Benzinho mostra como as mazelas podem ser superadas com afeto e resistência

Por Marcos Aurélio Ruy. Foto: Bianca Aun/Divulgação

O filme Benzinho (2018), dirigido por Gustavo Pizzi (Riscado), que também assina o roteiro em parceria com a atriz Karine Teles(Que Horas Ela Volta?), põe na telona uma típica família de classe média baixa, onde a figura materna está no centro de todos os acontecimentos.

Essa obra não está na plataforma Netflix, mas pode ser assistida acompanhando a programação do Canal Brasil, na TV paga. Isso porque a TV aberta abre muito pouco espaço, ou quase nada, para o cinema nacional. Um filme aqui e acolá, de vez em quando.

Predominam os enlatados norte-americanos, empurrados goela abaixo às emissoras tupiniquins na compra de algum filme de grande bilheteria. É a alma dos nossos negócios, com predomínio da vassalagem muito na moda, em pleno 2020.

Na obra premiada no 46º Festival de Gramado, em 2018, Irene, interpretada por Karine, se desdobra para trabalhar, dar conta da casa, dos filhos e do marido Klaus (Otávio Müller). Entre planos abertos e fechados da câmera transbordam os sentimentos naturais à maioria das famílias, onde o afeto predomina mesmo em meio às imensas dificuldades financeiras.

Assista trailer do filme

O cotidiano da família é dominado pela vontade de Klaus em ter um negócio próprio e enriquecer. Enquanto a sua companheira se desdobra para estudar e trabalhar como ambulante e manter a casa.

Sobra a exploração do trabalho infantil pela necessidade imposta pelas agruras da economia e do mercado de trabalho. Os filhos mais velhos tomam conta dos mais novos. Cena comum ainda no Brasil do século 21.

E mesmo Irene, uma mãe superprotetora não percebe esse limite quando dá bronca no filho responsável por cuidar dos irmãos menores, quando chega em casa e um dos filhos pequenos está com febre. “Você não faz nada direito”, diz ela. Triste frase para ser ouvida por uma criança de 12 anos.

E ainda tem gente que defende o trabalho infantil como forma de supostamente melhorar o indivíduo. A violência doméstica, muito grande no Brasil, também aparece quando o marido de Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene, bate nela e a separação do casal acontece.

Em uma entrevista ao G1, Karine afirma que ela e Pizzi queriam “ter foco na empatia, no afeto. É uma energia importante. Um amor sem pieguice, sem romantismo, como potência de enxergar o outro. O filme tem este amor como resistência, paciência. É a força motriz da maioria das famílias”. Conseguiram.

Karine Teles e Otávio Müller em cena de Benzinho (Foto: Bianca Aun/Divulgação)

Se assemelha um pouco com Assunto de Família (2018), dirigido por Hirokazu Koreeeda, na questão da centralidade do afeto e do trabalho para se levar a vida e na pauperização crescente por causa da crise do capitalismo que assola o planeta desde 2008.

Em Benzinho, o convite que o filho mais velho recebeu para jogar handebol na Alemanha tira o sossego de sua mãe, mas vislumbra possibilidades de melhoria de vida no futuro. No drama japonês, a “família” sobrevive de ludibriar o sistema com pequenos furtos.

Além de mostrar como as famílias não percebem o trabalho infantil no serviço doméstico, Benzinho mostra a dupla ou tripla jornada de trabalho das mulheres, além de mostrar a necessidade de mudanças para a vida das famílias ser mais tranquila, cercada de afeto e segurança. Uma obra baseada na esperança.

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