusam de ser demasiado otimista em relação à natureza humana?

KL – Acho que as pessoas que dizem isso certamente tiveram más experiências. Em nossos filmes estamos simplesmente tentando refletir o mundo como o vemos. E acho que as pessoas costumam ser como as que mostramos. Sugiro àqueles que não estão convencidos disso de irem ao encontro de homens e mulheres em profissões comuns. Eles vão ver que essas pessoas se comportam principalmente de uma forma amigável e não hostil.

The Guardian – Você fez poucos documentários em sua carreira, e preferiu a forma da ficção. Por quê?

KL – Fizemos um documentário sobre o governo britânico de 1945, O espírito de 45, que tratou do período pós-guerra imediato, quando Churchill foi derrotado na eleição geral, e todos pensavam que ele seria reeleito. Era o grande líder da guerra. Mas as pessoas se lembraram, quando votaram, da década de 1930, do desemprego endêmico, da pobreza. Eles queriam um governo trabalhista que construiu o chamado Estado de Bem-Estar, que nacionalizou as grandes indústrias, a energia, a água… O documentário queria capturar esta respiração, mas também a maneira pela qual todo este edifício foi destruído – ou pelo menos tentou ser destruído – com o governo Thatcher. Além do mais, ficção permite mais complexidade.

The Guardian – Qual o valor do documentário e o da ficção?

KL – Documentários e ficções são apenas dois gêneros diferentes. Cada um tem o seu valor. Impossível dizer se um é melhor do que o outro. Fizemos um documentário sobre a grande greve dos mineiros de 1984, talvez o evento mais decisivo no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial. Uma vez eleita, a estratégia de Margaret Thatcher foi lutar contra a classe trabalhadora de frente. E os canais de TV se recusaram a transmitir esse nosso documentário…

The Guardian – Mas e em termos de valor? Doc ou ficção?

KL – Com o documentário as mensagens podem ser transmitidas de forma muito direta enquanto a ficção nos permite explorar a complexidade das relações e as interações entre as pessoas, ao mesmo tempo em que ela lida com o contexto social mais geral. Podemos, assim, mostrar tanto os debates de idéias e os sentimentos, e a psicologia que anima cada um dos personagens. É a mesma diferença que existe entre ensaios e romances. De alguma forma a ficção permite mais complexidade.

The Guardian – Considera que o seu cinema é político?

KL – Meus dois filmes mais recentes coincidiram com a ascensão de Jeremy Corbyn. Ele é um líder. Na verdade, é um homem de esquerda. Eu apoio Jeremy Corbyn – a ele e ao seu programa. E acredito que cada um dos nossos atos pode refletir a nossa sensibilidade política, inclusive no cinema: o assunto que escolhemos para lidar, os personagens que colocamos na tela… e ilustrar o que é importante para o autor. Tudo isso tem implicações políticas porque se você não se sente preocupado com a desigualdade, a exploração, as consequências do imperialismo e o sofrimento dos outros, isto aparecerá no trabalho. Você se afastar de tudo isso, é uma escolha política! Todo filme é um ato político.

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