Bacurau resgata o Brasil que tem tudo para dar certo

Por Marcos Aurélio Ruy* Foto: Victor Jucá (divulgação)

A polêmica causada pelo filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, apenas comprova a sua qualidade. Muita gente escreveu sobre a obra cinematográfica que desperta a consciência do Brasil escondido sob os escombros do obscurantismo bolsonarista no poder do Estado brasileiro, neste momento.

As referências dessa obra-prima são muitas e atingiu em cheio o gosto de um público meio adormecido e anestesiado por tanta desinformação transmitida diariamente por uma mídia torpe e antinacional. Para eles, só tem valor o que vem de fora, sejam produtos industriais, manufaturados ou culturais.

Sucesso de público, Bacurau é a reafirmação do Brasil que tem tudo para dar certo, mas não dá porque a elite branca deste imenso Portugal não se sente pertencendo a este lugar e apoia teses genocidas de aniquilamento dos mais pobres. Todos com as mãos sujas de sangue de crianças mortas por “balas perdidas” sempre encontradas nos corpos de crianças pobres, invariavelmente negras e sempre indefesas.

O filme deixa explícita essa questão quando os personagens cariocas que ajudam os “invasores” norte-americanos dizem que são iguais a eles. Recebem zombaria e balas. Jorra sangue vermelho como de todos.

Assista trailer de Bacurau e corra ao cinema

Fica claro que essa elite branca só é elite e branca aqui. Lá fora, não passam de cucarachas (baratas, em espanhol) como os norte-americanos enxergam todos os latino-americanos. Aqui são elite, sentem-se elite e estrangeiros, no exterior são vistos como brasileiros, que tanto renegam.

Como nos versos da canção Não Identificado (1969), de Caetano Veloso a mostrar que a “Minha paixão há de brilhar na noite/No céu de uma cidade do interior/Como um objeto não identificado”. Um drone feito disco voador bem identificado como inimigo.

Bacurau é um extraordinário remix do imaginário hollywoodiano com a tradição do Cinema Novo brasileiro: a estética da fome, a estética do sonho e a pedagogia da violência de Glauber Rocha com banhos de sangue prêt-à-porter vindos dos filmes de ação e reality shows”, escreve Ivana Bentes.

Mas a violência mostrada para chocar, para denunciar a violência real, sangrenta contra os mais vulneráveis, que tomou conta das ruas, das escolas, dos lares brasileiros. Governadores genocidas que ordenam a atiradores de helicópteros a atirarem contra favelados. Governadores que premiam policiais que matam pessoas, mesmo que sejam inocentes ou já estejam dominadas pela força policial.

O primeiro filme brasileiro a ganhar o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019 chama a atenção para isso. É um convite à ação. Cria um panorama de resistência e de possível vitória, com união e coragem, assim como os vietnamitas derrotaram a maior potência militar do planeta nos anos 1970, os Estados Unidos.

O jornalista e escritor Xico Sá lembra da música Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Na parte em que a poesia diz: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!” Canção de 1974, ano em que triunfou a Revolução dos Cravos no país europeu, pondo fim à ditadura fascista comandada por Antônio de Oliveira Salazar. E o Brasil estava soba égide de uma ditadura fascista desde 1964 que só acabou em 1985.

“Uma imensa Bacurau, repito o refrão, na ideia de sobrevivência, na arte de teimar em ser gente e algum cheirinho de vingança (humanum est) nas ventas. Pego bigu no fado do Chico e do Ruy Guerra para tomar o vilarejo do Velho Oeste pernambucano como exemplo de reação organizada ao tratamento ao plano de extermínio por parte dos gringos invasores aliados ao coronelismo-coxinha do prefeito Tony Jr., na interpretação fria e magistral do ator paraibano Thardelly Lima”, escreve Xico Sá.

Os diretores e roteiristas se fiam na canção Réquiem para Matraga (1968), de Geraldo Vandré para encerrar dizendo que “Tanta vida pra viver/Tanta vida a se acabar/Com tanto pra se fazer/Com tanto pra se salvar” e se liga: “Você que não me entendeu/Não perde por esperar”.

Bacurau é o Nordeste que é o Brasil que resiste em teimar em ser gente como uma criança responde à pergunta irônica feita pela personagem do Sudeste, “quem nasce em Bacurau é o que?”, a resposta da pureza da sabedoria infantil responde: “Gente”.

É preciso assistir a Bacurau. Um filme para recuperarmos o orgulho de sermos brasileiros, como tínhamos alguns anos atrás.

*Marcos Aurélio Ruy é jornalista

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