Os processos de alienação

As políticas de direita que estão sendo impostas necessitam de pessoas crédulas, supersticiosas, em suma alienadas dos seus reais interesses, indefesas perante os contrastes entre os cenários de luxo de alguns e a sua insegurança e pobreza crescentes. Os processos de alienação manifestam-se ao nível econômico, social e psicológico.

São estes aspetos que procuraremos muito sucintamente abordar: a alienação pelo desapossamento, os álibis do individualismo e os mitos do “eu” todo-poderoso.


1 – O DESAPOSSAMENTO


Na série de BD “O vagabundo dos limbos”, Goscinny apresenta em “Que realidade, papá” o seu protagonista Axle Munshine na posse de um simpático bicharoco, um “distors”, proporcionado por uma “vidente extra lúcida”. Graças ao “distors” enquanto à sua volta ocorrem tragédias, horrores, violências de toda a espécie, Axle vê um mundo belo, puro, em que os seus desejos parecem sempre prestes a realizar-se. Tudo não passa, porém, de um logro, de uma miragem, de uma realidade encenada. Mas há ainda um “pequeno detalhe”, o “distors” alimenta-se do sangue do seu Axle…

Qual o princípio condutor da alienação? Uma forma talvez mais sedutora, mas que não vê a realidade da forma mais conveniente para os interesses ou os desejos de outrem que os manipula fundo, anestesia, limita, distorce o poder de decidir, de optar, em benefício alheio. A alienação torna-se assim um mecanismo induzido nos explorados para se adaptarem à linha de pensamento dos que os dominam e exploram. Procura-se que as pessoas aceitem o que se lhes propõe sem se interrogarem sobre os seus verdadeiros fundamentos; procura-se por todos os meios denegrir e fazer esquecer os valores de progresso transmitidos do passado. 

Outro aspeto da alienação é a servidão ao objeto, promovida pela designada sociedade de consumo. No entanto, a componente fundamental da alienação, da qual derivam todas as outras, consiste na perda de consciência do valor criado, do valor-trabalho. Toda a economia política do sistema capitalista está baseada na alienação do conceito de valor, na alienação dos resultados do trabalho: trabalho desapossado, trabalho alienado. “Trabalho alienado, significa vida alienada, ser humano alienado, ser humano desapossado” (1).

O objetivo central do neoliberalismo visa o apagamento ou a destruição das expressões de vida coletiva como os sindicatos, mas também a cultura. Atente-se na decadência da cultura e das diversas expressões da arte nesta Europa obcecada pela submissão aos “mercados”.

A alienação existe para os que sofrem as degradações da fome e da pobreza, existe para os que vivem na opressão do trabalho sem direitos nem segurança, sujeito apenas às leis da maximização lucro. Estes estão fora ou na margem da própria condição humana. Mas a alienação existe também para os que se subordinam à religião do consumo em que os grandes centros comerciais funcionam como as catedrais e os mistérios deste culto são mantidos pela permanentemente adição de detalhes técnicos a objetos muitas vezes inúteis ou mesmo perniciosos.

Mas para serem consumidores terão de tornar-se primeiro mercadorias. Cada indivíduo é confrontado com uma dupla personalidade: ora o incensado consumidor soberano ao qual se tecem loas e se organizam campanhas de sedução, ora o produtor, um custo a abater, classificado como parasita se detém na sua condição de trabalhador ou ex-trabalhador, direitos sociais. Por um lado, uma aparência de potencial liberdade, por outro a tendencial condição de pária.

José Gomes Ferreira falava da “idolatria pelas coisas” considerando que “aos que as dominam até as próprias pessoas só interessam quando adquirem o aspeto e a indiferença de objetos.” (2)

A alienação é precisamente a forma de desapossar os seres humanos das suas capacidades humanas e humanistas, das suas potencialidades, dos seus direitos.
“A alienação gera uma massa da Humanidade desapossada e a par disto, em contradição, um mundo de riquezas.” (3)

A partir do momento em que abrimos os olhos para a realidade mais profunda, para além das aparências, libertamo-nos da alienação.

Condorcet, como todos os iluministas tinha esperança no futuro da humanidade. Dizia: “A nossa esperança no futuro da espécie humana pode reduzir-se a estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade num mesmo povo e finalmente o aperfeiçoamento real do homem.”
Em suma, eliminando a alienação, eliminando o desapossamento do ser humano.

2 – ALIENAÇÃO – OS ALIBIS DO INDIVIDUALISMO


A diatribe do primeiro-ministro sobre os portugueses “piegas” não é casual. Para defender o individualismo faz carreira o subjetivismo metafísico, acrescentando-se toda uma carga negativa, carregada de muita calúnia, aos valores de progresso social que resultaram e resultam de ações coletivas. Os valores coletivos e a defesa dos direitos sociais são apresentados pelos que apoiam os fautores de crises, por arcaísmo limitador e timidez coletivista.

Pelo álibi do individualismo as pessoas ficam mais abandonadas do que livres, presas fáceis para as estratégias dos que controlam a vida social e econômica. Que liberdade se obtém convencendo as pessoas a isolar-se? A liberdade é uma construção. O Homem é um ser social. Qual é a liberdade que o individualismo permite? A dos mais fortes, apenas….

“O indivíduo fabricado pelo capital globalizado fica reduzido à sua funcionalidade. Tem a impressão de ser livre porque não consegue reconhecer no dédalo dos determinismos nascentes que se exercem sobre ele, a alienação que o governa e priva da sua individualidade” (4).

Dizem que a multidão destrói o indivíduo, que a multidão é que o manipula. Ora a sociedade não é o que pejorativamente designam por multidão. Multidão é que se obtém com o individualismo, com a alienação, com a soma de egoísmos ou indiferenças, sem constituírem interesses comuns, muito menos ideais. Sociedade é a organização das individualidades no todo comum. Quanto mais perfeita for esta conjugação, mais perfeita será a sociedade.

Defendendo a ilusória “livre escolha” da dogmática neoliberal, nega-se ou procurara-se ignorar que a publicidade condiciona as escolhas. Porém é isto que diariamente se passa nos gabinetes da especialidade.

Serão as desigualdades um progresso social? Será uma sociedade de proprietários dos meios de produção e de trabalhadores sem direitos, submetidos aos seus critérios, um progresso social?

“Criam-se incentivos que levam o trabalhador a endividar-se de modo que a pressão das dívidas assegure que continue a trabalhar” (5). Ou seja, sujeitando-se às piores condições, perda de direitos, precariedade. À guisa de consolação – que traz consigo desprezo – as sumidades do sistema dizem que é preferível emprego precário a não ter nenhum. Mas é isto o mais perfeito modelo que a sociedade capitalista tem para oferecer?!

O que se pretende afinal? O isolamento, a fragilização dos indivíduos, a atomização da sociedade. Mas liberdade não é uma abstração nem um formalismo extático. A liberdade é o somatório de um conjunto de liberdades concretas em cada meio onde o indivíduo se movimenta e se exerce, só atingível pelas ligações sociais que garantam os seus direitos.

Não é o esforço e o querer individuais que pomos em causa: é levar este esforço, esse querer para o campo do individualismo, é a destruição do ser, e dos seres, a sua fragmentação. O esforço individual e participação coletiva são uma unidade dialética da qual resulta o progresso. Não entender isto é nem sequer saber o que é o progresso.

Ignorando que o progresso pessoal é inseparável do social e coletivo o individualismo alienado considera que as ações coletivas limitam e contrariam a evolução pessoal, pois a sociedade existente seria já perfeita nas suas estruturas, pelo que o único progresso possível e desejável seria o que resultasse da ação subjetiva do espírito. No entanto, este individualismo alienado só é bom para os trabalhadores, não é assumido pela burguesia (os detentores do grande capital) que agem em conformação monopolista não apenas suas administrações, mas em conluios, cartéis, enfim nas estruturas nacionais e internacionais ao seu serviço, como sejam as “entidades reguladoras” ditas independentes e instituições como o FMI, BCE, reuniões dos “grandes”, etc.

O hiperindividualismo gerado pelas teorias e práticas econômicas atuais provoca a dissolução social e o regresso a formas políticas e sociais retrógradas. E isto marca a degradação da social-democracia europeia, rendida ao imperialismo das transnacionais.
Vale a pena recordar Erich From em “Ter ou Ser”. Refere que Marx no seu trabalho teórico começou por empenhar-se “em destruir as ilusões que tendiam a ocultar dos trabalhadores a consciência da sua infelicidade”. “O marxismo é o protesto humanista contra a sociedade industrial desumanizada, contra a superstição do lucro”. A sociedade atual evidencia precisamente esta situação que se pretende levar ao limite, com teses em que individualismo significa liberdade.

Um dependente químico exprimiu muito bem este sentido numa entrevista. Dizia ele que sob a ação do psicotrópico “sou livre, não penso em nada. Só eu existo”.
Dizia Robert Owen (1771-1858) ” o individualismo em vez de libertar o individuo faz dele um escravo”, precisamente – acrescentamos – dos que tenham poder sobre os seus meios de subsistência.

Outrora os gladiadores clamavam na arena: “Salve César saúdam-te os que vão morrer”. Nos tempos modernos poderia dizer-se: “Salve acionistas, saúdam-te os que vão ficar na precariedade ou sem emprego”. De fato, na Bolsa as ações sobem quando nas empresas se anunciam despedimentos…

3 – ALIENAÇÃO – OS MITOS DO “EU”


Camus dizia no seu livro “A Peste”: “julgam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem flagelos”. O desemprego, a precariedade, a ausência de direitos sociais são flagelos. A alienação é um flagelo social.

O sistema sobrevive fazendo o possível por que se esqueça a alienação que os mitos do “eu” todo poderoso e o isolamento social provocam.

Como obter o que se deseja? Simplesmente, “pela força do espírito e pelo pensamento positivo”. “Pela compreensão das leis do mundo, libertando o espírito dos pensamentos negativos”. “Os maus pensamentos tornam-nos infelizes. Procure-se a felicidade. O que procuramos, encontramos, está tudo dentro de nós!” Os exemplos do que entendem por “pensamento positivo” não faltam: “Se queres ser rico pensa como eles” “Ganhas o valor que produzes avaliado pelo mercado.” “Se pensares coisas más tudo de mal te acontece.”

O que é isso do “pensamento positivo” ser um meio para se satisfazerem apetites e egoísmos? Onde param neste pensamento os direitos dos demais? Ao fim e ao cabo o que se diz é: pensa só em ti! Eis uma teoria perfeita para os exploradores, ótima para dar boa consciência aos que dominam e conformar os que se deixam dominar.

O que significa essa fantasia do “poder ilimitado da mente”, quando o espírito é condicionado pelo contexto social, por parâmetros hereditários e até prosaicamente, ou talvez não, pela forma como se está alimentado. Os mentores destas farsas sabem tudo isto muito bem, pois gastam milhões em publicidade para iludir as pessoas conforme mais lhes convenha.

Em suma, não há responsabilidade social, tudo é responsabilidade individual. As pessoas não têm que se preocupar com os seus direitos e deveres coletivos, o êxito é sempre individual. Nada de sindicatos, nem reivindicações coletivas, todos podem obter o que realmente desejam se perceberem as leis do Universo…

Mas então não é só isso: compreender as leis do mundo para ser feliz? Mas acaso vivemos num mundo perfeito? E essas leis sociais são imutáveis? Esta é a teoria mais acabada de manipulação para tornar a humanidade unidimensional e alienada ao sabor dos que a gerem segundo os seus interesses egoístas aliados ao poder financeiro, o comum das pessoas só teria de se adaptar a esta sociedade. Porém, como se dizia numa faixa exibida numa concentração de jovens em Madrid: “não é de boa saúde estar adaptado a um sistema enfermo”.

Como é que as causas da desigualdade e das disfunções sociais desaparecem pelo tal “pensamento positivo” alheado de todos os aspectos sociais.

Ao dizerem “se queres ser rico pensa como os ricos” propõe-se sim a perda da consciência como pessoa e como trabalhador, a perda da consciência das relações sociais em que se está inserido.

O indivíduo isolado, centrado no próprio “eu”, não tem liberdade. Esta falsa liberdade é outra forma de escravatura. “Mentalmente o homem torna-se uma mercadoria, fechado no seu “eu” (Marx).

Será que o Homem não se realiza no seu trabalho, no esforço coletivo da sociedade a que pertence e com a qual se identifica? Não há então nada a que se chame sociedade? Somos seres isolados que pautamos as nossas vidas por meros desejos e objetivos individuais? Não será isto afinal a mais grave limitação ao exercício da nossa vontade e do nosso poder espiritual?

Dizia Marx que as pessoas “são tal como se manifesta a sua vida. O que coincide por conseguinte com a sua produção, tanto o que produzem como o modo como produzem. O que os indivíduos são, depende portanto das condições materiais da sua produção” . “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”. “A consciência é de antemão um produto social”. “A consciência é em princípio naturalmente consciência do mundo imediato e sensível que nos rodeia e consciência das relações limitadas com outras pessoas e coisas fora do indivíduo consciente de si mesmo.”(6)

“Não se podem libertar os homens enquanto não estejam em condições de assegurar-se de plenamente alimentação, habitação e vestuário de adequada quantidade e suficiente qualidade”. (6)

Ortega e Gasset disse que “eu sou eu e a minha circunstância”. Parece-me tão evidente, que lembrá-lo torna ainda mais ridículos os que o pretendem ignorar. Contudo este filósofo, insuspeito de marxismo, disse mais: “No capitalismo o Homem é um suporte do capital, um suporte do dinheiro”. Afinal limitava-se a repetir Marx.

1 – Marx – Manuscritos de 1844 p.72 e 71 – Ed. Avante
2 – José Gomes Ferreira – O irreal quotidiano
3 – A ideologia alemã cap.1 – Obras escolhidas de Marx e Engels, ed. Progresso – 1973 – p. 34
4 – Jean Ziegler – Os Novos srs. do Mundo – p. 221
5 – John Keneth Galbraith – O novo Estado Industrial – Ed. Europa América – p.223
6 – A ideologia alemã cap.1 – Obras escolhidas de Marx e Engels, ed. Progresso – 1973 – p. 16, 23, 29. 


Vaz Carvalho é escritor.

Fonte: ODiario.info

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