Disco homenageia Adoniran Barbosa o compositor da São Paulo que resiste

Por Marcos Aurélio Ruy

Está para ser lançado um álbum com onze canções inéditas de Adoniran Barbosa, que completaria 110 anos nesta quinta-feira (6). As músicas foram descobertas pelo produtor musical Lucas Mayer, responsável pelo projeto, que incorporou importantes vozes da música popular brasileira ao projeto de homenagem ao maior representante do samba paulista, que de túmulo nunca teve nada.

Participam do disco o maranhense Zeca Baleiro; a carioca Elza Soares; o grupo Francisco, El Hombre, do interior de São Paulo; o pernambucano Di Melo; Zé Ibarra, carioca; Luê, paraense; Rubel, fluminense; Barro, pernambucano; Amanda Pacífico, paranaense e Illy, baiana. Com esses participantes fica claro o caráter nacional da obra do compositor paulista.

Trem das Onze, de Adoniran Barbosa

Além de cantor e compositor, Adoniran foi humorista. Então “dá licença de contar” que está presente em sua obra: o trabalhador com pressa de não perder o trem para voltar para casa porque trabalha no dia seguinte, aquele da marmita com torresmo à milanesa, da saudosa maloca derrubada pela especulação imobiliária, do samba frustrado na casa do Arnesto, do peito tábua de tiro ao “Álvaro”, da Iracema atropelada, da tristeza afogada na mesa de um bar, das “mariposas” que ficam dando “vorta em vorta de mim”, traduzindo a singularidade do grande compositor, imortalizado como um dos mais importantes sambistas brasileiros. Afinal “tocar na banda pra ganhar o quê?”

“Adoniran Barbosa captou como ninguém a essência de seu tempo com seus versos, personagens e histórias que tratavam com maestria da realidade de São Paulo em plena expansão”, diz Gabriel Andrade, da Coala.Lab.

Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa

Sem ser paulistano, tornou-se o mais paulistano dos compositores e cantou a transformação e urbanização de São Paulo por décadas até falecer em 1982. A vida da classe trabalhadora foi presença constante em suas obras imortalizadas em muitas vozes como os Demônios da Garoa e Elis Regina.

As desventuras, a falta de moradia, os amores, os dissabores e a labuta diária para sobreviver com dignidade de quem construiu a maior metrópole do país, temas cantados em versos em linguagem coloquial e tradutores da vida paulistana.

O disco “Onze” é uma merecida homenagem ao maior sambista de São Paulo e um dos grandes do Brasil, imortalizado nos corações e mentes até de roqueiros e rappers. Presente no imaginário popular e na alma de quem ama boa música. Faz falta o seu sotaque e o seu cantar “errado” no linguajar. Único no cenário da música.

Interpretam as 11 novas canções de Adoniram Barbosa:

Bares da Vida – Zeca Baleiro

Careca Velho – Di Melo

Como Era Bom – Illy

Bolso de Fora – Rubel

A Partida – Àvuà

De Baixo da Ponte – Barro

Vaso Quebrado – Elza Soares

Feira Livre – Amanda Pacífico

Bebemorando – Francisco, El Hombre

Dias de Festa – Luê

A Escola – Zé Ibarra

Torresmo à Milanesa, de Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro; participação de Clementina de Jesus

“Produzir o disco em um mês já é difícil junto, imagine a distância. Dirigir artistas e músicos por Zoom”, conta Mayer sobre o trabalho de gravação dessa merecida homenagem a João Rubinato, o Adoniran Barbosa de São Paulo, do Brasil e do mundo.

As canções estão disponíveis no Spotify, a partir desta quinta, aniversário de Adoniran Barbosa, o compositor da São Paulo que resiste aos desmandos e descasos de governantes de uma elite de mentalidade escravocrata.

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