Jornalista capixaba lança livro de crônicas

Cidade natal de Rubem Braga, Sérgio Sampaio e Roberto Carlos, Cachoeiro de Itapemerim é terra de muitos talentos, o que fez com que merecesse o título de “capital secreta do mundo”. Um desses talentos é o jornalista e compositor Luiz Trevisan, que acaba de lançar um excelente livro de crônicas intitulado “Resumo da balada”.

A bem da verdade, é preciso esclarecer que Trevisan nasceu no ano de 1950 em Castelo, uma pequena e pitoresca cidade do sul capixaba, situada a alguns quilômetros da capital secreta. Mas foi criado sob o calor de Cachoeiro, mudando mais tarde, em 1973, para Vitória, onde se formou jornalista. É hoje considerado um “ilustre cachoeirense ausente”.

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Imagem aérea de Cachoeiro de Itapemerim, a capital secreta do mundo

Suas crônicas retratam perplexidades da época e causos dignos de nota, envolvendo personalidades capixabas e, especialmente, cachoeirenses como o compositor Sergio Sampaio ou o próprio autor. É o caso da crônica “O Sheik do Cachimbal”, reproduzida abaixo, onde narra, com leveza e estilo jornalístico, a história familiar de um tesouro despercebido e, por isto, desprezado e perdido. Leia:

Quem não tem dinheiro, conta história. De preferência, com muito dinheiro no enredo. Aquele que hoje cruza o município de Jaguaré se vê cercado de vastas culturas de pimenta-do-reino, coqueiros, mamão, café e eucaliptos em algumas áreas de relevo ondulado e que, nas décadas de 1960/1970, viveu o ciclo da madeira de lei. Depois veio o petróleo jorrando do subsolo. Claro, tinha também muito mosquito, febre amarela, ausência de água tratada e energia elétrica, estradas ruins: o outro lado do desafio das terras a serem conquistadas no norte do Espírito Santo.

Bem no início dos anos 1960, um jovem aprendiz de Alfaiate, que morava em Vitória, recebe o convite do pai, já Sexagenário, para ir à Jaguaré vistoriar umas terra que havia adquirido à custa de muito trabalho na lavoura, como meeiro e alguns bicos – ele era versátil e prático, construía casas, criava poucos, fazia linguiça para vender, enfim, se virava – e muita economia duras penas.

Jaguaré, então e não passava de uma remota Vila ao lado da estradinha batida. Seu comércio se resumia a uma desta ou armazém de Secos e Molhados, um boteco, uma igrejinha de madeira e o cemitério na parte mais alta. Entreposto de imigrantes e descendentes, principalmente de italianos, negros ainda errantes das fazendas da senzala, tropeiros, mascates, aventureiros em busca de algum tipo de ouro.

O jovem alfaiate vistorias terras do pai: era mato e mata pura em cerca de 15 alqueires. Fora levado ali para ver se a ele interessaria trocar agulhas e tecidos pela exploração naquela propriedade. O pai, 60 anos de uma vida de luta, criando 11 filhos e tal, acalentando passar a bola para o sucessor na linha direta. O jovem alfaiate não pensou duas vezes, recusou de pronto. Morava e estudava em Vitória, aquela vida de namoradinha, encontros com amigos no final de semana, praia, cinema, clube…

Não vou trocar a cidade para me enfiar no mato”, pensou e disse. E repetiu ao pai aquilo que outros dois irmãos mais velhos, devidamente urbanizados, já haviam dito. Desanimado, não restou alternativa ao pai: vender aquelas terra no barato, “para se livrar do abacaxi”. Pouco tempo depois, começa a exploração da madeira de lei na região, motosserras cantando, o fausto madeireieo, que enricou muita gente e, claro, provocou arrepios de indignação no ambientalista Augusto Ruschi. Quando a madeira acabou por cima da terra, acharam petróleo por baixo. Jaguaré é hoje um dos principais produtores de petróleo do Estado embolsando grande receita em royalties.

O resumo, dentro da perspectiva do caso, é que o aprendiz de alfaiate trocou um robusto pote de ouro – e sem precisar ir ao fim do arco-íris – por panos, tesouras e agulhas. Hoje, quando os irmãos se reúnem e algum chora pitangas financeiras, gostam de zoar um ao outro aludindo o episódio. Ao antigo alfaiate coube devidamente a alcunha de “O Sheik do Cachimbal”, referência àquelas terras menosprezadas situadas próximo ao Córrego do Cachimbal.

O pai, sem saber, havia encontrado o Eldorado, solenemente ignorado pelos filhos. Eu, entre eles. Mas, naquela época, eu era só uma criança que não entendia nada. E que desse episódio herdou apenas uma rica piada familiar.

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