Brasil vive uma “situação horrorosa”, desabafa Wagner Moura, diretor do filme “Mariguella”

“Vamos enfrentar muita merda quando voltarmos ao Brasil”, disse o ator Wagner Moura, três horas antes de exibir seu primeiro filme como diretor, “Marighella”, no Festival de Berlim. Ele se referia à repercussão que o longa vai gerar ao estrear no país. A história acompanha os últimos anos de vida do guerrilheiro de esquerda que pegou em armas contra a ditadura militar.

A obra ainda não tem data de lançamento nos cinemas brasileiros. Em conversa com os jornalistas na capital alemã, a produtora Andrea Barata Ribeiro afirmou ter ouvido de responsáveis pela distribuição do título, que “o momento não é adequado”. “Mas a gente acha que é totalmente adequado. E se necessário, faremos um lançamento independente”, disse.

Enfrentando a ditadura

Procurado pela Folha de S.Paulo, o dono da distribuidora Paris Filmes, Márcio Fraccaroli negou que o temor político seja causa da indefinição. Esquivou-se dizendo, via assessoria, que o calendário de lançamentos “por ora está muito competitivo. Tal qual diversos outros filmes ainda sem data de estreia definida, decidiremos o melhor momento”.

A estreia de Wagner Moura na direção, “Marighella” traz Seu Jorge no papel-título. A obra do cineasta mostra como o revolucionário e seus jovens seguidores partiram para a guerrilha urbana e enfrentaram o aparato da ditadura militar instalada no Brasil em 1964, representada na figura de um policial sanguinolento interpretado por Bruno Gagliasso. Em sua sessão de imprensa, realizada na quinta (14), o filme foi muito aplaudido.

Na conversa com jornalistas de vários países, no dia seguinte, predominaram perguntas sobre as relações entre o que o filme mostra e o atual momento político do país. “O filme não é resposta a nenhum governo específico”, disse Moura. “Obviamente, pode ser lido assim até por ser um dos primeiros produtos culturais do Brasil que está em contraste com o grupo que está no poder.”

Conjuntura horrorosa

Para Moura, o país vive hoje “uma situação horrorosa”, com um presidente “abertamente racista e homofóbico.” Ele também foi indagado sobre o excesso de cenas que mostram a brutalidade policial contra pessoas, principalmente negros.

“Mas o Estado brasileiro é racista. Cinquenta anos depois de Marighella, outra negra foi assassinada num carro [a vereadora Marielle Franco]. A violência do Estado é a mesma da época, conforme se vê nas favelas contra negros. A polícia não tenta proteger os cidadãos, mas o Estado.”

Falando sobre como o filme aborda a questão racial, Gagliasso citou sua filha, que é negra. “Sei da importância desse filme para a minha filha no futuro”, disse, e ficou emocionado.

Com informações da Folhapress.

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