A revolução será preta e feminina com a unidade da classe trabalhadora; músicas

Por Marcos Aurélio Ruy

A seleção de músicas desta edição se fundamentou na frase da diretora do filme Indústria Americana, Julia Reichert, que levou o prêmio de Melhor Documentário no Oscar 2020. “Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia, e acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”. Qualquer semelhança com o Manifesto Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels, não é mera coincidência.

A cantora e compositora norte-americana Tracy Chapman canta a revolução que virá porque “as pessoas pobres vão se insurgir e pegar o que é delas”, em Talkin’ Bout a Revolution (1988).

Essa profecia se fundamenta no crescimento da miséria para a riqueza produzida no mundo cada vez mais se concentre em poucas mãos. Por isso, a revolução virá quando a classe trabalhadora se unir para destruir o capitalismo, sistema de produção da burguesia, inimigo do trabalho.

Talkin’ Bout a Revolution (Falando numa Revolução), de Tracy Chapman

Você não sabe?
Estão falando numa revolução.
Isso soa como uma confidência
Você não sabe?

Estão falando numa revolução Isso soa como uma confidência

Enquanto eles estão parados nas filas da assistência social

Chorando nos degraus das portas daqueles exércitos da salvação
Desperdiçando tempo nas filas de desempregados
Sentando ao redor da espera de uma promoção

Você não sabe?
Estão falando numa revolução.
Isso soa como uma confidência

As pessoas pobres vão se insurgir
E apanhar sua parte
As pessoas pobres vão se insurgir
E pegar o que é delas

Você não sabe?
Melhor você correr, correr, correr…
Oh, eu te disse é melhor correr, correr, correr, correr…

Porque finalmente as mesas estão começando a virar
Estão falando numa revolução
Sim, finalmente as mesas estão começando a virar
Estão falando numa revolução, oh não
Estão falando numa revolução, oh não

Enquanto eles estão parados nas filas da assistência social
Chorando nos degraus das portas daqueles exércitos da salvação
Desperdiçando tempo nas filas de desempregados
Sentando ao redor da espera de uma promoção

Você não sabe?
Estão falando numa revolução.
Isso soa como uma confidência

E finalmente as mesas estão começando a virar
Estão falando numa revolução
Sim, finalmente as mesas estão começando a virar
Estão falando numa revolução, oh não
Estão falando numa revolução, oh não
Estão falando numa revolução, oh não

Já o cantor e compositor britânico Sting, em We Work the Black Seam (1985), mostra como é difícil para a classe trabalhadora entender as teorias econômicas, principalmente para quem não domina o “economês”.

Mas reconhece que “não podemos desistir de nossos trabalhos como deveríamos” e, por isso, “entramos na alma da nação” até porque a teoria econômica capitalista só faz sentido para quem vive da exploração do trabalho. Sting critica também a agressão à natureza feita por capitalistas ávidos de lucros.

We Work the Black Seam (Trabalhamos a costura preta), de Sting

Este lugar mudou para sempre

Sua teoria econômica disse que seria

É difícil para nós entendermos

Não podemos desistir de nossos trabalhos como deveríamos

Nosso sangue manchou o carvão

Nós entramos na alma da nação

Nós nos importamos mais do que apenas notas e moedas

Sua teoria econômica não faz sentido

Um dia em uma era nuclear

Eles podem entender nossa raiva

Eles constroem máquinas que não podem controlar

E enterrar os resíduos em um grande buraco

O poder se tornou barato e limpo

Rostos sombrios nunca foram vistos

Mas algo mortal para 12 mil anos é o carbono 14

Trabalhamos juntos a costura preta

As mentirosas costuras estão no subsolo

Três milhões de anos de pressão empurrados para baixo

Caminhamos por terras de antigas florestas

E a luz de mil cidades em nossas mãos

Seus sombrios e satânicos moinhos

Tornaram excessivas todas as nossas habilidades de mineração

Você não pode trocar uma banda de seis polegadas

Por todas as venenosas correntes em Cumberland

Um dia em uma era nuclear

Eles podem entender nossa raiva

Eles constroem máquinas que não podem controlar

E enterrar os resíduos em um grande buraco

O poder se tornou barato e limpo

Rostos sombrios nunca foram vistos

Mas algo mortal para 12 mil anos é o carbono 14

Trabalhamos juntos a costura preta

Nossas vidas conscientes são perspicazes

Você se apega à sua montanha enquanto dormimos

Este tipo de vida faz parte de mim

Não há nada que pague: apenas deixe-me ser

E se as crianças chorarem

A roda-viva vai embalar suas almas

E quando você afundar sem deixar vestígios

O universo vai me sugar para aquele lugar

Um dia em uma era nuclear

Eles podem entender nossa raiva

Eles constroem máquinas que não podem controlar

E enterrar os resíduos em um grande buraco

O poder se tornou barato e limpo

Rostos sombrios nunca foram vistos

Mas algo mortal para 12 mil anos é o carbono 14

Trabalhamos juntos a costura preta

A banda Excomungados foi formada em 1983, por estudantes da Universidade de São Paulo, que moravam no Conjunto residencial da USP (Crusp). A banda se destacou no movimento punk, muito forte nos anos 1980 aqui no Brasil.

O punk nasceu nos Estados Unidos nos anos 1970 e se contrapunha aos valores de uma sociedade dominada pela mentalidade da burguesia e como “a burguesia fede” e só quer ficar rica, como canta Cazuza, os punks tinham um visual expressivo de repulsa à ostentação.

“A palavra ‘punk’ é uma expressão da língua inglesa que é usada para classificar um indivíduo ou grupo urbano antissocial que se desviava dos padrões normativos de conduta da época, visto como a parte inútil de uma sociedade. As ideias formadoras do que passou a ser chamado de cultura ‘punk’ eram baseadas no pessimismo, no antiautoritarismo, na ideologia anárquica e no igualitarismo”, assinala Lucas Oliveira.

Em Vida de Operário (1990), os Excomungados relatam o cotidiano de quem trabalha e pouco vê os frutos do seu trabalho porque os lucros são todos dos patrões que cada vez querem mais e mais, sem se importar com a vida do operário.

Vida de Operário, dos Excomungados

Fim de expediente cinco e meia
Cartão de ponto, operários
Saem da fábrica cansados da exploração
Oito horas e de pé
E de pé na fila ônibus lotado
Duas horas em pé ou sentado
Vida de operário
Vida de operário
Vida de operário
Braços na máquina operando a situação
Crescimento da produção
E o lucro é do patrão
Semana é do patrão
Ganância é do patrão

A versão que Chico Buarque fez em 1978 da Canción por Unidad Latinoamericana, do cantor e compositor da nova música cubana, Pablo Milanés, se mantém atual, principalmente neste momento em que as elites locais se unem ao imperialismo para destruir as democracias que se construíram a duras penas nesta parte do continente americano.

“Realizavan la labor de desunir nossas mãos e fazer com que os irmãos se mirassem com temor”, diz uma estrofe dessa importante canção. E não é o que vivemos na atualidade? Mas a poesia expressa esperança ao dizer que “a História é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue”.

Canción por Unidad Latinoamericana (Canção pela Unidade Latinoamericana), de Pablo Milanés e Chico Buarque

El nacimiento de un mundo

Se aplazó por un momento

Fue un breve lapso del tiempo

Del universo un segundo

Sin embargo parecia

Que todo se iba a acabar

Con la distancia mortal

Que separó nuestras vidas

Realizavan la labor

De desunir nossas mãos

E fazer com que os irmãos

Se mirassem com temor

Cuando passaron los años

Se acumularam rancores

Se olvidaram os amores

Parecíamos extraños

Que distância tão sofrida

Que mundo tão separado

Jamás se hubiera encontrado

Sin aportar nuevas vidas

E quem garante que a História

É carroça abandonada

Numa beira de estrada

Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre

Cheio de um povo contente

Que atropela indiferente

Todo aquele que a negue

É um trem riscando trilhos

Abrindo novos espaços

Acenando muitos braços

Balançando nossos filhos

Lo que brilla com luz propia

Nadie lo puede apagar

Su brillo puede alcanzar

La oscuridad de otras costas

Quem vai impedir que a chama

Saia iluminando o cenário

Saia incendiando o plenário

Saia inventando outra trama

Quem vai evitar que os ventos

Batam portas mal fechadas

Revirem terras mal socadas

E espalhem nossos lamentos

E enfim quem paga o pesar

Do tempo que se gastou

De las vidas que costó

De las que puede costar

Já foi lançada uma estrela

Pra quem souber enxergar

Pra quem quiser alcançar

E andar abraçado nela

Já foi lançada uma estrela

Pra quem souber enxergar

Pra quem quiser alcançar

E andar abraçado nela

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